Pobre e sem vontade de estudar, venci a lógica e conquistei três concursos públicos. Mas, no auge, virei as costas para Deus. Mergulhei no que o mundo chama de "curtir a vida" e encontrei apenas o deserto da depressão.
Tentei o fim algumas vezes: uma overdose, os pulsos cortados e um tiro na cabeça. A morte me quis, mas Jesus me escolheu.
Hoje, salvo em Cristo, meu recado é para você que ainda respira: não importa o seu estado, onde há vida, há esperança. Lembre-se: depois da morte segue-se o juízo e aí sim não há mais volta. O seu fundo do poço não é o fim.
AINDA HÁ ESPERANÇA, TENTE UM POUCO MAIS!
Prefácio
Apresente obra é um testemunho verídico das experiências vividas por mim. Cada acontecimento aqui descrito é autêntico e fundamenta-se em fatos reais. Como Cristão, afirmo que a veracidade dos fatos é um princípio inegociável e fundamental para a minha fé. Ao escrever este livro, precisei confrontar memórias dolorosas e complexas. Por vezes, a intensidade das emoções me levou a omitir certos detalhes. No entanto, busquei sempre a verdade, mesmo que isso significasse reviver momentos difíceis. Acredito que a honestidade é fundamental, mas também respeitei limites éticos e a orientação divina.
“Mas, ficarão de fora os cães e os feiticeiros, e os que se prostituem, e os homicidas, e os idólatras, e qualquer que ama e comete a mentira. (Apocalipse 22:15).”
“Não mintais uns aos outros, pois que já vos despistes do velho homem com os seus feitos e vos vestistes do novo, que se renova para o conhecimento, segundo a imagem Daquele que o criou. (Colossenses 3:9-10).”
Sobre o Título
A vida é um risco constante, mas o maior risco que corremos não é aquele que assumimos por aventura ou empolgação momentânea. O risco que eu ignorei e que quase me levou à morte eterna foi o de viver afastado de Jesus, o único que pode nos salvar quando os perigos que corremos se tornam realidade.
Não tenho certeza de quando comecei a levar uma vida desvairada de aventuras e emoções, mas em algum momento ouvi ou, talvez, vi em algum lugar que a vida é um risco que assumimos ao nascer. Naquele momento, essa frase fez todo o sentido para mim. Eu era jovem, sentia-me invencível e acreditava que o perigo era apenas um tempero para a existência. Mas o tempo e as cicatrizes me ensinaram que existem riscos que não valem a pena e outros que são inevitáveis.
Este livro deveria se chamar "A Vida é Um Risco", mas pensei melhor, ou melhor, Deus ardeu no meu coração para mudar por "Tente Um Pouco Mais", pois isso representa de como eu realmente me portei durante a minha jornada não desistindo e tentando um pouco mais toda vez que caía. Mas a referência exata do título vem da música “Outra Vez” do Armando Filho, a qual me lembra muito a minha vida, até a esposa que o Senhor me deu comenta bastante que combina demais comigo a letra desta música, e é um chamado, um conselho para aquele que ler esta história, um convite a tentar um pouco mais. Vá em frente e tente um pouco mais! Segue um pequeno trecho da letra:
Teu pensar, teu modo de agir
E ao sentir que nada adiantou, foi tudo em vão
Oh irmão eu sei que foi ruim
Mas uma coisa eu quero te dizer
Deus te ama assim como tu és
Mesmo quando muitos dizem
Que não há mais solução
Teu Senhor estende a sua mão
Uma vez, outra vez
Vai em frente, tente um pouco mais
Quem sabe hoje aqui
Angústias vão ter fim
E gozarás perfeita paz.
Ordem Cronológica
A ordem cronológica pode não ser linear para que o leitor possa vivenciar a história de uma forma mais profunda. Essa decisão estética visa proporcionar ao leitor uma imersão mais completa na história, permitindo uma compreensão mais abrangente dos acontecimentos. Essa escolha foi inspirada por Deus e tem como objetivo tornar a narrativa mais envolvente.
Sobre O Anonimato
Usarei o pseudônimo de Discípulo de Cristo como autor, que tem um significado importante para mim, ao publicar este livro. Optei por manter a anonimidade para evitar constrangimentos desnecessários. Além disso, minha natureza tímida me leva a preferir narrar essas experiências de forma anônima, permitindo-me maior liberdade para compartilhar detalhes pessoais sem a preocupação de julgamentos ou vergonha. Dessa forma, posso relatar os fatos com maior precisão e conforto.
Sobre as imagens
As imagens que você vê aqui foram geradas por inteligência artificial. O objetivo é estimular sua imaginação e oferecer uma visualização aproximada do que estamos descrevendo.
Capítulo 1: Nascimento
Eu cheguei ao mundo de um jeito muito difícil. O meu nascimento foi tão complicado que quase perdi minha mãe e, logo em seguida, quase morri também. Eu era um bebê muito frágil e os médicos não acreditavam que eu sobreviveria; para eles, o meu fim era certo.
Mas Deus, em Sua bondade, me deu uma nova chance e eu consegui vencer aquela fase. Mesmo assim, a vida não tem sido fácil. Às vezes, me sinto como Jó, aquele personagem bíblico que passou por muitos sofrimentos. Em muitos momentos difíceis que passei por dor física ou quando estava em depressão, chegava a pensar que teria sido melhor não ter sobrevivido naquele hospital.
Já ouvi alguém dizer que: "se nascer fosse bom, a gente não chegaria ao mundo chorando", e por muitas vezes foi exatamente assim que eu me senti: cansado de viver e tentando entender qual era o sentido de tudo isso.
Naquele momento, logo após o meu nascimento, o médico foi muito sincero e o que ele disse deu medo: não havia mais esperanças. A única chance era tentar uma injeção muito forte até mesmo para adultos, uma manobra que poderia me salvar ou me tirar a vida de vez, porque eu era recém nascido e a injeção era muito forte. Toda a responsabilidade ficou nas mãos da minha mãe. Ela se viu em uma situação desesperadora e teve que decidir se autorizava ou não a aplicação. O médico não quis assumir o risco e pediu que ela assinasse um termo de responsabilidade. Para ela, assinar aquele papel parecia como assinar a minha sentença de morte, mas, ao mesmo tempo, era a nossa única e última esperança.
"Entre a vida e a morte, a fé é o único caminho que não nos deixa paralisados diante do medo."
Capítulo 2: A Injeção
A agulha, reluzente e ameaçadora, penetrou minha pele frágil. Aquele líquido escarlate, a última esperança em um frasco, percorria minhas veias, como um rio caudaloso inundando meu corpo. A aplicação foi feita. O silêncio no corredor do hospital era interrompido apenas pelo som dos aparelhos. Cada segundo parecia uma eternidade. Mas, contra todas as estatísticas humanas, meu pequeno corpo reagiu. O que era para ser o fim, tornou-se o testemunho do primeiro de muitos milagres que Jesus Cristo realizaria em minha vida.
Minha mãe, com os olhos marejados, acompanhava cada movimento do médico, rogando aos céus por um milagre. Com a voz cansada, o médico revelou que seu turno estava chegando ao fim. Antes de se despedir, porém, assegurou que havia alertado o colega sobre a minha situação delicada. 'Se ele suar muito', disse, olhando para mim com um misto de esperança e preocupação, 'é sinal de que a vida está voltando a fluir'.
Ao me ver naquele estado, encharcado de suor, minha mãe sentiu um alívio indescritível. Aquele suor, que antes era sinônimo de sofrimento, agora era um sinal de vida, um testemunho da minha luta e da minha vitória. O médico substituto, ao confirmar a melhora, esboçou um sorriso tímido, como se partilhasse da alegria da minha família.
Capítulo 3: Meu Pai
Meu pai, um solteirão bem-sucedido, era o cara mais legal da cidade, e ao tentar conquistar minha mãe ninguém a avisou da verdadeira face dele. Dois carros na garagem e uma moto... Tinha tudo para ser o herói da minha vida. Mas a verdade é que por trás daquela fachada brilhante, escondia um lado sombrio: o vício em álcool e uma vida amorosa bastante agitada.
Não me recordo bem, mas minha mãe me contou sobre um dia de festa na praia. Enquanto as outras crianças se divertiam em bando, eu ficava brincando sozinho, construindo, talvez, castelos de areia. Aquele isolamento me rendeu comentários maldosos de um dos amigos do meu pai, que insinuou que eu era "doido". Naquele momento, não sei se senti tristeza e solidão. Mas meu pai foi em minha defesa e acabou brigando e indo embora irritado.
Outra lembrança marcante aconteceu quando eu era bem pequeno. Queria ser igual aos mais velhos e insistia em beber água em copo de vidro. Na tentativa de alcançar um copo na prateleira, acabei caindo da cadeira e me cortando feio na mão. O sangue jorrava e eu estava em pânico. Meu pai, chamado às pressas, me levou para o hospital. Lá, a cena era caótica. Médicos andavam de um lado para o outro, ignorando os pacientes. A indignação tomou conta do meu pai. Num gesto impulsivo, ele socou com força uma porta de vidro, que se espatifou em mil pedaços. O barulho ecoou pelos corredores e, finalmente, os médicos vieram nos atender.
Então costuravam meu dedo, pensei no meu pai, ali, defendendo meu direito de ser cuidado. Hoje, apesar de todo o sofrimento, senti um orgulho imenso dele. Foi a única vez que o vi agir com tanta coragem e determinação, além do dia da festa na praia, quer dizer também não me recordo direito disso, mas minha mãe me lembrou dos detalhes.
Infelizmente, as outras lembranças que tenho do meu pai são marcadas pela decepção e pela vergonha. Mas aquelas duas situações especiais me mostram que, por trás de suas falhas, ele tinha um coração (não parecia), e isso para mim, é o que importa.
Meu pai era um homem que mudava o tempo todo. A cada nova conquista ou novo relacionamento, ele parecia uma pessoa diferente. Ele vivia intensamente as noites, mergulhado em aventuras e romances que passavam rápido, como um gole de bebida.
Várias vezes ele faliu ou errou, mas sempre conseguia dar a volta por cima e recomeçar do zero, como se renascesse das cinzas. O problema é que, a cada vez que ele tentava subir na vida e buscar o sucesso, ele parecia se tornar uma pessoa mais fria e menos humana.
Longe de casa, ele depositou sua confiança em um relacionamento que se provou amargo e destrutivo. Foi cercado por um falso cuidado que, pouco a pouco, drenou suas forças e sua essência. Do lado de cá, estendíamos os braços na esperança de resgatá-lo, mas ele estava imerso em uma realidade distorcida, onde o verdadeiro amor da família parecia invisível diante das ilusões que o cercavam.
A morte o encontrou sozinho, em um quarto de uma casa estranha em um interior distante, rodeado de estranhos. E a herança que nos deixou foi uma dívida: a de um funeral que tivemos que arcar, um fardo pesado sobre os nossos ombros. Aquele homem que um dia foi nosso pai, nos abandonou não só fisicamente, mas também emocionalmente. A dor da perda se misturou à raiva e à decepção, deixando uma cicatriz profunda em nossas almas.
Capítulo 4: Minha Mãe
Minha mãe sempre me contou sobre uma infância aprisionada. Em uma família numerosa e tradicional, era como se ela fosse a única a não se encaixar nos moldes rígidos impostos pelo meu avô. Seus sonhos, seus desejos, tudo era sufocado pela necessidade de atender às expectativas dele.
O ciúme paterno era algo doentio. Ele não a permitia namorar, estudar, viver a própria vida. Era como se ela fosse sua boneca, destinada a permanecer eternamente sob seu controle. Minha avó, em alguns momentos, tentava intervir, mas a figura paterna era imponente demais.
Quando finalmente alcançou a maioridade, minha mãe, com a ajuda da minha avó, sua mãe, tomou a corajosa decisão de deixar a casa dos pais e ir morar na capital com um irmão mais velho. Era a liberdade que tanto ansiava, a chance de construir sua própria vida. No entanto, a realidade se mostrou bem diferente do que ela imaginava. A fuga da gaiola a levou para outra, disfarçada de liberdade.
Foi naquela época caótica da capital que minha mãe cruzou o caminho do meu pai, um conquistador nato. As irmãs dele, com seus sorrisos cínicos, tentavam a todo custo unir o casal, pintando meu pai como um príncipe encantado, um homem de sucesso e fiel. Mas minha mãe, com sua intuição afiada, desconfiou da farsa. Havia algo em seus olhos, uma sombra que denunciava uma alma inquieta. Ela buscava apenas estabilidade, um emprego que a permitisse construir sua própria vida. O amor não estava nos seus planos, pelo menos não com ele. Era como se uma voz interior a alertasse sobre o caminho tortuoso que a esperava ao lado daquele homem.
A noite, como um manto escuro, envolvia a casa em que minha mãe morava de favor. Mas a tranquilidade era quebrada por vozes alteradas, que se infiltravam pelas paredes finas. Minha mãe, sempre discreta e cuidadosa para não incomodar, ouvia a discussão entre o irmão e a cunhada. As palavras, carregadas de ressentimento, a acusavam de invadir a privacidade do casal recém-casado. A dor a consumia como um fogo lento. A sensação de ser um peso, um incômodo, a dilacerava por dentro.
A proposta de voltar para a casa dos pais, feita em um impulso de desespero, foi prontamente rejeitada pelo irmão. Mas as discussões persistiam, como uma sombra que a perseguia. A angústia de não querer voltar para o interior, somada ao desejo de não atrapalhar a felicidade do casal, a levava a um beco sem saída. A única alternativa, imposta por um mundo que não oferecia muitas opções, era aceitar a proposta do meu pai. Um casamento sem amor, mas um porto seguro em meio à tempestade.
Muitas vezes me questionei: 'Se ela não tivesse aceitado, eu não existiria'. E eu respondo: 'Muitas vezes era exatamente isso que eu queria'. Às vezes, penso que a vida é uma grande ironia. A união de duas pessoas que não se amavam, movidas por circunstâncias e enganos, resultou em mim — em nós, filhos. Mas será que a felicidade se constrói sobre ruínas? Talvez, mas lembrando sempre que a felicidade costuma ser individual.
Capítulo 5: Meus Irmãos
Acasa, antes da gente chegar, nunca foi de muita alegria. Mas com o nascimento de três filhos, as coisas ficaram confusas. Eu, sendo o do meio, sentia que não tinha o meu lugar. Minha irmã mais velha era a única mulher e, quando eu cheguei, parecia que eu era um intruso em um mundo que já estava pronto sem mim.
Minha chegada quase não foi notada, porque coincidiu com uma fase de muitas brigas e traições de meu pai. Eu era como alguém que assistia a uma história onde eu não era o protagonista. A vida boa e a fase do dinheiro que minha irmã aproveitou no começo já tinham acabado. Eu apenas observava a nossa família e o nosso sustento se desfazerem aos poucos.
Depois, veio meu irmão caçula em um momento mais calmo. Ele foi recebido com festa e logo virou o centro das atenções com seu jeito engraçado. Ele puxou a esperteza do meu pai, mas de um jeito leve; por isso, todo mundo perdoava os erros dele. Enquanto eu lutava para ser notado, parecia que ele já tinha nascido com tudo nas mãos. Eu me perguntava: "Qual é o meu papel aqui? Será que foi um erro eu ter nascido?".
Meu irmão era o oposto de mim. Ele era mimado e celebrado por tudo o que fazia, enquanto eu me sentia um estranho dentro de casa. Ele herdou o "charme" e a "inteligência para o mal" do meu pai, e também o jeito de manipular as pessoas para conseguir o que queria. Eu vivia me comparando e doía muito ser diferente e eu vivia pensando se havia algo de errado comigo ou se o problema era apenas eu ser o filho do meio, ou até se fui trocado na maternidade, confesso que por muitas vezes desejei isso.
Capítulo 6: Eu
Minha infância foi marcada por um turbilhão de emoções negativas. As constantes brigas entre meus pais, que muitas vezes escalaram para cenas de violência, que nunca chegaram a agressões reais de fato, porém deixaram cicatrizes profundas em minha alma. A imagem dos dois, com facas nas mãos, se encarando e se perseguindo ao rodearem a mesa, enquanto chorávamos desesperados, é uma lembrança que me assombra até hoje, enquanto nós, crianças, éramos testemunhas impotentes. A incerteza e o medo eram companheiros constantes, intensificados pelos longos períodos em que meu pai desaparecia, deixando-nos à mercê da necessidade. Sem sua presença e sem qualquer suporte financeiro, minha mãe se esforçava ao máximo para nos alimentar, mas a situação era extremamente difícil. A ausência prolongada de meu pai, que desaparecia por semanas ou meses sem dar notícias, agravava ainda mais a situação familiar. Sem uma renda, minha mãe, que não tinha emprego formal, enfrentava dificuldades para suprir nossas necessidades básicas, como alimentação.
Capítulo 7: A Bicicleta
Abicicleta rosa, com suas rodinhas laterais de aprendiz, era um objeto de desejo e de estranheza naquela família. Meu pai, em um gesto quase irônico, a presenteou para nós, três filhos. Minha irmã mais velha era a única mulher e timidamente andava na bicicleta com as rodinhas laterais, mas mesmo com tais rodinhas passava a maior parte do tempo empurrando a bicicleta com os pés, enquanto eu, movido por uma mistura de competição e busca por atenção, insistia em pedalar sem as rodinhas. As manobras arriscadas eram a minha forma de chamar a atenção do meu pai, que, apesar de eu saber andar de bicicleta perfeitamente, parecia mais interessado na frágil tentativa da minha irmã. Aqueles momentos, marcados pela leveza da infância e pela complexidade das relações familiares, ficaram gravados em minha memória como um reflexo daquela época conturbada.
O desejo de me aproximar de meu pai era constante. No entanto, a realidade era outra. Acompanhava minha mãe em diversas situações, incluindo as vezes em que ela o procurava em bares, gerando constrangimento para ambos. Essa dinâmica familiar, marcada por conflitos e desentendimentos, acabou por afastar pai e filho. A presença constante da minha mãe ao meu lado, nessas ocasiões, pode ter contribuído para que meu pai desenvolvesse uma aversão por mim, interpretando minhas ações como uma forma de traição. Como criança, eu me sentia impotente para mudar essa situação. Foi talvez por isso que meu pai passou a me chamar de “Cabeção” ao invés de filho. O desejo de ter um pai presente era grande, mas a realidade era marcada por conflitos e distanciamento. O constrangimento para meu pai, ao qual eu acompanhava minha mãe, intensificou o abismo entre nós. Essa dinâmica familiar, marcada por acusações mútuas, me colocava em uma posição difícil, sem ter como controlar a situação.
A ausência de meu pai e a falta de recursos nos levaram a tempos difíceis. A necessidade era uma visitante constante em nossa casa. Minha mãe, com sua determinação, buscava qualquer forma de sustento, lavando roupas e fazendo faxinas pesadas por míseros trocados ou, muitas vezes, por sobras de comida. Apesar das dificuldades, a sabedoria e a criatividade dela nos permitiram superar aqueles momentos. Suas histórias, contadas com tanto entusiasmo, nos transportavam para outros mundos, aliviando a fome e nos enchendo de esperança. Graças à sua força e à sua capacidade de transformar o sofrimento em esperança, conseguimos superar aquela fase. Suas histórias, como um bálsamo para a alma, nos uniam e nos faziam acreditar em dias melhores.
Lembro-me de uma noite em que, enquanto minha mãe nos contava uma de suas histórias, serviu nossos pratos com poucas quantidades de arroz, farinha e legumes. Notei, com um aperto no coração, que não havia colocado nada em seu prato. Quando perguntei por quê, ela sorriu e disse que não estava com fome, continuando a nos entreter com suas aventuras fantásticas. Naquele momento, compreendi a profundidade do seu amor e a extensão de seu sacrifício.
A mesa era modesta, iluminada apenas por uma pequena lâmpada. Enquanto minha mãe nos narrava histórias de príncipes e princesas, seus olhos brilhavam mais do que qualquer joia.
Nas noites de escassez — pois nossa mãe sempre se esforçava para que houvesse ao menos migalhas sobre a mesa —, suas histórias eram o nosso verdadeiro banquete. Enquanto nos servia o pouco que restava, ela se contentava apenas em nos ver comer. Sua abnegação era a prova silenciosa de um amor incondicional.
O Natal do Jeito de Minha Mãe
Mesmo com pouco dinheiro, a criatividade da minha mãe transformava nossos Natais em momentos especiais. Enquanto outras crianças ganhavam brinquedos novos e caros, a gente ficava feliz com roupas usadas e presentes que ela mesma fazia.
Lembro de um Natal marcante em que ela nos deu cadernos de desenho. Ela tinha guardado aqueles cadernos com muito cuidado por muito tempo, esperando o momento certo para nos dar, porque sabia que não teria como comprar outra coisa. Em outro ano, ela usou massa de modelar para criar bonequinhos feitos especialmente para cada um de nós. Essas festas foram únicas e eu nunca vou esquecer. O talento da minha mãe de fazer muito com quase nada me ensinou uma lição valiosa: a verdadeira felicidade não está nas coisas que a gente compra, mas no amor e na vontade de fazer alguém feliz.
A falta de dinheiro sempre aparecia nos nossos Natais, mas ter a minha mãe por perto fazia a gente esquecer o que não tinha. Enquanto outras crianças ganhavam brinquedos modernos e caros, a nossa diversão vinha de presentes feitos à mão.
Aqui quero ser redundante, aqueles cadernos de desenho que ela guardou por tanto tempo com cuidado, e os bonequinhos de massa de modelar que ela criava com todo carinho, eram verdadeiros tesouros para nós. Mesmo sendo tudo muito simples, nossos Natais eram cheios de amor e a nossa família era unida. A criatividade dela transformava o pouco que tínhamos em momentos que eu nunca vou esquecer.
Às vezes me pego relembrando esses momentos e confesso que ainda me vejo com lágrimas nos olhos, não com pena de mim mesmo ou da gente, mas em ver o amor de Deus e como Ele cuida dos seus filhos.
Existiam, misturadas à terra, umas britas do resto de construção no quintal, se transformaram em um canteiro improvisado, onde brotaram tomates e coentro. Minha mãe, com sua sabedoria, transformou esses alimentos simples em um prato especial, a 'farinha tropeira', assim batizado por ela, era só farinha, sal e coentro. Aqueles piqueniques no quintal, com o tapete estendido e as portas trancadas, eram momentos de união e felicidade. A cada colher a boca, sentíamos o sabor do amor e da superação.
A infância, mesmo marcada por dificuldades, era repleta de alegrias simples.
O Começo de uma Nova Fase
Depois de passar por tantos tempos difíceis em um bairro onde nem sempre as pessoas se ajudavam, finalmente surgiu uma esperança. Minha mãe apareceu com um brilho nos olhos que a gente nunca tinha visto para nos dar uma notícia que mudaria tudo.
Tudo aconteceu em uma tarde comum, enquanto ela trabalhava fazendo faxina na casa de uma vizinha. Essa vizinha contou que ia sair do emprego dela em um hospital e ofereceu o lugar para minha mãe. Com muita bondade, ela indicou minha mãe para a vaga.
Esse emprego foi o ponto de virada na nossa vida e abriu as portas para um futuro melhor. A partir dali, as coisas começaram a melhorar aos poucos. Quando a gente menos esperava, a nossa sorte começou a mudar de verdade.
O Socorro que Veio de Longe
No meio de tanta dificuldade, e paralalelamente a notícia do emprego, mais um milagre aconteceu. O irmão da minha mãe sentiu no coração que devia nos visitar. Foi um encontro enviado por Deus, porque minha mãe, por vergonha ou discrição, nunca tinha contado para a família como a nossa situação estava feia de verdade.
Quando meu tio abriu a geladeira e viu que só tinha garrafas de água dentro, ele não aguentou e chorou. Com o pouco dinheiro que tinha, ele comprou o que pôde para a gente comer e decidiu, naquele mesmo dia, que nos tiraria dali.
Ele morava longe, em um bairro de periferia que era perigoso e cheio de problemas, mas isso não o impediu de nos ajudar. Rapidamente, surgiu uma chance: trocar a nossa casa, que estava cheia de dívidas que a gente não podia pagar, por uma casinha menor e mais simples perto da dele, mas que já estava paga, sem dívidas.
Para a gente, foi como se um anjo tivesse trazido a solução para tirar aquele peso das nossas costas. Nós, que éramos crianças, nem imaginávamos que poderíamos perder o teto a qualquer momento por causa das dívidas. Mas Deus é fiel e não nos abandonou.
Capítulo 8: A Mudança
Amudança para o novo bairro marcou um ponto de inflexão em nossas vidas. Em um ambiente marcado pela violência e pela falta de oportunidades, encontramos a força para resistir e transformar nossas realidades. Agradeço a todas as pessoas que, direta ou indiretamente, contribuíram para minha formação, moldando meu caráter e me inspirando a seguir em frente. A ausência da figura paterna e a materna que trabalhava muito, poderia nos levar por caminhos tortuosos, mas o Senhor cuidou de mim como sempre e me enviou a lugares e pessoas certas.
Nossa, que aventura foi mudar de escola no meio do ano! Sem farda nova e com a escola em obras, as coisas não foram fáceis no começo. Mas, com a ajuda da minha família e de Deus, consegui superar tudo isso. Ganhei um tênis usado da minha prima e uma farda que servia tanto para meninos quanto para meninas, mas não me importei! O mais importante era estar aprendendo e fazendo novos amigos. Comecei a frequentar uma igreja que se tornou meu refúgio, um lugar onde encontrei amor, apoio e aprendi sobre os valores de Cristo.
Capítulo 9: A Igreja
Foi na igreja que vivi os momentos mais intensos e felizes da minha vida. A partir daquele instante, tudo mudou: a vida ganhou cores vibrantes, meus sonhos se tornaram mais claros e eu finalmente encontrei um propósito. Logo me conectei com a banda da igreja e, com muito entusiasmo, me tornei o baterista substituto. Pouco tempo depois, a oportunidade de ser o baterista titular chegou e eu a agarrei com todas as forças. Aquela época foi marcada por sonhos grandiosos e uma leveza que me permitia aproveitar cada momento. Foi lá que conheci um integrante da banda que se tornou meu mentor e irmão mais velho. Sua influência foi fundamental para que eu me dedicasse aos estudos e perseguisse meus objetivos, como passar em um concurso público.
A igreja foi o meu refúgio e o lugar onde minha fé se fortaleceu. A partir daquele momento, minha vida tomou um novo rumo e meus sonhos ganharam vida. A música, especialmente a bateria, se tornou minha paixão e a banda da igreja me proporcionou momentos inesquecíveis. Aquele período foi marcado por um crescimento pessoal significativo e por uma fé crescente.
Naquela época de emoções juvenis, entre o despertar da paixão e a angústia da adolescência, sonhava em conquistar o mundo, em ter uma namorada e, enfim, me sentir um homem de verdade. Mas a realidade, crua e implacável, me impedia de voar alto. Minha mãe, guerreira incansável, lutava contra a pobreza com unhas e dentes, espremendo cada centavo de seu magro salário para manter o teto sobre nossas cabeças. O pai, ausente e imprevisível, voltava para casa como um fantasma, trazendo mais fardos do que alívio. Suas promessas de uma vida melhor se esvaneciam com a mesma rapidez com que o dinheiro em seus bolsos desaparecia. A cada mentira, a cada ausência, um pedaço da nossa esperança se desfazia. E assim, vivíamos em um limbo, pendurados por um fio, à mercê das incertezas da vida.
A juventude, com seus sonhos e paixões, contrastava com a dura realidade de uma família marcada pela instabilidade. Enquanto meus amigos planejavam o futuro, eu lutava para sobreviver. A mãe, heroína anônima, carregava o peso da família sozinha. Em meio a tantas dificuldades, a esperança era um fio tênue que nos mantinha unidos.
A descoberta dos concursos públicos, durante uma visita à casa do meu amigo da banda da igreja, foi um divisor de águas em minha vida. Aquele jornal, com seus anúncios de oportunidades, me mostrou um caminho a seguir. Ele me explicou tudo, que até então era um mundo desconhecido. Compartilhei minha euforia com minha mãe, que, mesmo sem grandes expectativas, me incentivou a perseguir meus sonhos. Com materiais limitados e muito esforço, comecei a estudar, superando as dificuldades e a falta de experiência. A cada página lida, a cada exercício resolvido, minha confiança crescia. Minha mãe, mesmo sem acreditar muito em meu sucesso, nunca me desanimou, e isso foi fundamental para que eu persistisse. É interessante como Deus planeja os nossos passos e coloca pessoas em nossas vidas, ao mesmo tempo em que corremos o perigo de cruzar com alguém que o diabo tenha enviado para nos afastar do caminho correto.
Capítulo 10: Amizades
Mas havia um obstáculo oculto, um inimigo disfarçado de amigos: a influência do grupo. Aos 15, 17 anos, o futebol era mais do que um esporte, era uma paixão que consumia meus dias. A bola rolando era a minha fuga da realidade, era um sonho como o da maioria dos jovens brasileiros, mas que para mim era inalcançável, de ser um jogador profissional. Mas a companhia dos amigos, a necessidade de pertencer ao grupo, me impediam de focar nos estudos. A cada tarde, a tentação de trocar os livros pelo campo era irresistível. Era um dilema constante: seguir meus sonhos palpáveis em passar num concurso ou ceder à pressão do grupo?
A companhia dos amigos era fundamental para mim e a paixão pelo esporte muitas vezes me afastava dos estudos. A decisão de estudar para um concurso era difícil, pois significava abrir mão de um pouco da minha liberdade e dos momentos de lazer com meus amigos. Era um conflito interno que me atormentava.
A amizade é um dos maiores presentes da vida, mas também pode ser uma armadilha. Naquela época, os amigos eram tudo para mim. Passávamos horas juntos, jogando bola, rindo e vivendo aventuras. Mas essa intensa amizade, muitas vezes, me impedia de seguir meus objetivos. A decisão de estudar para um concurso era difícil, pois significava abrir mão de momentos com meus amigos e enfrentar a solidão dos estudos.
Quando surge uma oportunidade que me faria explodir de alegria: um concurso para fuzileiro naval! Com 17 anos, que na época era a idade certa para a inscrição, eu já me via fardado, forte e respeitado. Era o sonho! Aquele anúncio era como um farol no meio da tempestade, indicando o caminho a seguir. Com os livros velhos e muita determinação, comecei a estudar. As tardes de futebol, tão tentadoras, foram trocadas por horas de estudo. A cada página virada, a cada exercício resolvido, eu me sentia mais próximo da minha meta. A adrenalina da prova era a mesma que sentia nos campos de futebol, só que agora a bola era a caneta e o gol era a aprovação!
A tentação de abandonar os estudos e voltar para o futebol era constante. A cada grito dos meus amigos me chamando para jogar, meu coração acelerava. Mas a imagem de mim mesmo fardado, realizado, me impulsionava a continuar. Era uma batalha diária entre a paixão pelo futebol e a ambição de construir um futuro melhor. A aprovação no concurso seria a minha maior conquista até então. Foi um período de grandes desafios, mas também de muito aprendizado.
A tentação era irresistível. A cada tarde, o chamado da bola ecoava mais forte que o som dos livros. A batalha interna entre o dever e o prazer foi longa e intensa. Infelizmente, a vontade de estar com os amigos e de jogar futebol falou mais alto. Troquei horas de estudo por momentos de prazer efêmero. O dia da prova chegou e com ele, a dura realidade. Ao chegar ao local e ver aqueles marinheiros imponentes, senti um aperto no peito, cercado por aqueles outros jovens determinados, senti-me pequeno e insignificante. Enquanto eles respondiam às questões com segurança, eu lutava para me lembrar do que havia estudado. A sensação de fracasso era iminente.
Aquele era o meu sonho do momento, mas eu não havia feito o suficiente para alcançá-lo. A cada questão que eu não conseguia responder, a distância entre meu sonho e a realidade aumentava. A frustração era tão grande que me parecia insuportável.
A decepção com o resultado do concurso foi grande, mas me esforcei para não ficar abalado. Ao ver a alegria dos aprovados, senti um incômodo, não por inveja, mas por saber que poderia ter feito mais. No entanto, a vida me presenteou com uma segunda e última chance no segundo semestre, de fazer outra prova, já que ficaria maior de idade no ano seguinte e a idade máxima era 17 anos. Com a determinação de um guerreiro, decidi que não iria desistir. A partir daquele momento, me joguei de cabeça nos estudos, com a certeza de que a vitória seria minha. Aquele fracasso inicial me tornou mais forte e mais resiliente.
A experiência do concurso foi um divisor de águas em minha vida. A decepção inicial me fez perceber a importância da disciplina e do foco. Embora não tenha sido aprovado, aprendi muito com aquela experiência. Aquele não foi o fim, mas sim o início de uma nova jornada. Com a segunda chance, me senti mais motivado do que nunca. Sabia que a vida me reservava grandes desafios, e eu estava pronto para enfrentá-los. A partir daquele dia, abandonei o futebol e me dediquei exclusivamente aos estudos, com a certeza de que a vitória estaria ao meu alcance.
Os chamados do futebol ecoavam ao longe, mas em meu interior, um novo som ressoava: o som da vitória. A cada dia, a imagem de mim mesmo fardado, com o nome na lista dos aprovados, me impulsionava a estudar com mais afinco. A prova se aproximava e a ansiedade crescia, mas eu estava me preparando da melhor forma que podia no momento. No dia da divulgação dos resultados, com o coração palpitante, busquei meu nome na lista. A tensão era palpável, não vi meu nome de início e quase me entristeci, mas a esperança me mantinha firme. E lá estava ele, em meio aos 22 nomes dos aprovados, na minha região! não fui dos primeiros, na verdade fui o vigésimo (20°) colocado, mas a emoção foi indescritível. Aquele era o resultado de muita dedicação, suor e superação. Deus havia me abençoado com essa conquista. Não canso de dizer que Deus é fiel.
A jornada até a aprovação foi longa e desafiadora, mas cada obstáculo superado me tornou mais forte. Aquele dia, ao ver meu nome na lista, senti que havia alcançado um marco importante em minha vida. A conquista do concurso foi muito mais do que apenas uma aprovação, foi a prova de que com dedicação e persistência, somos capazes de realizar nossos sonhos. Sou grato a todos que me apoiaram nessa jornada, em especial a Deus, por me guiar e me fortalecer a cada passo.
Antes, a preocupação era com o futuro incerto, mas agora, com um caminho traçado, podia me permitir sonhar com um amor para compartilhar minhas conquistas. A aprovação no concurso me fez sentir mais confiante e pronto para viver novas experiências, como um relacionamento amoroso. A estabilidade conquistada permitiu que os sonhos de amor florescessem em meu coração.
Capítulo 11: A Decepção
Aaprovação no concurso foi um soco no estômago da antiga vida sofrida. A euforia, porém, foi breve. A exigência de realizar exames médicos em outro estado me jogou em um abismo de incertezas. Como um castelo de cartas, minhas esperanças ruíram. Eu precisei faltar um dia no colégio para usar o passe de estudante para poder ir ao órgão representante da marinha de meu estado e entregar os documentos, mas agora, também, precisaria ir na base naval em outro estado o que necessitaria de passagens caras para mim, além de alimentação e estadia, a realidade me esmagou. A sensação de fracasso era tão intensa que decidi desistir. Ao cruzar a porta de casa, derrotado e humilhado, encontrei nos olhos da minha mãe a tristeza que espelhava a minha. Abracei-a, quebrando a barreira da masculinidade, e chorei como nunca. A vida, que havia me dado um gostinho de felicidade, agora me jogava no fundo do poço. O emprego, a namorada, tudo parecia distante e inalcançável.
A aprovação no concurso foi o ápice de uma jornada árdua. A falta de recursos financeiros me fez questionar se meus sonhos eram, de fato, possíveis. A angústia me consumia a cada segundo. A vida, com suas curvas inesperadas, me mostrava que a felicidade não está apenas nos grandes feitos, mas na capacidade de superar obstáculos e encontrar forças para seguir em frente.
A esperança, que já começava a se apagar, reacendeu-se quando recebi a ligação do órgão da marinha me chamando para comparecer lá. A oportunidade de realizar meu sonho estava mais perto do que nunca, mas a falta de dinheiro para a condução me jogou novamente no abismo da incerteza. Por sorte, meu tio, o mesmo que arranjou a troca da casa, estava nos visitando e prontamente me ofereceu uma carona. Ao chegar na Capitania, o Sargento responsável, com um olhar de compaixão, me informou sobre a última chance de participar do processo seletivo. A emoção tomou conta de mim, mas a realidade logo me atingiu: não tinha como pagar as passagens. As lágrimas quase rolaram pelo meu rosto enquanto eu explicava minha situação. O Sargento responsável, movido por um gesto de generosidade, prometeu tentar me ajudar e saiu pedindo que nós aguardássemos. Minutos depois, ele retornou com uma notícia que me despedaçou por dentro: seus colegas não estavam dispostos a me ajudar, pois eu era um dos últimos da lista, a tentativa dele fazer uma “vaquinha” para me ajudar foi frustrada. A esperança, que havia renascido com tanta força, foi novamente sufocada pela indiferença alheia.
Uma chance Diferente
A cada dia que passava, uma voz interior mais forte me dizia que eu não era capaz, que a vida era injusta comigo. A frustração me consumia, e a vontade de desistir se tornava cada vez mais intensa. Parecia que nada dava certo, não importa o quanto eu me esforçasse. Mas então, um raio de esperança surgiu. Uma amiga do trabalho da minha mãe, ao saber da minha situação, me enviou uma mensagem de apoio e me presenteou com livros que a ajudaram em sua jornada e também ajudaria na minha. Suas palavras e gestos me tocaram profundamente. A crença de que eu poderia conseguir passar, de novo, em mais um concurso diferente que apareceu, e de que a vida me reservava novas oportunidades, começou a renascer em meu coração. Mesmo com a dificuldade do novo concurso que apareceu e com a complexidade dos conteúdos, resolvi me dedicar aos estudos. Aquele pequeno gesto de apoio foi o combustível que precisava para recomeçar.
A partir daquele momento, decidi que não me deixaria abater pelas dificuldades. O novo concurso, apesar de mais desafiador, representava uma oportunidade de crescimento e aprendizado. Com a esperança renovada e o apoio da minha mãe e dessa amiga dela, embarquei nessa nova jornada, determinado a alcançar meus objetivos.
A rotina de estudos se tornou meu novo refúgio. Troquei as partidas de futebol e as horas de descontração com amigos por momentos de profunda conexão com Deus aliado aos estudos. A cada amanhecer, iniciava meu dia com um devocional, buscando força e direção. As tardes, após longas horas de estudo, eram marcadas por um ritual especial: sentava-me ao lado de casa, observava o pôr do sol e, com os olhos da fé, me via vestindo a farda do cargo que tanto almejava. Aqueles momentos de visualização me impulsionavam a ir além, mesmo quando a realidade parecia desafiadora. A incerteza se teria dinheiro quanto à inscrição no concurso não abalava minha confiança. Eu acreditava, com todas as forças, que Deus abriria as portas certas no tempo certo. A fé me permitiu ultrapassar meus limites e seguir em frente, mesmo diante de um futuro incerto.
A disciplina se tornou minha aliada mais fiel. Desliguei-me das distrações e mergulhei de cabeça nos estudos. A cada dia, a fé me fortalecia e me dava a certeza de que estava no caminho certo. Ao visualizar meu sucesso, encontrava a motivação necessária para persistir. A incerteza financeira não me paralisou. A fé me impulsionava a acreditar que, de alguma forma, tudo daria certo. Afinal, a recompensa por tanto esforço seria imensurável. Aquele período de dedicação exclusiva aos estudos foi um divisor de águas em minha vida.
Por Um Fio
A hora da inscrição chegou e, como previsto, não tínhamos um centavo. Com a fé inabalável, pedi a Deus que providenciasse o dinheiro. Minha mãe, confiante, sugeriu que pedíssemos ao meu pai, mas a esperança logo se transformou em desilusão. Ao chegar em casa, bêbado logo desabou no sofá e dormiu, ele deixou cair no chão uma quantia muito considerável de dinheiro. A sorte? Divina providência? Ironia do destino? Não sei. A euforia inicial de ter encontrado o valor necessário, e muito mais, para a inscrição logo se dissipou quando o acordei e devolvi o dinheiro encontrado ao chão e logo após devolver pedi ao meu pai o dinheiro necessário para inscrição no concurso, e pasmem, por incrível que pareça ele disse que não tinha. A negativa foi um balde de água fria. Minha mãe, indignada com a atitude do meu pai, não se calou e garantiu que eu continuaria estudando, mesmo que, apesar da vergonha, precisasse pedir dinheiro emprestado. A amiga que me doou os livros, mais uma vez, estendeu a mão e me ajudou a realizar meu sonho.
A maldade do meu pai contrastava com a generosidade dessa mulher, que se tornou uma verdadeira benfeitora em minha vida.
A atitude do meu pai me motivou a provar que era capaz de alcançar meus objetivos sem a ajuda dele. A gratidão que sinto por essa mulher é imensa, pois ela não apenas me ajudou financeiramente, mas também me mostrou o verdadeiro significado da amizade e da solidariedade.
O Ensino Médio
Conheci um amigo inestimável durante essa fase da minha vida. Ele, um jovem casado que trabalhava o dia todo, dividia seu tempo comigo nas aulas noturnas do ensino médio. Nossa amizade se solidificou rapidamente, não apenas pelas horas em sala de aula, mas também pelas longas viagens de ônibus que fazíamos juntos para casa. Compartilhando o mesmo transporte, nossos sonhos e desafios se entrelaçaram. Ele, assim como eu, ansiava por novas oportunidades e sonhava em passar em concursos públicos. A paixão por esse objetivo, aliada ao seu trabalho em uma loja de uniformes militares, o impulsionou ainda mais a querer fazer parte desse universo.
Após o ensino médio, continuamos estudando juntos por longas horas. Ele, com sua generosidade, sempre dividia comigo as apostilas que xerocopiava, já que eu não tinha recursos financeiros para isso. Sem seu apoio incondicional, certamente não teria conseguido passar para a próxima etapa. Ele foi mais que um amigo, foi um irmão.
Capítulo 12: A 1° Namorada
Ainda que tivesse traçado um plano de adiar o amor até conquistar minha independência financeira, o destino tinha outros planos para mim. Morávamos em uma rua movimentada, por onde passavam diariamente garotas que me encantavam. Uma em especial, com sua beleza e aura misteriosa, despertou em mim um sentimento que jamais havia experimentado. A distância e a insegurança me faziam acreditar que era um amor impossível. Mas Deus, em sua infinita sabedoria, me mostrou que não há nada impossível, e me presenteou com uma amizade inesperada. Uma amiga dessa garota especial, que também nutria um carinho por mim, nos aproximou. Em um encontro casual, no caminho de volta de um show gospel, a conversa fluiu naturalmente, quebrando minhas barreiras e me revelando um mundo de possibilidades no amor. Para minha surpresa, descobri que a garota que tanto admirava estava solteira e, para minha felicidade, interessada em mim. Decidi, então, dar um passo adiante e pedi-la em namoro, prometendo a mim mesmo que daria o meu melhor para construir um futuro juntos.
O primeiro amor, que deveria ser um momento de felicidade e descoberta, se transformou em uma profunda decepção. A juventude é marcada por paixões intensas e amores que acreditamos serem eternos. Aquele amor, vivido com a intensidade de quem descobre o mundo, me marcou profundamente. Mas Deus, com sua sabedoria, me ensinou que nem tudo é do jeito que queremos ou pensamos. Não O culpei, pelo contrário, Ele estava me moldando.
A ironia da situação era cruel: enquanto eu acreditava estar construindo um futuro com alguém que amava, ela já havia planejado minha saída de cena. A descoberta de que era apenas uma peça em um jogo de manipulação foi um choque. A descoberta de que ela havia arquitetado um plano para me deixar e voltar com o ex-namorado foi um dos momentos mais dolorosos da minha vida. Com o tempo, aprendi a lidar com a dor e a seguir em frente, mais forte e mais atento aos sinais de um relacionamento saudável, quer dizer, nem tanto assim.
Isso me impulsionou ainda mais a estudar e mostrar pra ela que eu seria alguém. Me tranquei em casa com os livros e os estudos foram meu consolo naquela época.
Capítulo 13: O 2° Concurso
Aansiedade tomava conta de mim na véspera da prova. A confiança em Deus me fortalecia, mas a insegurança de competir com pessoas que haviam feito cursinho me assombrava. Evitava comparar minhas qualificações com as dos outros para não me desanimar. Meu foco era Deus e a prova em si.
A prova, elaborada por uma renomada universidade do país, apresentou um grau de complexidade esperado. No entanto, a preparação intensiva, iniciada ainda antes da divulgação do edital, me permitiu enfrentar o desafio com confiança. Como este era o primeiro concurso público para a Guarda metropolitana, Municipal ou civil, a terminologia é utilizada para designar os órgãos de segurança pública municipal e pode variar um pouco de cidade para cidade, mas, no geral, referem-se à mesma instituição: a Guarda Municipal (no meu caso, da capital do estado), e os profissionais que atuavam aqui na área, até então, haviam sido realocados de outras secretarias ou ocupavam cargos comissionados, tive que me basear em editais de concursos de órgãos de segurança pública municipal do país inteiro para direcionar meus estudos, pois esse seria o primeiro feito aqui.
Existiam duas opções de concurso naquela época, a decisão de seguir na área da segurança pública foi após a experiência na Marinha, e a escolha pelo órgão de segurança pública municipal, em detrimento do concurso estadual da companhia de saneamento do estado, mostraram-se acertadas. A preparação intensa e a escolha estratégica foram os principais fatores para a minha aprovação.
A Deus toda honra e glória! Minha jornada de estudos, iniciada com orações e a palavra de Deus, foi fundamental para alcançar essa conquista. A aprovação entre os cem primeiros num total de duzentos foi um sonho realizado, mas a frustração de meu amigo, que me apoiou incondicionalmente, me deixou profundamente tocado. No entanto, assim como ele me inspirou em minha aprovação, eu tive a alegria de testemunhar seu sucesso em um concurso posterior, em que competimos juntos novamente em outra instituição.
O concurso era bastante concorrido, com 200 vagas e possibilidade de chamamento de excedentes. As turmas seriam divididas em grupos de 50 alunos para o curso de formação. Diante da incerteza do resultado, mas com a esperança de ser aprovado, decidi iniciar a preparação física imediatamente após a prova, mas antes do resultado. A atitude de um membro da igreja, que se dizia ter sido aprovado neste concurso me impressionou, ele treinava intensamente e dizia para todos como se tivesse certeza da aprovação. Embora não tivesse certeza da minha aprovação, preferi me preparar para o teste físico, visando otimizar minha classificação, que contava pontos no resultado final e iniciar a nova etapa o mais rápido possível.
Os dias se arrastavam enquanto aguardava ansiosamente pela divulgação do resultado. A cada nova tentativa de obter informações, a ansiedade aumentava. A alegria da aprovação foi indescritível, mas a frustração do membro da igreja, que havia expressado tanta certeza de seu sucesso, me fez refletir sobre a importância da humildade. Talvez a confiança excessiva tenha sido um obstáculo para ele. Aprendi que celebrar as conquistas é importante, mas a discrição pode ser uma aliada em momentos de incerteza.
Capítulo 14: O Treinamento
Apreparação física para o concurso foi intensa e exigiu muito de mim. A classificação para a segunda turma me deixou ansioso para começar a trabalhar logo, principalmente após da desilusão amorosa. Treinei incansavelmente, buscando a perfeição física, mesmo sob o sol escaldante do meio-dia que eu treinava para obter mais resistência, mal sabia eu que essa vontade de correr no meu treinamento particular ao meio-dia era obra de Deus. No dia do exame físico, a prova foi ainda mais desafiadora do que eu esperava, pois foi exatamente no sol de meio dia, mas a minha preparação rigorosa me permitiu superar todos os obstáculos. E hoje vejo que a ideia de treinar sob o sol de meio dia não havia sido minha, era a providência de Deus na minha vida. A classificação para a primeira turma foi uma grande vitória, e tenho certeza de que foi Deus quem me conduziu até aqui em todas as situações. Se na prova escrita (teórica) fiquei na 74° (septuagésimo quarto) posição geral, com a prova física subi para a 42° (quadragésimo segundo) posição geral. A fé me fortaleceu e me deu a força necessária para alcançar meus objetivos.
A partir dali, a contagem regressiva para o início do treinamento começou. Meses de estudo intenso e dedicação culminaram no tão sonhado dia da matrícula. A jornada que se iniciava era fruto de muito esforço e superação. Aquele momento foi especial, pois me permitiu mostrar a mim mesmo e aos outros, principalmente ao meu pai, que era capaz de alcançar meus objetivos. A ausência paterna durante a minha vida me motivou a buscar minha independência e a construir meu próprio futuro.
Mas essa aprovação no concurso aproximou-me do meu pai de uma forma que eu nunca imaginei. Ele, que sempre foi tão distante, demonstrou um orgulho imenso e me apoiou financeiramente durante todo o treinamento. Deus é fiel.
A felicidade parecia completa, mas a vida é sempre cheia de surpresas mal sabia eu que o pior estaria por vir.
Meu Primeiro Emprego
Eu era um recém-formado no órgão de segurança pública municipal, cheio de expectativas e pronto para servir. Mas a realidade que me aguardava naquela primeira noite de trabalho era bem diferente do que eu imaginava. Em vez de um mar de rosas, encontrei um campo minado de desafios.
Viaturas precárias, motos que mal roncavam e um arsenal que fazia mais rir do que temer. Revólveres Rossi, já fora de linha, eram nossos fiéis companheiros, abastecidos com míseras três munições por guardião. Nem para fechar os buracos do tambor dava! A munição, além de escassa, era de péssima qualidade, colocando em risco nossa segurança a cada patrulha.
Mas nem tudo era desespero. A camaradagem entre os colegas era forte, e juntos, fazíamos o possível para manter a ordem nos turnos. Até mesmo comprávamos munição clandestina para garantir nossa própria proteção.
Os tempos, no entanto, mudaram. A história agora é outra. A Instituição hoje em dia está equipada com armamento moderno e de qualidade, munição abundante e salários justos. Tudo o que eu sonhava quando entrei naquela primeira noite se tornou, para eles hoje realidade, eu antes de sair não cheguei a alcançar todas as melhorias.
Mas a minha história não termina aí. Depois de pouco mais de um ano de muita dedicação e suor, decidi seguir novos caminhos. Deixei a guarda para trás, mas as memórias daqueles dias turbulentos, mas também heroicos, jamais serão apagadas. Lembro bem de um dia que me marcou.
Capítulo 15: O Terminal
Anoite era fria e tranquila no Mercado Central da cidade. O silêncio era apenas quebrado pelo ronronar dos ônibus e pelo zumbido das lâmpadas fluorescentes. Eu, como guardião, estava vigilante, pronto para qualquer eventualidade. O terminal de ônibus, sob nossa responsabilidade em conjunto com a polícia da área, pairava em uma calmaria quase palpável.
De repente, o sossego foi estilhaçado por gritos e agitação. Um frio percorreu minha espinha enquanto a adrenalina subia em minhas veias. O fiscal do terminal, com a voz trêmula, solicitou nossa ajuda: alguém estava depredando os ônibus dentro do terminal, colocando em risco a vida de motoristas e passageiros.
Sem hesitar, corri para o local da confusão. Meus colegas, ainda procurando por cassetetes, demoravam a se organizar. Era eu e mais dois contra o desconhecido. A bravura pulsava em minhas veias, impulsionando-me a agir.
Ao chegar ao terminal, a cena era caótica. Um homem enfurecido, armado com um pedaço de Pedra bem grande, destruía tudo em seu caminho. Os passageiros, em pânico, tentavam se proteger, enquanto os motoristas observavam a cena com impotência.
Não havia tempo para pensar duas vezes. Com um grito de comando, eu parti para cima do vândalo. O suor escorria pela minha testa enquanto eu me aproximava cautelosamente do estranho. Ele era imponente, maior e mais forte que eu, e seus olhos, fixos em mim, não demonstravam medo e logo em seguida correu meio que lentamente ignorando meus comandos de parada. Meus colegas ainda não haviam chegado, pois na emoção do momento fui na frente, e a apreensão tomava conta de mim. O terminal de ônibus era do lado do mercado e próximo de um rio profundo.
Ele se dirigia para as águas escuras, mas algo em seu comportamento me dizia que a qualquer momento ele poderia se virar e me atacar. A multidão ao redor observava a cena com uma mistura de medo e curiosidade, gritando incentivos para que eu agisse, muitos gritavam para eu matá-lo, para eu atirar nele.
A pressão era sufocante. As vozes das pessoas ecoavam em meus ouvidos, exigindo ação. Meus dedos se contraíram ao redor do cabo do revólver (naquela época), o metal frio contra minha pele suada.
Em um movimento rápido, ele se virou para mim, seus olhos carregados de fúria. Sem tempo para hesitar, disparei um tiro de advertência para o alto. O som estrondoso ecoou pelo rio, e o estranho, tomado pelo pânico, correu em direção à água e mergulhou dentro do rio.
Em um impulso alimentado pela adrenalina e pelas vozes da multidão, disparei mais duas vezes no local onde ele havia desaparecido sob a superfície do rio. O silêncio tomou conta do ar, quebrado apenas pelo murmúrio das pessoas e pelo som quase imperceptível da correnteza.
Olhei para o rio, sem saber se havia acertado meu alvo. A dúvida e a adrenalina se misturavam em meu estômago. Meus colegas finalmente chegaram, encontrando a cena caótica e a multidão em polvorosa.
No turbilhão de emoções que se seguiu ao disparo, o que mais me marcou foi a inconstância da multidão. As mesmas pessoas que me instigaram a agir, num piscar de olhos, se voltaram contra mim, criticando-me por ter feito exatamente o que eles queriam.
Em meio à adrenalina do momento, não tive tempo para pensar nas consequências. Agi por instinto, pressionado pelas vozes que clamavam por ação. Mas, tão rápido quanto me incentivaram, me condenaram, lançando dúvidas sobre minhas ações e me deixando questionando se havia feito a coisa certa.
O medo tomou conta de mim enquanto observava o rio, sem saber se meu tiro havia acertado ou se ele ainda estava vivo. A incerteza sobre o futuro me consumia, com pensamentos sobre a perda do meu emprego, a possibilidade de prisão e o julgamento daqueles que antes me apoiavam.
Em meio à angústia, um raio de esperança surgiu: ele reapareceu, com a expressão de quem havia passado por um pesadelo, certamente me julgando louco por ter atirado por causa de alguns ônibus quebrados. Mas ele desobedeceu a ordem de saída do rio e foi nadando saindo em outro trecho ao qual não podíamos interceptá-lo.
Neste momento, a dura lição se fez presente: jamais agir por impulso ou ceder à pressão da multidão. A responsabilidade por minhas ações era minha, e a profissão que escolhi exigia frieza e racionalidade, mesmo em situações extremas.
A experiência me deixou marcado, mas também me ensinou uma valiosa lição: a importância de manter a calma, agir com profissionalismo e tomar decisões com base em meus próprios princípios, sem me deixar levar pela opinião inconstante da multidão.
Logo após o tumulto, meu supervisor surgiu, e com a face marcada pela preocupação ele perguntou: "Houve um tiroteio aqui?", indagou ele, seus olhos vasculhando o local em busca de pistas.
Com um misto de alívio e apreensão, negamos qualquer conhecimento do fato. "Não ouvimos nada", respondemos em uníssono, nossos corações batendo descompassadamente.
O supervisor, ainda desconfiado, mencionou rumores que circulavam sobre a participação da polícia civil no incidente. Sem contestar, meus companheiros e eu acenamos com a cabeça, deixando-o acreditar na sua versão.
Nesse momento, tomamos a difícil decisão de manter o ocorrido em segredo. A verdade era complexa e carregada de riscos. Admitir o que havia acontecido poderia colocar em jogo nossos empregos, nossa liberdade e até mesmo nossa segurança.
Meus colegas, movidos pela lealdade e pelo senso de proteção, me apoiaram nessa decisão. Juntos, construímos uma teia de enganos para proteger a todos.
A partir daquele dia, me tornei um guardião mais autônomo e consciente, capaz de lidar com situações desafiadoras com a mente clara e o coração firme.
Um novo alvorecer se desenhava no horizonte: o concurso da Polícia Militar, previsto para o ano seguinte, abria as portas para uma nova oportunidade. Com o coração rejuvenescido pela esperança, redobrei meus estudos, dedicando-me com afinco à preparação para o certame.
A vida Cotidiana Em Casa
Em meio às paredes do meu lar, a vida florescia com cores cada vez mais vibrantes. A cada dia que passava, a aprovação no concurso se consolidava como um marco inabalável em minha história, provando que o sucesso é fruto de trabalho árduo, disciplina e fé inabalável nos próprios sonhos.
O êxito ecoou por toda a comunidade, atraindo olhares curiosos e ávidos por desvendar os segredos do meu estudo autodidata. Aqueles que antes me ridicularizavam, duvidando de minhas capacidades e prevendo meu fracasso, agora se aproximavam com timidez, buscando em minhas palavras a fórmula mágica para o sucesso.
Com o coração transbordando de alegria e o desejo genuíno de ajudar o próximo, me dediquei a compartilhar minhas experiências e estratégias de estudo. Sem me furtar a detalhes, revelei meus métodos de organização, as técnicas de memorização que utilizei e as fontes de conhecimento que me foram mais úteis.
Presenciei com profunda satisfação a transformação gradual na postura daqueles que me cercavam. O ceticismo inicial deu lugar à admiração, à gratidão e à esperança renovada de alcançar meus próprios objetivos.
Minha história se tornou um farol de inspiração para muitos, especialmente para aqueles que, como eu, sonhavam em conquistar grandes feitos sem se submeterem aos custos exorbitantes de um cursinho preparatório.
Capítulo 16: Meu Irmão
Afigura do meu pai pairava sobre mim como uma sombra, lançando um véu de desconfiança e decepção sobre minha vida. A lembrança de suas mentiras e artimanhas para conquistar mulheres e fama me causava náuseas e indignação. Era como se cada palavra sua estivesse envolta em uma teia de falsidade, questionando a própria essência de quem ele era.
Em meu irmão, via o reflexo do meu pai, a mesma propensão à mentira e à manipulação. As histórias de suas aventuras amorosas, sempre envoltas em mistério e exagero, me faziam questionar se ele era capaz de algum sentimento verdadeiro.
A vida do meu irmão sempre foi marcada por uma dualidade: a honestidade que eu pregava e a manipulação que ele praticava. Ele era um mestre da mentira, capaz de tecer histórias fantásticas e convencer qualquer um de sua veracidade.
Quando ele me contou sobre a entrevista de emprego para uma vaga de limpeza em uma fábrica, meu coração se apertou. Sabia que ele não tinha o hábito de ler, mas, como tantas vezes antes, encontrou uma solução: a mentira. Ao ser questionado sobre seus hábitos de leitura pela diretora, ele inventou uma biblioteca grandiosa em sua mente, tecendo resumos convincentes de livros que nunca havia lido.
Eu, o leitor voraz, e ele, o ator talentoso. Ele criou uma farsa: eu lia os livros e contava para ele, em detalhes, as histórias, personagens e cenários. Ele, por sua vez, memorizava meus resumos e os reproduzia com maestria, tecendo comentários e análises que impressionava a todos.
Sua performance, alimentada por mentiras e pela capacidade de contar histórias, o diferenciou dos demais candidatos. A diretora, uma ávida leitora, ficou impressionada com sua paixão pela literatura e o contratou sem hesitar.
Ao saber do sucesso de meu irmão, fiquei dividido entre a alegria por sua conquista e a decepção por ter alcançado o objetivo através de mentiras. A culpa me consumia, pois sabia que ele não estava apto para o cargo, porque era preguiçoso e que, mais cedo ou mais tarde, as mentiras seriam descobertas.
Meus receios se confirmaram quando meu irmão começou a ter dificuldades para acompanhar as tarefas do novo emprego. Se escondia para dormir e passou a desviar produtos da fábrica para vender por fora. A farsa estava prestes a desmoronar, a diretora que tanto gostava dele percebeu os furtos e a preguiça e só não deu justa causa porque a coitada acreditou ser um único momento de fraqueza, e por ele ser estudioso não iria prejudicá-lo em um possível novo emprego.
As mentiras podem trazer sucesso momentâneo, mas a longo prazo, só a verdade e o trabalho duro garantem o crescimento e a realização pessoal.
Capítulo 17: A Polícia
F inalmente, o dia do tão esperado concurso chegou, a Polícia Militar. Com a mente afiada e o coração transbordando de confiança, enfrentei as provas com determinação e garra. A cada questão respondida, a sensação de triunfo se intensificava.
O maior legado que minha trajetória autodidata me permitiu construir foi a crença inabalável no poder individual de cada um para conquistar seus próprios sonhos, independentemente das circunstâncias ou dos desafios que se apresentem.
Acredito que, assim como fui influenciado, tive a oportunidade de influenciar positivamente a vida de outros. Lembro-me como se fosse ontem de uma conversa com um colega meu.
Ele me perguntou, surpreso, se eu sabia que fulano era advogado. Ao negar, senti uma onda de alegria e admiração. Mais uma vez, a vida me mostrava que a simplicidade e a humildade podem florescer nos lugares mais inesperados. E então, ele soltou a frase que me tocou profundamente: "Ele se inspirou em você!" Confesso que levei um susto. Como assim? Ele explicou que me viu estudando incansavelmente para o concurso e que, ao me ver alcançando meu objetivo, viu a possibilidade de realizar seu próprio sonho. É incrível como às vezes inspiramos pessoas sem nem ao menos perceber. Essa reflexão me faz valorizar cada instante de minha existência e questionar o propósito de minha jornada.
Aos que ainda trilham seus caminhos em busca de seus sonhos, deixo a seguinte mensagem: acreditem em si mesmos, na força de seus propósitos e no poder transformador do conhecimento. A jornada pode ser árdua, mas com persistência, disciplina e foco, vocês serão capazes de superar qualquer obstáculo e alcançar seus objetivos mais desafiadores. Aprovado em mais um concurso continuei minha trajetória.
A Queda
No auge da minha juventude, o mundo se abria diante de mim como um banquete de oportunidades. A aprovação em dois concursos públicos, agora o terceiro e o Enem com uma nota excelente, inflou meu ego como um balão prestes a estourar. A arrogância se apoderou de mim, cegando-me para a importância da fé e da humildade.
Acreditando que meu sucesso era fruto da minha própria inteligência e esforço, deixei de lado a fé que sempre me guiou. A oração se tornou um hábito ocasional, e a Bíblia mais um livro empoeirado na estante. Deus, antes presente em cada passo da minha vida, foi relegado a um segundo plano, ofuscado pelo brilho do meu ego inflado.
A arrogância me levou a tomar decisões precipitadas e egoístas. Comecei a me distanciar dos amigos e familiares, me isolando em um mundo de vaidade e autossuficiência. A felicidade se esvaiu, substituída por um vazio interior que me consumia dia após dia.
Em meio à escuridão, uma faísca de esperança sempre surgia. Uma lembrança da infância, uma música gospel que ouvia por acaso, um encontro inesperado com um amigo de longa data – cada um desses eventos me aproximava de Deus, me convidando a repensar minha vida. Mas não conseguia sustentar por muito tempo.
Minha história serve como um lembrete de que o sucesso, a inteligência e os talentos não são suficientes para nos garantir a felicidade e a realização plena. A fé, a humildade e a gratidão a Deus são pilares essenciais para uma vida equilibrada e significativa. Acredito que a inteligência é um presente divino, uma centelha de criatividade e raciocínio lógico que nos diferencia dos demais seres. No entanto, a verdadeira inteligência transcende a mera capacidade cognitiva. É a sabedoria que nos guia a utilizar esse dom de forma ética e construtiva, buscando sempre o bem comum e o desenvolvimento pessoal.
Capítulo 18: Nova Namorada
Em meu coração, a esperança por um novo amor nunca se apagou. A chama da fé no amor ardia em meu interior, me impulsionando a seguir em frente, mesmo após o término do meu relacionamento anterior.
Na igreja que frequentava com minha ex, uma jovem sempre me chamava a atenção. Sua beleza serena e aura de gentileza me fascinavam, mas naquela época, meu coração pertencia a outra pessoa.
Dois anos se passaram desde que meus caminhos se separaram da minha ex-namorada. A vida seguiu seu curso, trazendo consigo alegrias, desafios e aprendizados. E, em meio a essa jornada, o destino me "presenteou" com um encontro inesperado.
Aquela jovem, agora uma mulher radiante e ainda mais bela, surgiu em meu caminho de maneira inesperada. Certo dia em meio à escuridão da noite, provocada por uma queda de energia no bairro, a vida pulsava nas calçadas e esquinas, palco de encontros casuais e conversas animadas. Lá, entre os amigos reunidos, o amigo do meu irmão me contou sobre sua paixão por uma jovem, que o ignorava completamente.
Em um gesto de desespero e esperança, ele me pediu um favor inusitado: usar meu conhecimento por falar relativamente bem, pelo telefone, pois pessoalmente era diferente a realidade, justamente por ler muito, para me passar por ele ao telefone e tentar conquistar a garota, após eu aceitar e ele me entregar o número de telefone dela. O que ele não sabia, e eu guardava em segredo, que ela era a mesma jovem por quem eu nutria um sentimento de admiração desde a época em que frequentava a igreja com minha ex-namorada. Um aviso para os medrosos: Não usem terceiros como ponte para chegar a alguém. Essa intermediação pode colocar a pessoa em contato com quem tem interesses contrários aos seus planos.
Após entrar em contato com ela, a mesma percebeu logo que eu não era quem dizia ser e confesso que não me esforcei muito para isso. A conversa fluiu naturalmente, como se o tempo não tivesse passado. Descobrimos afinidades, sonhos e valores em comum, e a chama da atração se acendeu entre nós. Ao falar do colega ela deixou claro que não havia nenhuma possibilidade de dar uma chance a ele. Nessa época, apesar de falarmos muito ao telefone , quase todo dia, ela não sabia ainda quem eu era.
Apesar da felicidade que sentia ao falar com a Jovem, a sombra do passado pairava sobre mim. Como lidar com a amizade da minha ex com ela? Até mesmo porque elas eram boas amigas, mas já haviam passado dois anos após o término do nosso namoro. Como explicar a situação para ela e para as pessoas que nos conheciam? E, acima de tudo, como ter certeza de que esse novo amor era verdadeiro e duradouro?
Em meio às dúvidas e incertezas, NÃO recorri à minha fé em busca de orientação e força. NÃO orei fervorosamente, pedindo sabedoria para tomar as decisões certas e seguir em frente com o coração puro.
As palavras da Bíblia não me confortaram e não me deram a clareza que precisava, pois eu não quis saber de Deus só queria saber dos meus desejos no momento. Compreendia que o passado não define o futuro, que o amor verdadeiro é capaz de superar obstáculos e que a amizade, quando genuína, se adapta às mudanças da vida.
“Ao mantermos Deus do lado de fora, confirmamos que alguma coisa está errada do lado de dentro. Deus nunca permitirá que tenha que enfrentar algo que você e Ele juntos não possam dar conta.”
John Mason (Livro - Derrotando um Inimigo Chamado Mediocridade)
Em meio à complexa teia de relações humanas, o amor e a guerra se entrelaçam em um jogo de poder e emoções. A frase "no amor e na guerra vale tudo" ecoa com força, questionando os limites da ética e da moral. Mas será que era traição? isso realmente se justificam em nome de um sentimento ou de um objetivo? A dor da memória me faz questionar minhas próprias atitudes e as consequências que elas geraram.
Minha história serve como um lembrete de que a ética deve ser sempre o nosso guia, mesmo em momentos de dificuldade ou tentação. O amor e a guerra podem nos levar a diferentes caminhos, mas a honestidade, a lealdade e o respeito ao próximo jamais devem ser abandonados.
Capítulo 19: O Celular
Uma conexão improvável floresceu. Duas almas se uniram através de uma linha telefônica, naquela época era só ligação e sms, sem nunca revelarem seus rostos, ou pelo menos o meu. Uma amizade que se intensificou a cada mensagem, cada confidência, cada palavra sussurrada na linha.
Dois meses se passaram em um turbilhão de sentimentos, cumplicidade e uma atração inegável. Mas um segredo pairava no ar, ameaçando despedaçar essa conexão tão especial.
O medo era real: Eu era o antigo namorado da amiga dela. A revelação era inevitável, mas o receio da rejeição me consumia. O dia chegou, e com o coração batendo forte, eu finalmente confessei a verdade.
O silêncio do outro lado da linha foi ensurdecedor. A resposta que eu tanto temia finalmente chegou: "Isso foi um erro."
O mundo desmoronou. Ligações sem resposta, mensagens ignoradas. A dor da perda se misturava com a confusão. Uma semana se arrastou em agonia, até que finalmente ela atendeu o telefone. Mas a pessoa do outro lado era fria e distante, a alegria e o sorriso que antes marcavam nossas conversas se apagaram por completo.
Em meio à mágoa e à frustração, eu propus a única solução possível: amizade. Mas ela recusou, insistindo que tudo havia acabado. A minha insistência a convenceu, mas a relutância era evidente.
O futuro dessa história ainda era incerto. Duas almas que se conectaram profundamente, agora separadas por um segredo e um mal-entendido. Resta saber se a amizade poderá florescer em meio às cinzas da paixão ou se a dor da perda será definitiva.
Um novo capítulo se iniciava, marcado por mais um turbilhão de emoções contraditórias. Do outro lado da linha, eu descobri uma dura verdade: minha ex-namorada não havia me esquecido. Ela frequentava a casa da amiga, tecendo elogios a mim e revelando sua intenção de reatar o relacionamento. Até mesmo uma telemensagem havia sido planejada, uma última tentativa de reconquistar meu coração.
Mas para mim, a ferida ainda era profunda. A decepção e o orgulho ferido me impediam de considerar qualquer chance de reatar com a ex. A dor era ainda latente, e a ideia de voltar com alguém que havia me machucado tanto era insuportável. Em meio a esse turbilhão de sentimentos, a amizade que criamos pelo telefone se tornou um refúgio, um porto seguro onde eu podia desabafar minhas mágoas e encontrar apoio emocional. As conversas, agora, eram carregadas de um tom mais sério, mas serviam como um bálsamo para minhas feridas.
Mas a sombra do passado pairava sobre essa amizade recém construída. A cada menção da ex, a tensão era palpável. Será que essa amizade teria força para superar os fantasmas do passado?
A revelação precisava ser iminente, ela iria contar quem eu era pra sua amiga (minha ex). A confidente, fiel à sua promessa de amizade, estava prestes a desvendar o mistério que envolvia o rapaz do telefone com quem ela tanto se conectava. Ela avisou com antecedência, me preparando para o impacto que a verdade poderia causar.
O meu coração batia forte no peito, uma mistura de medo e expectativa. Eu sabia que a revelação poderia destruir a amizade que tanto valorizava, mas também era a única chance de finalmente me conectar com a mulher que tanto me atraía.
Quando a verdade finalmente foi revelada, a reação foi inesperada. A amiga, inicialmente chocada e confusa, logo se dissolveu em um misto de raiva e mágoa. Ela se sentiu traída por mim e por ela, acusando-nos de conspirarem para enganá-la.
Em meio às emoções, ela tentou se explicar, mas suas palavras pareciam inúteis. A dor e a desconfiança da amiga eram profundas, e parecia que a amizade que tanto cultivaram estava despedaçada. Enquanto isso nós dois continuamos nos identificando em tudo: gostos musicais, filmes preferidos, sonhos para o futuro. A conversa fluía naturalmente, horas se transformavam em minutos, e a distância física se tornava cada vez menos importante.
A inexperiência também nos uniu. Ambos iniciantes no mundo dos relacionamentos, nos entregamos à paixão sem reservas, sem saber que estávamos trilhando um caminho incerto.
Com o tempo, a culpa começou a surgir, eu por me apaixonar pela amiga da minha ex. Ela, por sua vez, por colocar em risco a amizade. Mas, no fundo, ambos sabíamos que não éramos culpados. A paixão nos dominou, nos cegou para as consequências. Tudo aconteceu de forma tão natural, tão espontânea, que era impossível negar a força da conexão que nos unia.
Hoje, olhando para trás, eu reconheço que não faria tudo de novo. A dor da perda, a frustração de um amor não concretizado, ainda são marcas em meu coração. Mas eu também sei que essa experiência me ensinou muito sobre mim.
Depois de se explicar para a amiga e negar qualquer culpa no mal entendido, a amiga se recusou a acreditar e se afastou com raiva. A má interpretação a levou a pensar o pior, e a mágoa a afastou dela.
Uma Chance
Um dia, após um longo período de silêncio, recebi uma ligação inesperada. Era ela minha amiga do telefone. Diferentemente do habitual, quando eu sempre tomava a iniciativa de ligar, desta vez a ligação partia dela e com a voz hesitante, ela disse que, após o inevitável rompimento da amizade com minha ex, ela gostaria de me dar uma chance. A notícia me pegou de surpresa, mas meu coração se encheu de esperança. Nos dias seguintes, nos entregamos a longas conversas, encontros na igreja e eventos em comum. Cada momento era uma oportunidade para nos conhecermos melhor, para reacender a chama que talvez nunca se apagou completamente.
E então, finalmente, aconteceu. Ela disse "sim". O que começou como uma amizade improvável se transformou em algo mais profundo, um amor que floresceu em meio às circunstâncias mais inesperadas.
No início do nosso namoro, tudo parecia perfeito. Mas logo após os primeiros meses, descobri algo que abalou as bases da nossa relação. Ela era apaixonada por outro rapaz, um conhecido que frequentava a minha igreja.
Com o coração partido, percebi que ela havia iniciado o namoro comigo como uma forma de tentar superar o amor por ele, uma colega chegou a dizer, na época, que eu teria o “dedo podre” para escolher mulheres. Apesar da dor, decidi dar uma chance ao nosso relacionamento, na esperança de que com o tempo ela se apaixonasse por mim de verdade.
Com o passar dos meses, a insegurança tomou conta de mim. Eu sentia que ela não me amava com a mesma intensidade que eu a amava. Minhas dúvidas se intensificaram quando noivamos, pois percebi que a falta de amor dela por mim era algo que ela não se importava em esconder.
O ciúme se tornou meu constante companheiro. Em duas ocasiões, tive a confirmação do que meu coração já suspeitava: ela estava se arrumando dando escova no cabelo e roupas novas para ir na minha igreja e infelizmente a mesma do rapaz por quem ela era apaixonada. O ruim disso tudo era que eu não estaria lá e iria trabalhar à noite. Mas, para minha surpresa, o rapaz estaria lá.
Nesses momentos, meu mundo desmoronava. A constatação de que ela nunca se arrumou daquela forma para mim me fez sentir humilhado. A cada dia, a dor e a insegurança aumentavam, me fazendo questionar a validade do nosso relacionamento.
Outro episódio que abalou profundamente minha confiança foi quando, por um impulso inexplicável, decidi ir à casa dela pela manhã. Era algo que eu raramente fazia, mas naquele dia, algo me puxava para lá. Ao chegar, não a encontrei. A mãe dela, surpresa com minha presença inesperada e por eu não saber de nada, me informou que ela havia ido à praia com as amigas.
Voltei para casa com o coração apertado, tomado por um sentimento de desconfiança. Ao cair da noite, decidi confrontá-la. Fui à sua casa de surpresa novamente, esperando pegá-la em flagrante de mentira. A mãe dela foi à igreja e saiu antes da filha chegar.
Quando eu cheguei, a surpresa foi inevitável da parte dela. Ao me ver ali, ela disfarçou e me convidou a entrar. Mas eu já sabia a verdade. O bronzeado intenso que ela ostentava era a prova incontestável de que ela havia ido à praia. Fingi que não sabia e perguntei porque ela estava tão bronzeada, ela disse que estava lavando roupa naquele dia ao sol.
Naquele momento, a ilusão de um relacionamento feliz se desfez em mil pedaços. A cada nova mentira que eu descobria, meu coração se desintegrava como areia entre os dedos.
Ao confrontá-la com a verdade, ela tentou se defender, inventando uma desculpa elaborada sobre sua ida à praia pelo dia e o porquê de ter omitido isso para mim. No momento, me senti confuso e vulnerável, e acabei acreditando na versão dela. "Cai como um patinho", como se diz por aí.
Mas, no fundo, meu coração não se convencia. A sensação de ser enganado era inegável, e a cada dia que passava, as dúvidas corroíam minha alma. Eu sabia que ela estava mentindo, mas me recusava a aceitar a dura realidade.
Naquela mesma noite, em um momento de desespero e dor, tomei uma decisão precipitada: mentir para ela. Inventei uma história elaborada, assim como ela, dizendo que, logo depois que soube de sua ida à praia, fui em seguida e a vi de longe com as amigas e com uns rapazes. Afirmei que um deles tentou beijá-la e que ela, mesmo namorando comigo, não o rejeitou.
Minhas palavras tiveram o efeito desejado. Ela ficou pálida, sem saber como reagir. Tentou se explicar, dizendo que não sabia que os rapazes estariam lá e que ele a estava assediando, mas que recusou seus avanços por ser minha namorada.
Naquele momento, mais um dos meus mundos desmoronaram, haja mundo! A confirmação de que ela havia mentido, traído minha confiança e me enganado por tanto tempo me atingiu em cheio. A dor era insuportável, e eu não conseguia acreditar que aquilo era real.
“Era uma vez um cara gente boa, mas meio "tapado" quando o assunto era amor. Digamos que ele era tipo um ímã para romances desastrosos. E eis que surge ela: linda, simpática, com um sorriso que derretia até o coração mais gelado. Era amor à primeira vista, ou pelo menos foi o que o nosso herói pensou...
Mas o Cupido, esse serzinho travesso, tinha outros planos. Ele adorava ver o caos reinar, e nada melhor do que um romance cheio de confusões para dar boas risadas. Então, ele plantou no coração do nosso herói a sementinha da obsessão. Ele queria ela a qualquer custo, mesmo que isso significasse ignorar todos os sinais de que algo estava muito errado.”
Hoje, olho para trás e vejo com clareza os "sintomas" que me atormentavam durante aquele relacionamento. Eram sinais enviados por Deus, alertando-me sobre um caminho errado que eu teimava em seguir. Ignorá-los foi um erro grave, que me custou muito sofrimento.
Muitos casais não dão certo porque não se atentam aos sinais que a vida lhes apresenta. A cegueira do amor, a paixão avassaladora, a idealização do outro, podem nos levar a ignorar os avisos que, se interpretados com sabedoria, nos poupariam de dores desnecessárias.
Em meu caso, eu a queria a qualquer custo. Coloquei-a em um pedestal, acima de tudo, até mesmo de Deus. Essa idolatria me cegou, impedindo-me de enxergar a realidade. Me entreguei de corpo e alma a alguém que não merecia meu amor, ignorando os sinais claros de que algo estava muito errado.
Aprendi da maneira mais difícil que a aparência pode enganar. A beleza
exterior não é um reflexo da bondade, da lealdade ou do amor
verdadeiro. Devemos ir além das aparências, buscar a essência do outro
e ouvir atentamente os sinais que nosso corpo, nossa intuição e o
universo nos enviam, na realidade eu acho que sempre é
Deus enviando uma alerta a seus filhos, mesmo aos
menos merecedores, até mesmo porque
Ele faz o sol nascer sobre maus e bons, e faz chover sobre justos
e injustos (Mateus 5:45)
.
Hoje, carrego as cicatrizes dessa experiência, mas também a profunda lição que ela me ensinou. Sou grato por ter me afastado desse relacionamento tóxico e por ter encontrado a força para recomeçar. Agradeço a Deus por seus sinais e por me guiar de volta ao caminho do amor verdadeiro, aquele que me faz feliz e me completa sem exigir nada em troca.
Capítulo 20: A Bebida
Com o passar do tempo, e após uma série de acontecimentos que, por ora, prefiro omitir para não alongar demais este relato, fui me sentindo cada vez mais triste e desanimado. Apegado à ideia de que aquela mulher era única e irresistível, lutava contra a sensação de que não poderia ser feliz com mais ninguém. Essa dependência emocional, essa incapacidade de me desvencilhar de algo que me fazia mal, é talvez o que chamam de opressão maligna.
Meu sonho era construir um futuro juntos, comprar uma casa e finalmente nos casar. Afinal, como diz o ditado, "quem casa quer casa". No entanto, diante de tantas dificuldades e desilusões, comecei a questionar se esse caminho era realmente o ideal. Em vez de investir em um imóvel, optei por comprar uma moto e me juntei a um grupo de motociclistas do bairro. Essa nova companhia me proporcionou um alívio momentâneo, mas logo me vi envolvido em outra situação desastrosa.
Após mais uma discussão com minha noiva, saí da casa dela de moto, com o coração partido. Em vez de retornar para minha casa, decidi passar na lanchonete de um amigo para desabafar. Foi nesse momento que a perigosidade de algumas amizades se tornou evidente. O inimigo (diabo), como se costuma dizer, coloca as pessoas erradas em nosso caminho nos piores momentos. Um colega de bairro, com quem eu mal conversava, mas que me bajulava por ser policial, me ofereceu uma cerveja. Eu sempre evitei essa bebida, por conta do mau exemplo de meu pai, mas naquele dia, fragilizado e buscando escape, aceitei. Foi o início de uma espiral descendente.
É impressionante como é fácil encontrar pessoas dispostas a nos derrubar, enquanto aquelas que nos levantam são extremamente raras. Lembro-me de ter bebido apenas duas latinhas de cerveja de 350 ml e já me sentir completamente tonto. A partir dali, a lanchonete se tornou meu refúgio após as discussões com minha noiva, e o que antes era um comportamento ocasional se transformou em um hábito. A bebida e os desentendimentos passaram a fazer parte da minha rotina, intensificando cada vez mais a minha angústia.
Capítulo 21: A Formiga
Oálcool abriu as portas para um mundo de substâncias que eu nunca imaginei experimentar. A maconha foi a primeira, mas a cocaína logo se tornou a minha maior obsessão. Sempre tive problemas respiratórios, e a fumaça da maconha só agravava minha condição. Lembro-me de uma vez, pressionado por amigos, que experimentei a maconha, todos diziam ser uma sensação poderosa e prazerosa, mas eu não via assim. A sensação foi bizarra. Comecei a rir incontrolavelmente de uma formiga, imaginando que ela estivesse rebolando, dançando bem ali na minha frente e eu não conseguia me controlar. Estava com tanta vergonha que pedi pra ficar um pouco no local para me recompor, pois percebi as pessoas passando na rua me olhando com desconfiança. A experiência foi tão desconfortável que me senti humilhado e ridicularizado. A ideia de que as pessoas pudessem perceber que eu estava sob efeito de drogas me causava uma vergonha imensa.
Foi durante mais uma discussão acalorada com minha noiva que me refugiei no meu antigo esconderijo: a lanchonete do meu amigo. Lá, aquele mesmo sujeito que já me havia oferecido cerveja, me estendeu a cocaína, prometendo aliviar a minha dor. Sem pensar muito, aceitei. O vício se instalou de forma gradual, mas persistente. Na hora não achei que havia feito efeito algum , mas todos ao redor riam e diziam que eu estava em um estado alterado mas eu me sentia normal, eufórico e motivado e nem percebi isso de início.
Comigo, a maldita cocaína no início parecia ser boa; me dava coragem e sonhos. Era uma sensação boa de poder, mas com o passar do tempo, alguns meses ou anos depois, era o efeito contrário. Já tive épocas de medo, achando que me perseguiam; outra bem severa foi achar que estava sendo vigiado. Já cheguei a achar que tinham câmeras dentro da televisão e a desmontei. Já subi em paredes altas de sustentação da casa para tirar câmeras imaginárias no telhado. E o pior é que subia arriscando minha vida, por estar escalando paredes e estar fraco e me tremendo de tanta droga. Chegava ao local da suposta câmera e não achava nada, mas assim que descia e ficava aliviado por ser fruto da minha imaginação, logo via outra em outro lugar e o ciclo de opressão demoníaca recomeçava tudo de novo.
Essa prisão foi horrível. Me sentia como um prisioneiro atormentado. Muitas vezes, ouvia vozes de pessoas cochichando, querendo me fazer mal. Outras vezes, imaginava que me viam naquele estado deplorável e riam de mim. Escutava a risada nitidamente e as conversas com clareza, mas hoje sei que era o diabo com autoridade que havia dado, através das bebidas e drogas, na minha vida e nos meus sentidos fazendo-me ver e escutar coisas.
O diabo humilha e destrói as pessoas e me humilhou profundamente nesse sentido, assim como humilha milhões de pessoas pelo mundo ainda hoje, infelizmente.
Quando o inimigo das nossas almas percebeu que eu estava ficando arrependido e percebendo os danos que a cocaína estava causando em minha vida, ele passou a jogar um novo truque em mim. Comecei a sentir medo de usar cocaína, temendo perder o controle ou até mesmo morrer e ser filmado. Mas então, o diabo sussurrava em minha mente, fazendo-me acreditar que era tudo apenas ilusão, que não havia nada a temer. E quando via que, no dia seguinte, nada de ruim havia acontecido, eu começava a me acostumar com esses pensamentos e a controlar meu medo. E então assim, continuava usando cocaína, apenas mudando o local, levando-a para casa. E, assim, o diabo continuava exercendo controle sobre minha vida.
O diabo distorce nossa percepção e controle, usando a droga para abrir portas ao mundo espiritual. Assim, ele invade e corrompe o corpo, que foi destinado a ser um santuário para o Senhor.
Hoje percebo o caos que Satanás criava em minha vida. No final, havia gastado muito dinheiro para manchar minha reputação e imagem, ficando com vergonha e nojo de mim mesmo. Isso me levou a uma depressão profunda, que acredito ser o último passo antes de perder completamente o controle sobre minha vida.
O inimigo das nossas almas não só deseja nos matar, roubar ou destruir, mas também quer fazer isso da pior forma possível, humilhando-nos ao máximo. Ele nutre ódio pelo ser humano, seres amados criados por Deus para reinar com Ele. A boa notícia é que ele não tem nenhum poder sobre nós, pois somos nós que lhe damos poder para agir em nossas vidas.
A Bíblia afirma:
"Resistam ao diabo, e ele fugirá de vocês." - Tiago 4:7
"Porque maior é Aquele que está em vocês do que aquele que está no mundo." - 1 João 4:4
Deus nos amou e nos criou para reinar com Ele, Jesus Cristo nos libertou do poder das trevas e temos autoridade sobre o inimigo através de Jesus.
"Vocês são de Deus, filhos amados, e têm vencido os falsos profetas, porque maior é Aquele que está em vocês do que aquele que está no mundo." - 1 João 4:4
Que versículo poderoso!
Segundo as leis universais de Deus, as forças espirituais só podem atuar em nossas vidas se nós lhes concedermos permissão. Infelizmente, o inimigo, já vencido na cruz do Calvário, busca manter-nos na ignorância e no engano, para continuar influenciando nossas vidas.
Por volta de dois anos, vivi preso a essa substância. Embora a dependência não fosse tão intensa quanto a que eu tinha pelo álcool, a cocaína me proporcionou uma fuga da realidade que eu não conseguia mais viver sem. E o pior é que, dependendo das pessoas com quem você anda, a tentação de recaída está sempre presente.
A escolha dos seus amigos molda o seu futuro. Já diz o ditado: 'Diz-me com quem andas e te direi quem és'. Cercar-se de pessoas positivas e que te inspirem a crescer é fundamental. Afinal, as más companhias podem te levar por caminhos perigosos. Se você busca uma vida melhor, busque pessoas que te motivem a ser uma versão melhor de si mesmo.
Não é à toa que a Bíblia diz:
“Não vos enganeis: as más conversações corrompem os bons costumes.” 1 Coríntios 15:33
Já ouvi dizer que você é a média das cinco pessoas com quem mais convive. Essa frase resume a importância de escolhermos nossas amizades com sabedoria. Lembre-se: a sua vida é um reflexo das pessoas que você permite fazer parte dela.
Antes, eu era aquele cara certinho, uma pessoa completamente diferente. Igreja, família, tudo nos conformes. Mas a vida com os novos amigos motoqueiros, com aquela galera que me mostrou um outro mundo. Começaram as festas, as bebidas, e antes que eu percebesse, estava envolvido com tudo aquilo. As palavras deles me marcaram: 'Todo mundo passa por isso'. E eu, bobo, achei que era verdade.
Não me identificava com a vida de festas, bebidas e drogas. Mas, ao me afastar de Deus e das minhas crenças, tudo mudou. Influenciado por amigos que me diziam que a vida de cristão era só fachada, não existia o verdadeiro Cristão. As palavras deles se tornaram uma profecia que se cumpriu na minha vida.
Capítulo 22: A Profissão
Como deu pra perceber eu passei a ter uma vida dupla, uma de drogas e outra servindo a comunidade. Quando entrei na corporação, meus colegas, sabendo da minha fé, fizeram uma aposta: 'Você não vai durar seis meses sendo cristão aqui.' E, infelizmente, eles estavam certos. Parecia uma praga que pegou. A influência negativa do ambiente de trabalho e fora dele me levou por um caminho que nunca imaginei seguir.
A vida de um policial é uma jornada repleta de desafios e responsabilidades. Diariamente, colocamos nossas vidas em risco para garantir a segurança de todos. É um trabalho que exige muita dedicação, profissionalismo e, acima de tudo, amor à profissão. É lamentável que nem sempre sejamos valorizados como merecemos, afinal, a segurança pública é um bem precioso que depende do nosso trabalho.
Sabemos que em qualquer profissão existem pessoas com diferentes condutas. No entanto, como profissionais, temos o dever de agir com ética e integridade, buscando sempre o bem comum, mesmo diante das adversidades da vida pessoal.
Duas ocorrências marcaram profundamente minha trajetória na polícia. Uma delas, em particular. Era uma madrugada chuvosa, daquelas que parecem eternas. Enquanto a cidade dormia, um casal desesperado nos chamava por socorro pelo telefone. Bandidos tentavam invadir sua casa, sob o manto da escuridão e da chuva. Ao chegarmos, o desespero nos olhos daquela família era palpável. A sensação de impotência ao não conseguir capturar os criminosos foi imensa, mas o que mais me tocou foi a gratidão sincera daquele casal. Eles disseram que nutriam ódio pela polícia, não sei se por reportagens maldosas e tendenciosas ou por algum motivo pessoal ou, ainda, por algum mal profissional desumano ou corrupto, mas a verdade é que agora naquele momento nos viam como seus únicos heróis. Aquele choro de alívio e a promessa de nunca mais falar mal da polícia ecoaram em meus ouvidos até hoje. Aquele caso me mostrou o lado mais humano da nossa profissão e a importância de estarmos sempre prontos para proteger aqueles que mais precisam, mas teve outro mais grave que me marcou ainda mais.
Capítulo 23: A Ocorrência
Mais uma vez de madrugada, a escuridão daquela noite era quase palpável, um manto que se estendia sobre a cidade, engolindo qualquer vestígio de luz. Eu e meu parceiro estávamos sozinhos, dois pontos minúsculos em um mapa imenso de perigos. A rede rádio policial, era nossa única companhia. A cada ruído, um arrepio percorria minha espinha.
O chamado chegou como um raio em meio à tempestade. Um possível sequestro em uma região remota, onde a lei parecia não existir. A adrenalina pulsava em minhas veias enquanto nos dirigíamos para o local indicado. As informações eram escassas, a escuridão total. A cada curva, a incerteza aumentava. Estávamos prestes a voltar por não achar o lugar, era muito difícil de encontrar. Mas a cada curva, a esperança de encontrar as vítimas se renovava. A confiança em meu parceiro era minha maior arma. Juntos, iríamos enfrentar qualquer obstáculo. Aquele chamado era mais do que um simples dever, era uma prova de nossa coragem e de nossa dedicação à comunidade.
De repente, um farol nos cruzou, cortando a escuridão. Era o homem que havia testemunhado o crime à distância, era um vizinho que ligou para a central da polícia, e que estava fugindo com medo de irem até a casa dele também. Com a voz trêmula, ele nos guiou por estradas de terra batida, cada vez mais adentrando a mata. A cada segundo que passava, a tensão crescia. Sabíamos que estávamos nos aproximando do perigo, mas não podíamos recuar. A vida de alguém dependia de nós.
A chegada No Local
Com o coração pulsando no peito, nos aproximamos cautelosamente. A viatura ficou escondida nas sombras, estrategicamente posicionada para garantir a surpresa. A casinha, solitária e miserável, isolada e frágil, parecia um barco à deriva em um mar de lama. A cerca de arame farpado rangia sob nós ao passarmos cuidadosamente, um som agudo que ecoava no silêncio da noite. As vozes alteradas, carregadas de ameaças, nos conduziram até ali. Um homem, talvez dois, aprisionados em uma batalha desigual com os moradores indefesos. A cada instante, a tensão crescia. Objetos eram arrastados para o quintal, ruídos surdos quebravam a tranquilidade do local. A cada sombra, um novo perigo. Era preciso agir rápido. A vida de inocentes estava em jogo. Indivíduos desprezíveis, movidos pela ganância, aterrorizando uma família inocente. A cada som, a cada movimento, a nossa determinação se fortalecia. Não poderíamos permitir que o mal triunfasse. A hora de agir havia chegado. A justiça precisava ser feita.
Com um gesto discreto, sinalizei ao meu parceiro, que se posicionou estrategicamente na retaguarda. A sombra se aproximou, oscilante e ameaçadora. A figura esguia, os olhos vidrados, revelavam um homem dominado pelas drogas. Sem hesitar, disparei um tiro para o alto, o eco retumbando no silêncio da noite. A voz, firme e imponente, cortou o ar: 'Solte tudo e se deite no chão!'. A surpresa o paralisou por um instante, mas logo ele ergueu as mãos em sinal de rendição. Ao tocar o chão, começou a balbuciar desculpas, alegando estar apenas ajudando a família. Ignoramos suas palavras, pois havíamos testemunhado a crueldade de seus atos. A verdade era implacável: ele era um predador, e nós éramos seus caçadores. Suas palavras eram vazias, incapazes de apagar a dor e o terror que havia infligido. A justiça, finalmente, havia prevalecido.
A primeira etapa havia sido concluída com êxito, mas a missão ainda estava longe de terminar. A pergunta que ecoava em nossas mentes era: haveria mais alguém ali dentro? A casa, pequena e claustrofóbica, amplificava o perigo. No entanto, a ordem era clara: tínhamos que entrar e neutralizar qualquer ameaça. A adrenalina pulsava em nossas veias, impulsionando-nos para a segunda fase da operação. Cada passo era um desafio, cada sombra, um inimigo em potencial. A incerteza era nossa maior adversária, mas a determinação nos mantinha firmes.
Com meu parceiro garantindo a retaguarda, adentrei a casa, pronto para enfrentar qualquer ameaça, um labirinto de sombras e perigos. Cada cômodo era inspecionado com a cautela de um felino, a arma sempre apontada para a escuridão. Um quarto minúsculo, uma cama baixa, impossível de esconder alguém. O banheiro, vazio. A sala, iluminada por uma lâmpada amarelada que trepidava como um coração ansioso, era o centro daquela cena macabra. E então, no último cômodo, a descoberta: corpos alinhados no chão, entre eles, uma menina em uma cadeira de rodas. A imagem era chocante, dilacerante. Com voz firme, anunciei minha presença, mas o silêncio era a única resposta. A ficha caiu: os criminosos haviam se feito passar por policiais para aterrorizar suas vítimas. Com voz firme, identifiquei-me como policial, exigindo que permanecessem imóveis. A luz, ao ser acesa, revelou a verdade: a família, aterrorizada, agradecia por sua libertação. A missão estava cumprida, a esperança havia renascido.
A tensão era palpável. De repente, uma voz fraca ecoou do primeiro quarto. O dono da casa, que conversava comigo, se voltou para a porta, os olhos arregalados. A informação era demais para processar. Todos falavam ao mesmo tempo, agradecendo, chorando. E então, a pergunta que ecoou naquela casa: "É a polícia de verdade?". Ao confirmarmos, um homem emergiu de um espaço minúsculo embaixo da cama, nos braços um bebê de apenas dois meses. A emoção tomou conta de todos nós. Aquele homem, com sua fragilidade e determinação, havia protegido sua família de uma maneira que nos comoveu profundamente.
A adrenalina da ação havia dado lugar à reflexão. Ao rever a cena do quarto, percebi meu erro de julgamento. Como pude subestimar a capacidade humana de se adaptar a situações extremas? Mas, além do espanto pela engenhosidade daquele homem, uma profunda convicção me tomou: a mão de Deus havia guiado nossos passos. Aquele bebê, silencioso e protegido debaixo daquela cama, era um milagre. Percebi que a providência divina havia sido fundamental para salvar aquela família. Aquele homem, com sua fé inabalável, havia encontrado forças para proteger seu filho em um espaço minúsculo e eu pensei comigo que eu cometi o erro de desprezar ter alguém embaixo da cama, mas logo O Senhor me confortou dizendo que se eu tivesse agido precipitadamente ao revistar embaixo da cama, a história poderia ter tido um final trágico. Aquele encontro me fortaleceu a fé e me lembrou da importância de agir com cautela e compaixão, mesmo em situações extremas.
A tensão se dissipou, dando lugar à compaixão. O homem, com o bebê nos braços, percebeu a ausência de sua esposa e, com a voz embargada, indagou sobre seu paradeiro. Ao investigarmos, descobrimos que a família era ainda maior do que imaginávamos, uma mulher, a mãe do bebê, e o comparsa do criminoso, descobrimos que eram dois, estavam desaparecidos. A busca foi exaustiva e, por fim, encontramos a mulher desmaiada no fundo do quintal. A imagem daquela família, vivendo em condições precárias e agora vítima de um crime tão cruel, nos deixou profundamente comovidos. Sete ou oito pessoas dividindo um espaço tão pequeno, trabalhando incansavelmente para sobreviver... Como alguém poderia ser tão cruel a ponto de roubar o pouco que eles tinham?
Até hoje, a lembrança daquela noite me emociona. Ver a gratidão nos olhos daquela família, ouvir suas palavras de agradecimento... É algo que carrego comigo para sempre. Naquela noite, nos transformamos de simples policiais em heróis para aquelas pessoas. A sensação de ter feito a diferença, de ter protegido os mais vulneráveis, é um orgulho que me acompanha até hoje. Foi por essas e outras que tínhamos orgulho de ser policiais.
A Pior Parte
É com pesar que constato que muitos de nós, policiais de linha de frente, somos obrigados a conviver com uma realidade distorcida. Enquanto nos encontramos nas ruas, expostos aos perigos e desafios do dia a dia, muitos de nossos superiores ocupam cargos de liderança sem a devida qualificação. A pirâmide hierárquica, que deveria ser um suporte, muitas vezes se torna um fardo. Oficiais que, em vez de liderar e inspirar, preferem a comodidade de seus gabinetes, tomando decisões que, em vez de otimizar o serviço, o prejudicam. A falta de vocação, a incompetência e a corrupção permeiam muitos desses cargos, minando a moral da tropa e comprometendo a eficiência das operações.
É revoltante perceber como somos tratados. Enquanto os praças, a base de toda a estrutura policial, arriscam suas vidas diariamente, enfrentando criminosos e situações de alto risco, os oficiais, muitos deles, se preocupam mais com suas carreiras políticas do que com o bem-estar da tropa. A falta de apoio, a desvalorização e a incoerência das ordens recebidas são constantes. Já presenciei situações em que oficiais, ao invés de se dirigirem ao local de uma ocorrência, tomavam caminhos alternativos para evitar o confronto. Essa falta de comprometimento é um tapa na cara de todos aqueles que dedicam suas vidas à proteção da sociedade.
É lamentável, mas é a triste realidade quando um oficial, um oficial de verdade, como muitos que vi, se destaca, quando demonstra competência e comprometimento, se torna um alvo. A inveja e a incompetência de alguns oficiais superiores os levam a sabotar aqueles que poderiam ameaçar suas posições ou revelar suas falhas. É uma triste ironia, pois aqueles que deveriam servir de exemplo, acabam se tornando os maiores obstáculos para o sucesso daqueles que realmente se dedicam à profissão.
Como soldado, tive a infelicidade de presenciar, em primeira mão, as consequências nefastas da perseguição dentro da corporação. Duas situações, em particular, me marcaram profundamente.
Lembro como se fosse ontem. Estava em mais um dia de serviço quando fomos acionados para uma ocorrência, um sujeito com um facão causando terror nas ruas, mas foi detido por um policial civil que pediu apoio a gente. Ao chegarmos, o clima já era tenso, e já havia mais duas viaturas das nossas, mas a situação parecia sob controle. Contudo, nosso oficial, sempre ávido por adrenalina, insistiu em se envolver pessoalmente.
Ignorando os protocolos e a hierarquia, ele se dirigiu de forma agressiva ao policial civil que já estava no local, sem perguntar se era ele o solicitante. A discussão escalou rapidamente, com ambos trocando ofensas e gestos ameaçadores. O oficial, cego pela autoridade, tentou algemar o civil sem ao menos saber quem era, provocando uma reação ainda mais violenta.
Foi nesse momento que percebi a arma na cintura do civil. O coração disparou. Imediatamente, instintivamente, levei a mão à minha arma, pronto para intervir caso a situação degenerasse. Mas, antes que qualquer tiro fosse disparado, o motorista da viatura conseguiu imobilizar o civil.
Ali, no meio daquela confusão, o civil se identificou como policial. O oficial, sem mais o que fazer, apenas proferiu xingamentos e acusações. Aquele episódio me marcou profundamente. Vi de perto como a falta de humildade, o ego inflado e a disputa por poder podem colocar em risco a vida de todos os envolvidos. Uma simples ocorrência, que poderia ter sido resolvida de forma pacífica, se transformou em um verdadeiro caos por causa da arrogância dos homens.
Após armar aquele circo todo, o oficial, em um ato de hipocrisia digno de um Oscar, se revoltou com a própria criação. O caos que ele mesmo provocou se espalhou como rastilho de pólvora, e em questão de segundos estávamos todos envolvidos em uma situação que poderia ter terminado em tragédia. Com a mesma rapidez com que se meteu na confusão, ele ligou para o comandante, usando sua patente como escudo, e jogou toda a culpa em nós. Em um ato de covardia, ele nos expulsou da companhia que tanto amávamos, tudo por causa de seu ego inflado e de sua ambição desmedida. E qual foi o final da história? O oficial, em busca de novos horizontes e de mais poder, logo encontrou outro lugar para chamar de seu, e nós os mais rasos terminando saindo de onde gostávams e ficou por isso mesmo, simples assim. Mais um capítulo triste dessa história, onde a lealdade e o trabalho duro são recompensados com a ingratidão e a traição.
A ironia da história é que quem mais sofreu as consequências daquela noite caótica foi justamente quem menos tinha culpa. Enquanto o oficial, o verdadeiro responsável por todo aquele estresse, se safou ileso e ainda conseguiu uma promoção, nós, os soldados de primeira linha, fomos expulsos da companhia. É como se a justiça estivesse de cabeça para baixo. O mais forte sempre sai por cima, não importa o quanto tenha prejudicado os outros. É um sistema perverso, onde a lealdade e a dedicação não valem nada diante do poder e da influência.
Expulso da minha antiga companhia, fui 'premiado' com uma transferência para um dos bairros mais perigosos da cidade. Era como se fosse um castigo, uma forma de me isolarem e me colocarem em uma situação de risco. Lá, encontrei um grupo de policiais desmotivados e desinteressados, que passavam o tempo batendo papo e tomando café. Mas a surpresa ainda estava por vir. Logo descobri que meu novo capitão , que talvez tenha sido avisado pelo seu colega, já tinha me escolhido como alvo. Começaram as provocações, as humilhações e as ameaças. O motivo? Minhas costeletas! Sim, você não leu errado. Minhas costeletas, que segundo ele, eram um desrespeito à corporação. O mais engraçado é que havia outro policial com barbas por fazer e costeletas maiores que não eram incomodado. Era evidente que eu estava sendo perseguido, e a qualquer momento poderia ser incriminado por algo que não fiz. A sensação era de estar em uma armadilha, sem saída.
Sei que não sou o único. Muitos de nós, policiais, somos vítimas dessa engrenagem cruel. A hierarquia, a política e a injustiça nos corroem por dentro, transformando a paixão pela profissão em um fardo insuportável. A perseguição que sofri me levou a um lugar escuro, um lugar onde a tristeza e a revolta se misturam, gerando uma angústia profunda. A depressão, essa maldita doença, se instalou em minha vida, roubando a minha alegria e a minha vontade de viver.
Minha história é apenas um exemplo de como a corrupção e a injustiça podem destruir vidas. Mas não podemos nos calar diante dessa realidade. É preciso que nos unamos para denunciar esses abusos e exigir mudanças. A depressão é apenas uma das consequências dessa luta desigual. Muitos colegas já não estão mais entre nós, vítimas de um sistema que os desumanizou. É hora de dizer basta! É hora de construir uma polícia onde o respeito, a justiça e a valorização do ser humano sejam os pilares fundamentais.
Essas experiências me fizeram perceber que a perseguição não é apenas um problema institucional, mas uma ferida aberta que afeta diretamente a vida de cada policial.
Capítulo 24: A Pressão
Avida de um policial é um jogo de roleta russa. Um dia, eu e meu irmão estávamos em uma lanchonete, eu relaxando após o trabalho. De repente, soube por testemunhas que dois homens armados me procuravam com a intenção de me matar. E o pior, não foi só essa vez, fora as vezes que nem me disseram, só Deus pra livrar a gente. Nem sei quem eram esses indivíduos. Essa é a realidade que enfrentamos diariamente: a ameaça constante à nossa vida e à de nossa família. E o mais revoltante é que, mesmo diante de tantos riscos, somos tratados como descartáveis tanto dentro quanto fora da corporação. A pressão psicológica é imensa, e a falta de apoio emocional nos leva a um estado de exaustão física e mental.
Bem sei que muitos se excedem e até mesmo eu tive os meus excessos, mas os corrigi a tempo, mas tem gente que odeia a gente só por ser policial. Aliás, tem gente que te odeia só pelo simples fato de você existir e ser “puliça” é um agravante.
Eu já vi muita coisa nessa vida, principalmente dentro da corporação. Muitos se acham invencíveis, intocáveis. Acham que a farda os torna superiores. Mas a vida mostra que não é bem assim. Mas por que isso acontece? Por que alguns policiais se sentem no direito de abusar do poder?
A ambição, o poder, a falta de preparo psicológico... São muitos fatores. Te conto a história de um amigo meu. Era um cara bom, mas a farda o transformou. Nós, ambos Guardiões no órgão de segurança pública municipal, onde ele, já demonstrava um comportamento mais autoritário. Ele sempre quis ser policial, seguindo os passos da família que havia muitos policiais, e conseguiu. Mas a autoridade o corrompeu. Na polícia, ficou pior ainda.
O colega, agora como policial, em uma situação de conflito, houve uma discussão, uma arma... Ninguém sabe quem atirou primeiro, mas o resultado foi trágico. Ele morreu. Um amigo, um colega, perdido para sempre. E pior, o outro também era um policial do mesmo batalhão que ele e só veio a saber depois.
É a triste realidade. A farda não te torna invencível. Pelo contrário, te torna um alvo. E se você abusar do poder, as consequências podem ser irreversíveis. A polícia é uma nobre profissão, mas exige responsabilidade, ética e respeito ao próximo. Não podemos deixar que o poder nos corrompa.
A história que você acabou de ler é um alerta para todos os profissionais da segurança pública. O poder da farda é relativamente grande, mas ele vem acompanhado de uma grande responsabilidade. Lembrei da frase: "Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades" que é uma frase dita pelo tio Ben ao Peter Parker, também conhecido como Homem-Aranha, na história em quadrinhos da Marvel.
Atitudes autoritárias e o abuso de poder podem ter consequências irreversíveis, tanto para a vítima quanto para o próprio policial. Lembre-se: a polícia existe para proteger e servir à sociedade, não para oprimir. Acima de tudo, seja humano.
A vida na polícia foi intensa e marcante. Aprendi muito, mas também perdi amigos. A experiência me deixou mais forte, mas também me trouxe cicatrizes. Agradeço à corporação por tudo que me proporcionou, mas também lamento a perda de colegas que não estão mais aqui.
Capítulo 25: A Depressão
Afastei-me da fé, entreguei-me ao turbilhão do mundo e a vida, antes colorida, tornou-se um labirinto sombrio. A pressão do trabalho, as cobranças do noivado, a insegurança nas ruas, tudo conspirava para me afogar. A solidão se instalou, e com ela, vícios que me consumiam lentamente. A crença em Deus se esvaía, assim como a esperança. Rodeado de pessoas equivocadas, fui arrastado para um abismo sem fim. A angústia me consumia, e a única saída que encontrei foi afogar minhas dores em álcool e drogas. Dois anos perdidos, sem amigos de verdade, sem propósito. Comecei a duvidar de tudo, até mesmo da existência de Deus. Andando com a galera errada, só fui pra baixo. A vida virou um inferno.
A descoberta das mentiras da minha noiva me quebrou. A partir dali, que um dia decidi jogar a vida no lixo. Não me importava mais com nada, nem comigo. Me entreguei a uma espiral de promiscuidade e excessos, buscando qualquer fuga da dor. As noites intermináveis, cheias de drogas e álcool, me levavam a um abismo. A cada amanhecer, a realidade me atingia com força, mas a vergonha e a desesperança me paralisavam. Queria chorar, mas as lágrimas se recusavam a sair.
A vida se transformou em uma busca desenfreada por prazeres superficiais. As noites de excessos me levavam a um estado de profunda tristeza. A cada amanhecer, a realidade me confrontava, mas a falta de esperança me impedia de mudar.
Capítulo 26: O Inesperado
Certa vez, estávamos ali, em nosso ponto de encontro, curtindo a noite e a companhia uns dos outros. De repente, ele apareceu. Um cara que eu já tinha visto ser levado pelos meus colegas da polícia, mas de quem não me lembrava o nome ou o motivo da prisão. Sem cerimônia, pediu uma latinha de cerveja. Um dos meus colegas que moravam ali mesmo no bairro, sempre pronto para uma provocação, ainda mais confiando em mim, mandou ele ir embora.
Eu conhecia bem aquele grupo. Eram durões, mas confiavam em mim. Sabiam que eu tinha um jeito de acalmar as coisas. Então, contra a vontade de alguns, peguei uma latinha e ofereci a ele. Mas a reação dele foi inesperada. Em vez de agradecer, ele abriu a lata, jogou no chão e me desafiou, questionando meu nome com um tom ameaçador. Naquele momento, tudo se encaixou. Ele não estava ali por acaso.
Depois de um tempo, descobri que ele e seus amigos guardavam rancor de mim. Me conheciam da comunidade, viram minha mudança de vida e não aceitaram. Aquele encontro casual tinha sido uma emboscada. Um dos meus amigos, indignado com a atitude do cara, partiu para cima dele. Tive que intervir para evitar que a situação degenerasse em uma briga maior.
A Escalada Da Violência
Aquele encontro, que começou com um simples pedido de uma latinha de cerveja, tomou proporções que jamais imaginei. O cara, com aquele olhar desafiador, me deixou com um pressentimento ruim. E eu estava certo. Logo ele começou a proferir ameaças, dizendo que eu iria me arrepender. Eu, que havia tentado acalmar a situação, agora era o alvo, na realidade sempre fui.
A profissão que eu escolhi me tornou um alvo fácil. Ele sabia o que eu fazia, que era policial, e usou isso contra mim. Aquele homem, que a princípio parecia insignificante, mostrou-se capaz de coisas horríveis. A tensão aumentou a cada segundo. Não tínhamos mais dúvidas: ele estava determinado a nos fazer mal.
A situação degenerou rapidamente. Ele voltou, armado, e disparou na minha direção. A adrenalina me impulsionou a reagir. Sacando minha arma, respondi aos tiros. A troca de disparos foi intensa. Ele se abrigou atrás de um poste, e eu fiz o mesmo. A munição parecia infinita. Eu não entendia como ele, com um simples revólver .38, tinha tanta munição.
Enquanto a troca de tiros acontecia, um dos meus colegas foi buscar reforço. A polícia logo chegou. O atirador, vendo que estava cercado, correu para dentro de sua casa. Na realidade ele morava nos fundos da casa de sua mãe que o protegia. Eu quase derrubei a porta da mãe dele, que estava tentando o acobertar dizendo que ele não estava ali, ela abriu a porta. Foi aí que ele correu para o quintal, subiu no telhado da verdadeira casa dele dos fundos à qual ele morava e começou a atirar mais vezes.
A Prisão
A troca de tiros se prolongou por mais tempo do que imaginávamos. Mesmo sendo quatro contra um, e ainda assim, ele parecia ter munição infinita. A mãe dele quase foi alvejada pelo próprio filho quando ela foi na porta pedindo para ele se entregar ele atirou e pegou na parede ao lado dela, foi aí que puxamos ela para fora da linha de tiro. Aquele homem, que antes parecia tão insignificante, revelava-se um verdadeiro arsenal ambulante. Não entendíamos como alguém, com uma vida aparentemente normal, tinha acesso a tanto poder de fogo. A adrenalina pulsava em nossas veias enquanto a madrugada se transformava em dia.
Exaustos, mas determinados, continuamos em posição. A troca de tiros começou na rua, causando pânico nos vizinhos e se estendeu até a casa dele. Ele tentou se esconder dentro da casa do vizinho amigo dele, mas não teve sucesso. Desesperado, saiu de cueca com as mãos para o alto, rendendo-se. Com a voz trêmula, acusou-nos de atirar nele enquanto ele estava desarmado. Que cinismo!
A busca pelas armas que sumiram se tornou uma obsessão. E não demorou muito para encontrarmos o que procurávamos. Em um terreno baldio, ao lado da casa dele, encontramos três armas enterradas. Pouco tempo depois, que chegamos na delegacia, com a ajuda dos vizinhos, que ligaram dizendo que havia mais armas enterradas, descobrimos mais quatro. Aquele homem, que se achava invencível, havia construído um verdadeiro arsenal.
Com a prisão dele, desmantelamos uma quadrilha que estava começando a se organizar para crimes e as armas estavam escondidas com ele. O orgulho, a sede de poder e a ilusão de impunidade o levaram à ruína. Aquele homem, que algumas horas nos desafiou, agora estava preso. A cada dia a vida ficava insuportável para mim.
Capítulo 27: Uma Madrugada
Amadrugada era fria e silenciosa. Os ponteiros do relógio marcavam 3h30 quando eu, tomado por uma angústia profunda, me dirigi ao fundo do quintal da casa de minha mãe. Alcancei a parede alta que delimitava o quintal e, com uma decisão que me assustava, iniciei a escalada. Em minhas mãos, apertava com força o cabo frio da pistola.
Lá do alto, com o coração acelerado e a mente turva, eu elevei a voz. "Deus, se existe, que me mostre um sinal agora! Que me prove que está aí, neste exato momento!" A noite escura e o silêncio ensurdecedor pareciam intensificar o meu clamor. Minutos se passaram, e o céu permaneceu impassível, sem qualquer manifestação sobrenatural.
Desiludido, mas ainda desafiador, voltei-me para outra figura que povoava meus pensamentos. "Diabo, agora é a sua vez! Se existe, que se revele! Que me mostre a sua face!" A provocação ecoou na noite, mas a resposta continuou sendo o vazio.
Após aquela noite, algo dentro de mim se quebrou. A crença em um poder superior, em um destino pré-determinado, se desfez como fumaça ao vento. Sem Deus e sem o diabo, eu me sentia livre, mas também perdido. A ausência de fé não me libertou dos medos e das angústias que me assolavam, mas sim me jogou em um mar de incertezas.
A vida que se seguiu foi marcada por uma crescente sensação de vazio e desespero. A ausência de respostas para as minhas questões existenciais me levou por caminhos tortuosos, intensificando a dor que já sentia. Aquele desafio lançado à noite, em busca de um sinal divino, havia se transformado em uma maldição, aprisionando-me em um labirinto sem saída.
A Expulsão De Casa
Mãe, por favor, me escuta!" A súplica ecoou pela casa, mas foi em vão. Após aquele incidente da troca de tiro na vizinhança, que resultou na prisão do meliante com muitas armas, o olhar de minha mãe se transformou em puro terror. Seus olhos, antes cheios de carinho, agora me acusavam como se eu fosse a fonte de todos os seus problemas. "Você está trazendo a desgraça para essa casa!", gritou ela, antes de me apontar a porta, ou seja, estava oficialmente expulso de casa. E assim, em um piscar de olhos, meu mundo desabou ainda mais.
A noiva, ao saber que eu passei com uma amiga na garupa da moto, me abandonou sem hesitar. Dois golpes seguidos que me deixaram sem chão. Com um coração em pedaços, aluguei um quartinho minúsculo. Uma cama de solteiro, um fogãozinho de duas bocas e uma televisão velha eram tudo o que tinha para me chamar de lar. A solidão era uma companhia constante e a esperança não mais me acompanhava, sem um fio de luz no fim do túnel.
A Semente Da Desesperança
A solidão, antes um fantasma distante, agora era um monstro que me consumia por dentro. Nos quatro cantos daquele pequeno quarto, a tristeza ecoava como um lamento solitário. Noites intermináveis, a escuridão se tornava a minha única companhia. A televisão, antes uma fonte de distração, agora era apenas um reflexo da minha alma vazia.
Com o passar dos dias, uma ideia obscura começou a se infiltrar em meus pensamentos. A desesperança, como uma erva daninha, crescia a cada instante. Aos poucos, a ideia de tirar minha própria vida foi crescendo. meus olhos, antes brilhantes, agora estavam opacos, como se a vida tivesse se esvaído deles.
No silêncio daquele quarto, eu me sentava diante da televisão, duas armas ao meu lado: uma da corporação e outra, minha fiel companheira. A cada noite, o mesmo ritual. A mão tremia ao acariciar o metal frio, mas a vontade de acabar com tudo era mais forte. Era como se uma voz interior me incitasse a dar o passo final.
Mas havia algo dentro de mim que resistia. Uma pequena faísca de esperança, ainda que fraca, relutava em se apagar. A lembrança de momentos felizes, de pessoas que me amavam, me impedia de seguir em frente. E foi nesse momento de indecisão que uma verdade se revelou: nossos pensamentos são como sementes. Se plantamos a semente da tristeza, a desesperança brotará e crescerá. Mas se cultivarmos a semente da esperança, a vida florescerá.
A mente é um campo fértil. O que semeamos, colhemos. Por isso, é fundamental vigiar nossos pensamentos, pois eles moldam nossas emoções e ações. Uma simples ideia, por mais insignificante que possa parecer, tem o poder de mudar o curso de nossas vidas.
Se você está passando por um momento difícil, saiba que você não está sozinho. Procure ajuda, converse com alguém de confiança. A vida é um presente precioso e merece ser vivido em sua plenitude. Não permita que a tristeza te consuma. Abrace a esperança e permita que ela ilumine o seu caminho.
Lembre-se: a tempestade sempre passa, e o sol sempre volta a brilhar.
Em meio àquela angústia, uma ideia macabra me assombrou: a cocaína. Lembrei-me de um amigo que havia partido em uma overdose, em meio à euforia de uma festa. A morte dele, antes vista como trágica, agora parecia uma saída fácil, indolor. Uma forma de silenciar a dor que me consumia. Afinal, se ele havia encontrado a paz naquela substância, por que eu não poderia fazer o mesmo? Pelo menos foi assim que pensei naquela época. Era meu aniversário, eu estava solitário naquele quarto e a vida parecia me presentear com a oportunidade de encerrar tudo de uma vez. Com as mãos trêmulas, adquiri uma quantidade considerável da droga, muito mais do que a que havia levado meu amigo à morte. Queria ter certeza de que a história não seria diferente comigo. Era a minha primeira tentativa de suicídio.
Lembro como se fosse ontem. As linhas eram grossas, quase da espessura de um dedo. Eu as olhava, e a cada traço branco, a morte parecia mais próxima, eu cheirava rápido. A primeira, a segunda, a terceira... A cada linha, uma nova aposta com o destino. Mas a morte não vinha como eu esperava. Meu coração, em vez de parar, pulsava como um mar revolto. O corpo tremia, e as linhas, antes tão firmes, agora se esborrachava entre meus dedos, já não conseguia mais cheirar de tanta tremedeira e visão turva.
A voz, fria e cruel, ecoou em minha mente: 'Pegue a caneta, a mais grossa que encontrar. Encha o tubo e force'. E assim fiz, sem pensar nas consequências. Foi aí que a droga, densa e compacta no tubo , não queria entrar. Lutava contra a minha força, como se tivesse vida própria. Desesperado, deitei no chão com rosto pra cima e inseri o tubo da caneta cheio de cocaína, creio que metade dentro do nariz, o tubo de caneta apontando para o telhado. Com um último suspiro, forcei com todas as minhas forças. A droga desceu queimando, e a escuridão me envolveu. senti até dor na cabeça, nos olhos a dor era insuportável, como se mil agulhas perfurassem meu cérebro. A morte, tão desejada, parecia uma eternidade. Minha vista embaçou e quase não via nada, mas repeti com dificuldade até a maldita droga acabar.
A agonia era física e psicológica. O corpo tremia, a mente delirava.
A caneta, transformada em uma arma contra mim mesmo, foi a gota d'água. depois que a escuridão me envolveu eu tinha a certeza de que havia cruzado uma linha sem volta. A dor era intensa, mas a dor maior era a da alma, dilacerada pela culpa e tristeza.
As horas se arrastavam, eternas. Meu coração, que antes martelava em meu peito, finalmente encontrava a paz. A dor que me consumia, aos poucos, se dissipava. Incrível como o corpo e a mente, tão torturados, conseguiam se recuperar. Naquela noite, encontrei o sono, um sono profundo e reparador, algo que há muito me era estranho.
Aquele dia marcou um antes e um depois em minha vida. Só eu e Deus sabíamos daquela batalha silenciosa. A droga, antes meu refúgio, havia sido vencida por uma força superior. Muitos dirão que foi sorte, que a dose era pequena ou que a droga era de má qualidade. Mas eu, que conhecia cada nuance daquele mundo, sabia que a força daquela substância era inegável. No entanto, naquele dia, algo maior se manifestou: a força de Deus. Ele, em Sua infinita misericórdia, me havia purificado.
A ironia da vida é cruel, não é mesmo? No silêncio do meu quarto, onde a solidão ecoava mais forte do que nunca, recebi uma ligação daquela que um dia havia sido minha, a noiva que havia me deixado. A conversa fluiu naturalmente, como se o tempo tivesse parado. Decidimos dar uma nova chance ao nosso amor. No dia seguinte, ela chegou com uma marmita, um gesto simples que me tocou profundamente. Aquele ato de carinho, em meio àquela precariedade, me deu uma esperança que eu já havia perdido. Prometemos um ao outro que seria diferente. Mas a vida, em sua ironia sem fronteiras, nos reserva sempre novas surpresas, nem sempre agradáveis.
Vulnerável e sozinho, abri meu coração para a única pessoa que acreditava que eu poderia mudar. A volta da minha ex-noiva trouxe comigo um misto de emoções: alívio, esperança e medo. Ao ver minha situação, ela não se afastou, mas me acolheu.
Retomamos o relacionamento, mas as brigas e os desentendimentos persistiram, culminando em uma tragédia.
A vida, antes repleta de sonhos e paixões, tornou-se um deserto árido. As palavras de Salomão ecoaram em meu interior, sobretudo a vida é enfado e ilusão, revelando a verdade crua da existência. A alegria se evaporou, e a vida perdeu seu sabor. A moto, símbolo de liberdade, foi vendida, assim como minha vontade de viver.
A felicidade se tornou um conceito distante. Nada mais me importava, nem mesmo a mulher que um dia amei. A vida era um fardo insuportável, e a morte, uma libertação.
O Dia Que Tudo Desandou
A briga havia sido mais uma em uma longa sequência. Nem lembro o que a motivou, só sei que, mais uma vez, o clima entre nós estava insuportável. Decidimos então irmos para casa pois estávamos em outra cidade. Eu precisava passar em um lugar antes de ir para casa e combinei com ela de nos encontrarmos em um ponto específico.
Para facilitar, entreguei minha carteira com todos os documentos e dinheiro. Sei que foi um erro, uma atitude impulsiva e desnecessária. Aquele gesto, tão simples e ao mesmo tempo tão carregado de confiança, seria o estopim para uma noite de pesadelo.
Esperando no ponto de encontro, vi um carro se aproximar com ela dentro era o táxi que pedi pra ela arrumar enquanto resolvia a outra situação. Acenei freneticamente, mas ela passou direto por mim, como se não me visse. A raiva me consumia a cada segundo. Aonde ela estava indo? Por que não parou? Mil perguntas martelavam na minha cabeça, mas nenhuma encontrava resposta.
Horas se passaram e ela não voltou. A angústia se transformou em pânico. Comecei a imaginar o pior. E para piorar a situação, o motorista do ônibus que peguei me tratou com desprezo, aumentando ainda mais a minha frustração.
Ao chegar na casa de minha mãe, pois elas moravam no mesmo bairro e achei que ela teria ido lá. Ela não estava lá. Aquele era o ponto de ruptura. Todas as minhas frustrações, medos e inseguranças vieram à tona. Lembrei-me do meu inimigo que muitas vezes tentou me prejudicar com inveja por eu ter passado e ele não no concurso, ele vivia maquiando o mal contra mim, aquele que nunca me perdoou por ter conseguido o emprego que ele tanto almejava. Aquele sentimento de inveja e rancor que ele nutria por mim me consumia por dentro.
Naquele momento, tomado pela raiva e pela desesperança, decidi que precisava agir. Eu não poderia permitir que ele me destruísse. resolvi acabar com a vida dele antes dele acabar com a minha.
A chegada da minha noiva só piorou tudo. Ela tentava se explicar onde estava e porque me deixou no ponto de encontro, mas minhas emoções estavam à flor da pele. A discussão se acalorou e, para minha surpresa, minha mãe se juntou ao coro, criticando minhas escolhas e me culpando por tudo. Foi nesse momento de desespero e raiva que soltei as palavras: “Vou acabar com aquele cara agora, o inimigo que tentou por algumas vezes me denunciar tanto para polícia e acredito que até pra bandidos pois queria ver meu fim. Ou ele me destrói, ou eu o destruo” foram as palavras seguintes. A noiva, apavorada, tentou me impedir, mas minha mãe, com uma frieza que me chocou, disse: “Deixa ele ir. Ele só fala, não faz nada”.
Minha mãe, que muitas vezes me apoiou, agora parecia minha maior inimiga, criticando minhas decisões e alimentando a minha raiva. Senti-me completamente sozinho, cercado por pessoas que não me entendiam. A frase "Deixa ele ir. Ele só fala, não faz nada" ecoou em meus ouvidos como uma sentença de morte. Aquelas palavras me fizeram sentir ainda mais isolado e desesperançoso.
Fui tomado por um impulso incontrolável. Sem pensar nas consequências, gritei: "Tanto faz ele ou eu, então que seja eu! Vou acabar com isso agora!" Minha mãe deu um passo para trás, surpresa com a minha explosão. A noiva correu em minha direção, os olhos cheios de lágrimas. "Não faça isso, por favor!", implorou. Mas eu não a ouvi.
Capítulo 28: A Pistola .40
Apistola .40, é uma arma de fogo semiautomática conhecida por seu poder de parada e precisão. Desenvolvida nos Estados Unidos, ela se tornou popular entre forças policiais e civis em busca de uma arma com maior capacidade de incapacitação do que as tradicionais 9mm, mas com um recuo menor do que as .45 ACP.
Poder de parada, em termos simples, se refere à capacidade de uma munição, ao atingir um alvo, causar uma incapacitação imediata ou rápida. Isso significa que o projétil, ao penetrar no corpo, causa danos suficientes para que o alvo não possa mais oferecer resistência, transmitem mais energia ao alvo, aumentando o potencial de causar danos mais severos… e foi com uma dessa que atirei em mim mesmo!
O Tiro
A ideia de encerrar tudo não era nova. Havia noites em que me perdia em devaneios sobre a paz que a morte poderia trazer, um alívio para tanta dor. Mas Deus, com Sua misericórdia e sabedoria, sempre me trazia de volta à realidade.
Naquele dia, algo dentro de mim se rompeu. As palavras da minha mãe, ditas sem maldade, foram como a fagulha que acendeu uma fogueira dentro de mim. Lembro-me que minha mãe falou do cheiro forte e metálico de pólvora que pairava no ar após o disparo. Ela diz que até hoje sente esse cheiro. Um silêncio ensurdecedor se instalou por alguns segundos, quebrado apenas pelo grito desesperado da minha mãe, como se ela não conseguisse acreditar no que acabara de acontecer. Senti meu corpo paralisado, como se o tempo tivesse parado. O projétil tinha saído pela parte de cima do meu nariz mas a intenção era que saísse na cabeça, pois eu havia encostado o cano da arma no queixo e apontado para cima. Tinha intenção da cabeça mas acharia que se não desse certo estragaria suficientemente o rosto, causando grandes danos, já que aquela região é cheia de nervos e vasos sanguíneos. A dor? Sinceramente, não me lembro de ter sentido dor. Acredito que estivesse bêbado demais para sentir qualquer coisa.
Até hoje, sinto o peso daquela tarde/noite sobre meus ombros. A culpa, a vergonha, a angústia de ter causado tanta dor à minha mãe. E, acima de tudo, a frustração por não ter conseguido encontrar outra saída. Afinal, quem poderia imaginar que um simples comentário, dito no calor da emoção, seria capaz de desencadear uma tragédia?. Já minha noiva naquele momento ficou aterrorizada, mas depois ela conversava naturalmente e ainda ria da situação, e todos ficaram prestando atenção nisso e comentando se realmente ela me amava de verdade, ou só era muito fria.
A fração de segundo em que a arma disparou foi uma eternidade. Senti a pressão gélida do metal contra o queixo, o ruído ensurdecedor do tiro e a vibração percorrendo meu corpo. A bala, impulsionada pela força bruta da explosão, seguiu um trajeto tortuoso e imprevisível. Em vez de penetrar direto no crânio, como eu planejava, o projétil ricocheteou em algum ponto dentro do meu rosto, fragmentando ossos e dilacerando tecidos.
Poderia dizer que a dor foi intensa e avassaladora, mas não sentia dor. Senti um calor escaldante se espalhando pelo meu rosto, como se estivesse sendo incendiado por dentro. A sensação de ter o nariz esmagado foi no momento irrelevante, e o gosto metálico do sangue inundou minha boca. A bala, em sua jornada frenética, havia encontrado um caminho de menor resistência e emergiu entre meus olhos, deixando um buraco sangrento e irregular no início do nariz próximo aos olhos, entre eles.
Milagrosamente, o projétil não havia atingido meu cérebro, poupando minha vida. Mas os danos causados ao meu rosto eram extensos. Além do nariz completamente destruído, meu maxilar estava quebrado, e minha língua, pendurada pela metade, balançava precariamente dentro da boca. Acredito que se me olhasse no espelho veria o rosto de um monstro deformado, irreconhecível. Aquele que um dia fora um rosto humano agora era uma máscara de carne dilacerada e ossos expostos.
Com a voz falha e embargada, balbuciei para minha mãe, os olhos arregalados de indignação ou raiva: 'Mãe, toma! Não é isso que a senhora queria? Agora tá feito! A senhora se livrou de mim! Não tem mais volta!'. As palavras saíam atropeladas, um borbulhar incoerente que se perdia no ar. Minha mãe me contou depois que não ouviu nada daquilo. Que meus olhos arregalaram-se em um misto de horror e incredulidade, mas que minha boca, mutilada pelo disparo, era incapaz de formar qualquer som, até mesmo pois estava com maxilar e nariz quebrados e língua pendurada, seria impossível tal ação. Eu, no entanto, tinha a nítida sensação de que ela havia me ouvido. Juro que escutava a minha própria voz ecoando naquela área, insistindo em repetir aquelas palavras cruéis e definitivas. Se ela não tivesse me dito que nada ouviu, eu teria jurado até hoje que ela havia compreendido a extensão do meu desespero e da minha culpa.
É incrível como as pessoas encontram mil e uma justificativas para minimizar a dor alheia. Ouvi tantas vezes que eu havia 'errado o tiro', que não queria morrer de verdade, que era tudo 'frescura'. Uma enfermeira, de todas as pessoas, me disse que eu só queria chamar atenção. Como se a depressão fosse um jogo, uma performance para audiência. É como se as pessoas só levassem a sério a dor mental quando ela as afeta diretamente.
Um colega meu, da própria polícia, sempre tão crítico em relação à minha depressão, chamando-a de 'frescura' e 'manha de gente fraca', acabou se enforcando por causa de problemas conjugais. Que ironia da vida, não? Outro colega de farda, movido por ciúmes, tirou a própria vida bem na frente do trabalho da mulher. E aí, onde estavam todos os julgamentos? Onde estavam as certezas de que a depressão era frescura? A vida tem um jeito cruel de nos mostrar a fragilidade da mente humana e a importância de sermos mais empáticos uns com os outros.
A ideia da morte já havia se instalado em meus pensamentos como um inquilino indesejado, mas persistente. Imaginava o momento final em cenários distantes, em lugares remotos onde a solidão fosse minha única companhia. Onde atirar? Como seria a dor? Queria que tudo fosse rápido, preciso, sem sofrimento. Aquele dia, no entanto, não fazia parte de meus planos. Mas o destino, implacável, havia riscado o meu último capítulo, só que Deus não quis assim.
Capítulo 29: O Socorro
Deus, em sua infinita misericórdia, me proporcionou uma segunda chance. Uma viatura com colegas de trabalho estava próxima e, ao ouvir o disparo, dirigiu-se à casa de minha mãe. Para muitos pode ter sido sorte, mas para mim foi Deus que quis que eles estivessem próximos. Eles me encontraram em estado crítico, com um ferimento grave e perdendo muito sangue. A lembrança que tenho daquela noite é a de ser colocado em uma viatura, a sensação de frio ao ser entubado e, depois, um longo apagão de três dias. Agradeço a Deus e aos meus colegas por terem me salvado.
Após isso, acordei em uma sala pós-operatória. Para mim, era de madrugada, mas hoje sei que lá não dá para saber qual horário era, pois tudo era escuro, apenas iluminado por lâmpadas fracas. Lembro de acordar com aquela sensação de alívio, dizendo para mim mesmo: 'Deus! Estou vivo. Já que tive essa chance, vou aproveitar a vida ao máximo.' Mas não demorou muito para que a euforia inicial se dissipasse. Comecei a prestar atenção ao meu redor e logo percebi que estava amarrado à maca, pelos pulsos e tornozelos. Parecia que previram minha reação posterior. Vi muitas macas na sala ao lado e todos em silêncio, sonolentos ou dormindo. Foi então que comecei a sentir a dor na boca e, para ser mais específico, na língua, que estava costurada com linha de náilon bem apertada. Pelo menos essa era a sensação que tinha, de vários nós bem apertados na língua. A dor era insuportável. Não podia gritar, pois estava entubado. Não podia erguer as mãos para pedir socorro, pois estava amarrado. Comecei a me debater com força e logo os pacientes que dormiam se acordaram. Foi um rebuliço na sala, e alguns dos pacientes que ali estavam começaram a me xingar para que eu me aquietasse.
Foi então que uma enfermeira se aproximou, sua figura se materializando na penumbra daquela sala. Com voz suave e cadenciada, chamou-me pelo nome, tentando me acalmar. Senti que a dor ia se dissipando enquanto ela adicionava algo ao meu soro. Em poucos segundos, a consciência foi se apagando, e mergulhei novamente nas profundezas do sono. Despertei no dia seguinte, em uma cama de outro cômodo, livre das amarras que me aprisionavam.
Não lembro direito de quanto tempo passei ali, naquele hospital. O tempo era irreconhecível, não dava para contar ou me situar. Estava totalmente nas mãos de estranhos, pois até então ninguém podia me ver: eu estava em observação. Naquela primeira noite, entubado mas consciente - pelo menos é o que eu achava - ouvi várias vozes de familiares conversando sobre mim ali próximo. Fiquei ansioso para ver alguém conhecido e, com o pouco de mobilidade que tinha com a cabeça, procurava ao redor, mas não via ninguém. Sem ter como me levantar, levantei o braço e comecei a chamar com a mão para que eles se aproximassem, mas nada aconteceu. No dia seguinte, minha irmã, através de uma conhecida que trabalhava na segurança do hospital, conseguiu entrar sorrateiramente no local onde eu estava, que era proibido para qualquer um, mesmo familiares. Contei a ela que tinha ouvido eles conversando sobre mim ali perto e perguntei por que eles não vieram quando chamei. Fiz isso tudo por escrito, pois minha irmã tinha um bloco de anotações e uma caneta, já que eu não podia falar. Não entendi quando ela começou a ler e chorar enquanto lia. Foi quando ela me disse, em lágrimas, que não estavam ali e não podiam nem chegar perto, pois era proibido. Será que minha alma viajou e escutou tudo aquilo ou foi só fruto da minha imaginação? Depois de tudo, com a recuperação, não lembro do assunto que conversavam e não tive a oportunidade de perguntar se realmente era o mesmo assunto que ouvi naquela noite.
Capítulo 30: A Mudez
Ainda nesta sala, fiquei sabendo que eu não falaria mais. Mas me disseram que, com muita fisioterapia na língua, seria possível tentar emitir alguns sons para me comunicar, ou talvez uma fala muito defeituosa. Lembro-me também de uma enfermeira que chegou falando alto: 'Cadê o policial novo de vinte e poucos anos que tentou se matar?' Ela estava bem na minha frente e apontaram para mim. Aparentemente, ela não era daquele setor e foi só ali me ver por curiosidade. E ainda, bem perto e falando alto, ela disse com desdém: 'Que era safadeza minha porque eu não coloquei a arma na testa, que seria fatal'. Isso mostra como alguns profissionais podem ser insensíveis. Ela deve ter raiva de policiais por algum motivo ou simplesmente ser uma pessoa odiável.
Fui atendido por uma médica, uma médica muito gentil e atenciosa constatou um problema na máquina de respiração. Ela se mostrou surpresa ao perceber que algo estava errado e chegou a questionar em voz alta como eu havia conseguido sobreviver com aquela falha. Durante todo aquele tempo, sentia um peso enorme ao respirar, como se estivesse puxando uma sanfona pesada para cima a cada inspiração. Foi uma experiência muito difícil e desgastante, não sei se é comum em casos assim ou se foi algo específico do meu caso.
Após essa experiência da respiração pesada, nunca conheci ninguém que tivesse passado por algo semelhante pra perguntar se era normal e muito difícil respirar naquele aparelho. Tiraram o tubo e a sonda de mim, e comecei a me recuperar. Mas assim como não esqueço as palavras cruéis daquela enfermeira, também lembro com carinho das palavras da médica, que pediu para que eu recebesse atenção especial por ser policial.
Finalmente, liberto das amarras daquela máquina que me mantinha supostamente vivo, fui transferido para um novo quarto. A luz do sol, que até então era apenas um rumor distante, agora inundava o cômodo. A vida, antes um fio tênue e incerto, começava a renascer em mim. A dieta líquida, um banquete comparado ao soro que me sustentava antes, era um sinal claro de que a recuperação estava a caminho. E o mais importante: visitas! A perspectiva de ver rostos conhecidos, de ouvir vozes familiares, era um bálsamo para a minha alma. A comunicação seria limitada, mas a simples presença de alguém querido seria suficiente para me fortalecer. Não estava triste por não poder falar; a alegria de viver superava qualquer outra angústia. Estava vivo, e isso era tudo o que importava.
No quarto do hospital, recebi visitas de familiares e curiosos, gentilmente impedidos por minha família. Compartilhava o espaço com um jovem especial do interior, cujo corpo funcionava de forma invertida. A complexidade de sua condição médica o levava a procedimentos delicados, nos quais ambos nos submetemos. A angústia me tomou de assalto quando vi, de repente, seus pontos se romperem e parte de seus órgãos se exteriorizarem. Aquele momento de desespero, a aflição dos outros, marcaram-me profundamente. Soube mais tarde de seu falecimento em casa.
Naquele leito de hospital, cercado por máquinas e a fria luz fluorescente, encontrei um refúgio inesperado: a presença de meu tio. Ele, que quando criança havia lutado incansavelmente para que nossa família vivesse mais perto dele, agora estava ali, ao meu lado, em um dos momentos mais desafiadores de minha vida. Com a Bíblia em mãos, lia passagens que me transmitiam paz e esperança. A cada palavra, sentia sua fé me envolvendo como um manto protetor. O que mais me chamou a atenção nele foi que, apesar de ser analfabeto, ele aprendeu a ler sozinho, motivado pela leitura da Bíblia. E, incrivelmente, conseguiu aprender a ler e entender ao mesmo tempo, sem ninguém para ensinar. Ele atribui essa conquista à graça de Deus. Além disso, ele me contou que tinha uma tatuagem e pediu a Deus para removê-la, e, milagrosamente, ela desapareceu de sua pele de forma natural. Naquele momento, ele foi uma presença divina em minha vida, um homem de Deus que amava o próximo mais do que a si mesmo.
Os médicos haviam sido claros na minha chegada ao hospital: minhas chances de sobreviver eram mínimas. A cirurgia havia sido complexa e as complicações, constantes. Fiquei sabendo que precisaria de uma transfusão de sangue, mas que, por conta da gravidade do meu estado, os médicos haviam desistido. A impossibilidade de falar era mais uma dor a ser suportada.
No entanto, a fé de meu tio era um farol em meio àquela tempestade. Dias e noites, conversávamos por meio de gestos e de um caderno, expressando nossa gratidão a Deus. E, em um momento que parecia eterno, um milagre aconteceu: a minha voz voltou. A língua, antes adormecida pela cirurgia e ainda costurada, se soltou e as palavras fluíram livremente. A alegria que senti naquele instante era indescritível. A prova viva de que a fé move montanhas e que a misericórdia divina não tem limites.
Um dia, dois oficiais entraram no meu quarto e, com um ar sério, anunciaram minha transferência para o hospital militar. Para minha sorte, eu tinha um convênio médico que cobriria os custos. No novo hospital, as condições eram melhores, mas a dieta restrita me causava muita fome. Foi então que um colega de infância, com um gesto de grande amizade, começou a “contrabandear” para mim a sopa que minha mãe preparava com tanto carinho. Ela, por sua vez, aproveitava as visitas de meu amigo para entregar os alimentos escondidos em sua mochila, pois não podia me visitar com frequência por conta do trabalho. Em uma dessas visitas, minha mãe me contou que algumas pessoas haviam ido até sua casa para se informar sobre o meu velório, acreditando que eu não havia resistido. A notícia me comoveu profundamente, e me fez valorizar ainda mais a vida e o amor de minha família.
Pós Hospital
A expectativa pela alta médica era grande, e a mudança de bairro traria um novo capítulo em minha vida. Durante a consulta, o médico, com sua experiência, avaliou minha recuperação e decidiu otimizar o tratamento. A troca sutil do medicamento mais forte por um menos viciante, sem que eu percebesse, foi uma estratégia inteligente para evitar a dependência e garantir uma recuperação mais completa. Sua abordagem, além de eficaz, demonstrou sua preocupação com meu bem-estar físico e psicológico. Com a alta médica em mãos, segui para o novo lar, agradecido pela atenção e profissionalismo de toda a equipe médica que me acompanhou durante esse período.
Capítulo 31: O Latão
Em uma cidade estranha, cercado por rostos desconhecidos, mais uma vez a solidão era minha companheira inseparável, era tanto que algumas vezes saia para caminhar. A casa alugada, um refúgio temporário, não me proporcionava o conforto que eu buscava. O rosto inchado, reflexo de uma cirurgia recente, me encarava no espelho, um retrato do homem que eu me tornava. A presença materna, um bálsamo para a alma, não era suficiente para aplacar a sede que me consumia. Ao passar por uma pequena mercearia, meus olhos foram atraídos por um balcão reluzente. Ali, sob a luz fria das fluorescentes, jazia um latão de cerveja, uma tentação irresistível. Aquele líquido dourado, tão próximo e tão distante, era um fantasma do meu passado, um inimigo que eu jurava ter deixado para trás. A batalha interna se intensificava a cada passo que eu dava em direção a nova casa, a cada respiração superficial. A vontade de ceder era avassaladora, mas a promessa que fiz a mim mesmo ecoava em meus ouvidos.
Agora, meu salário estava nas mãos de minha mãe, e a cada dia que passava, a sensação de dependência me sufocava. Neste dia, implorei por um pouco de dinheiro, mas ela, com um olhar pesaroso, negou meu pedido. As despesas da casa, as dívidas do passado, eram os motivos alegados. Senti-me como uma criança mimada, pedindo esmola, mas ela acabou me dando umas moedas. A raiva me consumia, mas a gratidão por sua ajuda me impedia de explodir.
A lata de cerveja, com suas gotas de condensação, brilhava sob a luz fluorescente como um tesouro. Aquele líquido dourado, tão próximo e tão distante, me hipnotizava. A boca seca e a língua ainda costurada, um lembrete cruel da minha condição. A vontade de beber era uma força incontrolável, que me arrastou de volta à mercearia. Com um gesto desesperado, apontei para o latão de cerveja e pedi um canudo, no qual causou estranheza do vendedor, mas não conseguia beber de outra forma. A pergunta do vendedor ecoou no ar, quebrando o silêncio intenso, para ter certeza que eu queria o canudo. O interessante é que o preço foi exatamente o valor das moedas que minha mãe me deu.
Saí da mercearia a passos apressados, como se estivesse fugindo de algo. A consciência pesada me acompanhava a cada passo. Ao chegar em casa, encontrei a porta fechada e me sentei na calçada, escondido. Abri a cerveja com cuidado, evitando qualquer ruído que pudesse atrair a atenção de minha mãe. Com um desespero quase infantil, introduzi o canudo e suguei o líquido gelado com toda a força. A sensação era indescritível, uma mistura de prazer e culpa. A tontura me atingiu com força, e tudo à minha volta começou a girar. Havia passado tanto tempo me recuperando que meu corpo, fragilizado, não estava mais acostumado ao álcool. Aquele simples latão me deixou completamente atordoado.
Entrei em casa às pressas, tentando ser o mais silencioso possível. Minha mãe, como de costume, já estava se preparando para dormir. Esgueirei-me para meu quarto, ansioso por me esconder sob os cobertores. Apaguei quase instantaneamente, como se precisasse fugir da realidade. No dia seguinte, aliviado por minha mãe já ter ido trabalhar, não precisei enfrentar suas perguntas e julgamentos.
A partir daquele dia, retomei o hábito de beber. Reivindiquei meu salário de volta e com ele, senti que havia recuperado minha independência. A raiva de minha mãe e de minha irmã, por voltar a beber, me impulsionou ainda mais a provar que era capaz de cuidar de mim mesmo. Suas ameaças e tentativas de controle só serviram para aumentar meu desejo de liberdade. Hoje, ao olhar para trás, percebo o quanto aqueles momentos foram marcados pela angústia e pela busca por autonomia.
A codependência com minha noiva ainda era evidente. Ela preenchia os espaços, me deixando menos estressado naqueles momentos, indo me visitar com constância algumas vezes por semana naquele novo bairro. A presença constante de minha mãe, por outro lado, me lembrava da minha falta de independência. A necessidade de me casar era uma forma de escapar daquela situação, de me sentir completo. Mas a vida me ensinou que a felicidade não se encontra em outra pessoa, mas sim em nós mesmos.
Não demorou muito para que eu voltasse à minha antiga vida de bebedeira. Agora, morando em outro bairro, ia até o bairro da tragédia para beber com meus supostos amigos. Insistia em me casar com aquela mesma mulher, que sempre se recusava. Um dia, querendo me aproximar dela, fui até o lugar onde ela estava. Bêbado, perguntei a um integrante da igreja dela, que eu sabia ter interesse nela, sobre ela. Em uma atitude arrogante e desrespeitosa, ele me insultou. Enfurecido, dei um soco nele. Ele tentou reagir, mas não o fez, talvez por medo de que eu estivesse armado, o que de fato era verdade. Depois, soube que ele procurou pessoas perigosas para se vingar de mim. As pessoas falam muito sobre o ocorrido, mas a verdade é que, naquela noite, sob o efeito do álcool, a situação realmente escapou do meu controle.
A notícia se espalhou rapidamente, como uma onda. A noiva ficou sabendo do ocorrido e, naquela noite, não consegui encontrá-la. Quando finalmente consegui falar com ela por telefone, a resposta foi curta e direta: ela não queria mais nada comigo. Nos dias seguintes, tentei de todas as formas reconquistá-la, mas ela se manteve irredutível. Para minha surpresa, alguns dias depois, ela me ligou para conversar. Descobri que o pastor da igreja dela havia intercedido a meu favor, dizendo que todos merecem uma segunda chance. Após uma conversa sincera e sábia, mediada pelo pastor, ela decidiu me dar outra oportunidade.
Enquanto as pessoas próximas dela, como familiares e outros membros da igreja, me condenavam sem hesitação, o pastor, um completo estranho, surpreendeu a todos com sua atitude compassiva. Ao invés de me julgar, ele me ofereceu uma oportunidade de redenção, revelando-se um verdadeiro servo de Deus.
Então, depois desse susto de perdê-la para sempre, me esforcei ao máximo para convencê-la a se casar comigo o mais rápido possível. Por um ato de bondade e caridade, assim creio eu, ela finalmente cedeu. E assim chegou o dia do casamento, celebrado pelo mesmo pastor que me deu uma segunda chance.
Até hoje, nutro um profundo respeito por aquele pastor. Ao contrário de muitos, ele seguiu o exemplo de Jesus, não julgando pela aparência, mas enxergando a fragilidade humana que havia em mim.
Capítulo 32: O Casamento
Amar era fácil. Perdoar, acreditar e seguir em frente, nem tanto. Mesmo diante de tantas evidências, meu coração insistia em teimar. Era como se estivesse afogado em um mar de sentimentos contraditórios. A paixão era intensa, cegando-me para as evidências. Mesmo sabendo de suas mentiras, nutria uma esperança irreal de que tudo se encaixaria como um quebra-cabeça perfeito em algum momento. Apegado como uma criança, buscava em nosso relacionamento um refúgio para a solidão que ainda sentia. A depressão, silenciosa e persistente, me tornava cada vez mais dependente dela. Pedir sua mão em casamento foi um ato desesperado, uma tentativa de ancorar minha vida em algo que já estava naufragando. Cego pela paixão e afastado da fé, não conseguia enxergar os sinais que apontavam para um final doloroso.
A decisão de se casar, após anos de hesitação da parte dela, sempre pairou como uma nuvem sobre nosso relacionamento. A persistência era minha e a dúvida era dela. No entanto, o tempo e a convivência nos levaram a dar esse passo, mesmo que as incertezas continuassem a nos acompanhar.
A Despedida De Solteiro
Naquele dia, no mesmo dia do casamento, cercado pelos chamados 'amigos', senti um nó na garganta. A ideia de uma despedida de solteiro, organizada por eles de última hora, me deixava desconfortável. A noite se aproximava e com ela o casamento, mas a sensação de que algo estava errado só aumentava. A insistência deles me levou a aceitar um carro emprestado e embarcarmos em uma jornada de um dia inteiro. Comida, bebida e uma atmosfera cada vez mais carregada tomaram conta do dia. No fim, tivemos que nos apressar para a igreja que ela frequentava com a mãe. O pastor, aquele mesmo que havia me ajudado a reconquistá-la, nos esperava no altar. Mas será que ele havia tomado a decisão certa ao unir duas almas tão díspares? Ela, que se proclamava cristã, mas vivia em desacordo com seus próprios princípios. E eu, um pecador arrependido, mas ainda em busca da redenção.
Chegamos raspando na hora, eu e dois dos padrinhos mais bêbados que já vi na vida. A boca cheia de balas de menta não escondia totalmente o bafo de álcool, mas, por algum milagre, ninguém pareceu notar. Entramos na igreja, tropeçando nos próprios pés e tentando manter a compostura. Confesso que tivemos sorte, ou talvez a igreja estivesse 'tão escura' que ninguém conseguisse enxergar direito.
Com um sorriso confiante, respondi: 'Com certeza'. Ao dizer 'com certeza' ao invés de 'sim', eu me sentia inabalável. Mas a verdade é que minha certeza era apenas humana, frágil e limitada. Deus, em Sua infinita sabedoria, não me havia dado essa mesma certeza. E o dia seguinte provaria que minhas convicções eram apenas ilusões.
A paz da manhã foi brutalmente interrompida pela batida insistente na porta. Eram dois rostos familiares do meu passado, sorrindo de forma escancarada. Eles sabiam onde nos encontrar, afinal, era a mesma casa que minha mãe alugou para mim antes do casamento. Minha esposa, ainda sonolenta, tentou se esconder sob os lençóis, mas a insistência deles era irritante. A discussão que se seguiu, sobre sair ou não, foi o prelúdio para um fim de semana que se transformaria em um desastre. A casa de praia, que deveria ser um refúgio, tornou-se um campo de batalha, onde as antigas amizades e os novos laços se chocavam de forma violenta. Em resumo, a lua de mel foi um fracasso.
Os dias que se seguiram foram um turbilhão de emoções negativas. Altos e baixos se alternavam em um ritmo frenético, e as discussões, antes esporádicas, tornaram-se uma constante em nossas vidas. As noites, que deveriam ser um refúgio, se transformaram em arenas de batalha, onde palavras ferinas eram lançadas como armas. A situação chegou a um ponto tão crítico que a imobiliária nos procurou, incomodada com as reclamações dos vizinhos sobre o barulho.
Certa vez a discussão foi a gota d'água. Peguei o dinheiro da feira, uma quantia razoável que me separava da fome, e saí sem rumo. Os remédios, que tomava para controlar a ansiedade, me levaram a um estado de euforia artificial. A bebida amplificou essa sensação, me levando a um abismo de onde não conseguiria mais sair. Acordei em casa, sem dinheiro, sem memória e com a sensação de ter perdido uma parte de mim, cercado por um silêncio sepulcral, mas não lembrava de nada. A vergonha e o arrependimento me consumiam. Imaginei o sofrimento da minha família e de todas as pessoas que passam por situações semelhantes. O alcoolismo é uma doença cruel que destrói vidas e famílias.
Capítulo 33: A Máscara
Com o passar do tempo, a verdade sobre as pessoas foi se tornando cada vez mais evidente. A imagem que eu havia construído em minha mente desmoronava a cada nova descoberta. As máscaras foram caindo lentamente, revelando uma faceta delas que eu nunca imaginei. A frustração, a dúvida e a sensação de fracasso se misturaram às muitas emoções, abalando os alicerces das minhas relações.
Em uma conversa, a atual companheira (daquele momento) confessa abertamente seu desejo por novas experiências. 'Quero viver aventuras, conhecer pessoas', disse ela, com um brilho nos olhos que me gelou. Aquele era o ponto final. Segundo ela eu havia sido o primeiro e único amor dela, me sentia como um capítulo fechado em um livro que ela estava ansiosa para recomeçar. A frase 'quero viver a vida' ecoava em meus ouvidos, como uma pancada na cabeça, revelando a profundidade da minha própria ignorância.
E para piorar a situação, alguns dos meus amigos começaram a frequentar nossa casa com frequência. Minha sogra, com sua sabedoria materna, me alertou sobre as intenções deles. Ela revelou que esses 'amigos' demonstravam interesse romântico por ela, mas eu, cego pela confiança, negligenciei seus avisos. Com o tempo, percebi que eles não me procuravam por amizade, mas sim por interesse, usando nossa amizade como fachada para se aproximar dela.
Em uma certa noite, em meio à multidão da feira, a atenção dela se voltou para um conhecido de forma tão intensa que me senti invisível. A intimidade entre eles era evidente, e a cada gesto, a cada risada compartilhada, a raiva dentro de mim crescia. Impulsivamente, interrompi a conversa e a puxei para longe daquela situação. A discussão que se seguiu foi acalorada, e a cada palavra trocada, a minha frustração se transformava em fúria. No auge da briga, joguei as sacolas com as compras no meio da rua escura, um gesto impulsivo e destrutivo que me deixou atordoado. Ela tentou me impedir, mas a ordenei a deixar tudo para trás. Andei por alguns metros, mas a culpa e a angústia me impediram de ir mais longe. Esperei por ela em um ponto escuro, observando-a de longe, enquanto a noite se aprofundava e a realidade daquilo que havia feito se tornava cada vez mais clara.
Aquele momento me marcou para sempre. O motoqueiro, a buzina, o olhar trocado... cada detalhe se encaixou como peças de um quebra-cabeça sombrio. Vi-a subir naquela moto, sem um pingo de hesitação, e seguir caminho, como se estivesse indo para casa. A sensação de impotência me dominou. Eu estava ali, parado, observando tudo acontecer, sem poder fazer nada. Era como se eu estivesse assistindo a um filme, onde eu era apenas um espectador passivo da minha própria vida.
Naquela noite, a relação se deteriorou rapidamente. A separação era inevitável. E, como em um golpe final, ela minimizou todo o meu sofrimento, atribuindo meus sentimentos a simples "ciúmes". Com uma frieza que me deixou perplexo, ela negou tudo, insistindo que eu havia inventado tudo em minha cabeça. A acusação de estar louco foi a gota d'água. A manipulação psicológica me fizeram questionar minha própria sanidade.
Aquela noite foi dolorosa, mas a forma como ela manipulou a situação foi ainda mais cruel. Usando a minha bebida como desculpa, ela conseguiu convencer todos de que eu era o culpado. A sensação de ser humilhado na frente de pessoas que eu considerava amigos e familiares foi insuportável. Naquela noite, a única opção foi me retirar, carregando a vergonha que não me pertencia.
Refugiei-me na casa de minha mãe enquanto tentava superar o ocorrido. Enquanto eu estava ausente, ela permaneceu sozinha em casa, e durante esse período, muito se passou. Quando a verdade finalmente veio à tona, ela precisou confessar aos familiares o que havia acontecido. Inicialmente, relutei em procurá-la, mas deixei claro que só voltaria se ela assumisse toda a verdade. No entanto, em uma tentativa de me enganar, ela inventou uma história sobre um mototaxista. Imediatamente, confrontei-a, lembrando-a de que naquela região e época não existia esse tipo de serviço naquele bairro, muito menos aplicativos de transporte de passageiros que surgiu anos depois. Sem saída, ela finalmente admitiu e me pediu desculpas, alegando que ele havia apenas oferecido uma carona por estar com compras.
Decidi, então, perdoá-la e pedi que confessasse a verdade aos meus familiares, aqueles que haviam acreditado em suas mentiras. Exigir também que ela se explicasse aos seus próprios parentes. Após essa dolorosa experiência, aceitei voltar a conviver com ela, mas com a condição de que recomeçássemos nossa história em um novo lugar. Mudamos de bairro, buscando um recomeço e a esperança de reconstruir nossa relação.
Capítulo 34: O Recomeço
ASempre guardei essa história para mim, para minha mãe e minha irmã. Mas uma vez, em uma conversa casual com um primo sobre casamentos fracassados, tentei tocar no assunto, mas a conversa morreu ali mesmo. Ele não acreditou em mim, defendeu minha ex-esposa com unhas e dentes. Naquele momento, decidi que era melhor deixar tudo como estava. Afinal, cada um segue sua vida, e o mais importante é que ela esteja feliz. Mas, com o tempo, comecei a perceber que a versão dela sobre o nosso relacionamento era a única conhecida por todos. E, infelizmente, a sociedade costuma acreditar mais em quem não tem histórico de problemas, como eu. A verdade é que uma mentira repetida muitas vezes pode se tornar verdade, mesmo para quem a inventou.
“Uma mentira dita mil vezes torna-se verdade".
Essa célebre frase de Joseph Goebbels, ministro da propaganda na Alemanha Nazista.
A verdade sobre sua versão dos fatos continua sendo um enigma para mim, até mesmo porque nunca quis saber já que ela havia feito a escolha dela, mas uma coisa é certa: não foi favorável a mim. Vamos desvendar essa história juntos.
Neste outro novo bairro, a situação melhorou um pouco, mas meu problema com a bebida persistiu. Isolamo-nos, recebendo apenas visitas esporádicas da família. Apesar disso, a vida parecia ganhar um novo sentido. Nessa época, eu ainda buscava refúgio no álcool para escapar da realidade.
Foi então que ela começou a reclamar que a vida não a satisfazia mais. Dizia que se sentia entediada em casa enquanto eu trabalhava e me distraía. Insistiu em trabalhar, mas minha desconfiança, baseada em nossa reconciliação, me impediu de concordar, mas enfim acabei concordando.
As coisas começaram a ficar estranhas, ela sempre chegava por volta das 7h. Certa noite, a ausência dela se prolongou por horas, até que, por volta das 22h, ela finalmente apareceu com os cabelos molhados. Seu aspecto era diferente, seu olhar perdido.
Gritei, esperneei, exigi respostas. Para onde ela tinha ido? Com quem? O que estava fazendo? O silêncio dela era a resposta mais cruel. Sei que errei ao insistir, mas o amor me cegava. Só mais tarde percebi o quanto me desvalorizei ao aceitar aquela situação. Ela havia deixado o emprego, mas nunca me contou a verdade sobre aquele dia. Hoje sei o que aconteceu, mas naquele momento, a dor era tão grande que preferia não acreditar.
A Bíblia ensina que devemos amar a Deus acima de todas as coisas (Mateus 22:37). Quando colocamos outra pessoa em um pedestal que é divino, podemos criar expectativas irreais e nos decepcionar profundamente, além de estar traindo o Senhor.
Amar-se não é egoísmo, mas sim um reconhecimento do valor que Deus nos atribui. Cuidar de nossa saúde física, mental e espiritual é fundamental para vivermos uma vida plena.
Ao colocar um ser humano no lugar de Deus, estamos praticando uma forma de idolatria. Isso pode levar a codependência, obsessão, sofrimento emocional e até mesmo à destruição de relacionamentos.
Quando colocamos todas as nossas esperanças e sonhos em outra pessoa, podemos nos tornar dependentes emocionalmente, perdendo nossa identidade e autonomia.
Nenhum ser humano é perfeito. Ao idealizar alguém, estamos nos preparando para a decepção.
Ao se dedicar exclusivamente a outra pessoa, podemos negligenciar nossas próprias necessidades e desejos, o que pode levar ao esgotamento emocional e físico.
Ao colocar um relacionamento em primeiro lugar, podemos nos afastar de Deus e perder a direção espiritual em nossas vidas.
Amar alguém profundamente é algo bonito e natural. No entanto, esse amor deve ser equilibrado com o amor a Deus e a si mesmo.
Os relacionamentos são importantes e enriquecedores, mas não devem ser a única fonte de significado em nossas vidas.
Se você está em um relacionamento tóxico ou se sente perdido, não hesite em procurar ajuda profissional.
Em resumo, a afirmação de que amar alguém mais do que a Deus e a nós mesmos pode levar à destruição é uma verdade espiritual importante. Ao cultivar um relacionamento equilibrado com Deus, com os outros e consigo mesmo, podemos encontrar a paz e a felicidade que buscamos.
A Bíblia diz:
“Cova profunda é a boca das mulheres estranhas; aquele contra quem o Senhor se irar, cairá nela.” (Provérbios 22:14)
Será se o Senhor estava irado contra mim? Antes, atribuía a ela toda a culpa por minha queda no vício. Hoje, reconheço que minha busca obsessiva por um amor não correspondido, aliada ao meu afastamento de Deus, me cegou para a realidade. A dependência dela se tornou uma armadilha que eu mesmo ajudei a construir. Através dessa experiência dolorosa, compreendi a importância de buscar a verdade dentro de mim e de me conectar com uma força maior.
Houve um trecho na Bíblia, em 1 Coríntios, onde Paulo 'entrega um homem à destruição'. Confesso que, no passado, eu não compreendia essa passagem e a considerava muito severa. Hoje, com uma compreensão mais profunda das Escrituras, vejo essa situação de forma completamente diferente.
“Seja, este tal, entregue a Satanás para destruição da carne, para que o espírito seja salvo no dia do Senhor Jesus.” (1 coríntio 5:5)
Antes, eu via a atitude de Paulo como uma forma de arrogância, algo que me incomodava profundamente. Mas quem sou eu para questionar as ações de um apóstolo inspirado por Deus? Hoje, entendo que é melhor passar por sofrimento e ter a oportunidade de reconhecer meus erros, mesmo que isso signifique ser 'entregue à carne'. Assim como o filho pródigo, que voltou para casa após reconhecer seu erro, é melhor enfrentar as consequências do pecado do que persistir nele e arriscar perder a salvação, que é o bem mais precioso que temos.
A frase 'o Senhor corrige aqueles a quem ama' ressoa em meu coração com mais força do que nunca. As dificuldades que enfrentei foram como um refinador, moldando meu caráter e aprofundando minha fé. Sou grato por cada lição aprendida, pois elas me conduziram a um relacionamento mais íntimo com Deus. Hoje, sei que o sofrimento tem o poder de transformar vidas e nos aproximar do Pai, além do que eu não era nem um santo e se justo recebe recompensa em vida inclusive eu, mero pecador afastado de Deus, não teria minha lição? Claro que sim!
No passado, como muitos, ansiava por recomeçar e apagar meus erros. Hoje, sei que minhas experiências foram cruciais para meu crescimento. Alguns são mais rápidos em aprender as lições da vida e alcançar seus propósitos divinos, enquanto outros, como eu, precisam de mais tempo e sofrimento para entender a vontade de Deus. Embora o caminho tenha sido árduo, sou grato por cada experiência, pois me aproximaram de Deus e me permitiram descobrir meu verdadeiro propósito. Antes, a ideia de um Deus pessoal era apenas um conceito abstrato. Hoje, ele é a realidade que guia minha vida e me dá esperança.
Após um acordo para que ela deixasse o emprego, sua rotina mudou drasticamente. As ligações constantes e as idas frequentes ao quarto de hóspedes despertaram minha desconfiança. Um dia, por acaso, flagrei-a atendendo um telefonema no quarto. Aquele foi o momento em que a verdade veio à tona. Lembro-me do dia em que ela chegou em casa tarde e com os cabelos molhados, e eu, ingenuamente, atribuí tudo à minha imaginação. Hoje, sinto raiva por ter sido tão ingênuo, mas agradeço por ter descoberto a verdade antes que a situação se agravasse.
O coração disparou quando abri a porta e a encontrei ao telefone. Seus olhos arregalados denunciavam o susto. O homem do outro lado da linha, com uma audácia que me deixou perplexo, parecia ser um frequente interlocutor. Sem saber o que dizer, desliguei a ligação. A tentativa dela de minimizar o ocorrido, mais uma vez, me deixou frustrado e desiludido.
Sei que muitos devem pensar que fui um tolo por não perceber o que estava acontecendo. E, sinceramente, eu também me sinto assim às vezes. No entanto, essa experiência dolorosa me ensinou lições valiosas sobre confiança e autoconhecimento. Agradeço a Deus por ter me permitido passar por isso, pois hoje sou uma pessoa mais resiliente e capaz de lidar com as adversidades da vida.
A Bíblia diz:
“Não digas: Vingar-me-ei do mal; espera pelo Senhor, e ele te livrará.” (Provérbios 20:22).
“Eis que o justo recebe na terra a retribuição; quanto mais o ímpio e o pecador!” (Provérbios 11:31).
Com isso, não quero dizer que ela foi a única culpada, mas sim que ambos pagamos ou pagaremos por nossos erros, seja nesta vida ou na próxima. Acredito ser o principal responsável por tudo o que aconteceu, pois fui eu quem a procurou, a conquistou e insisti em um relacionamento que já demonstrava não ter futuro. O maior erro foi meu. E mesmo que as circunstâncias fossem outras, nós, como cristãos, temos o dever de perdoar.
Lembre-se:
“Perdoai-vos uns aos outros, assim como Deus os perdoou em Cristo.” (Efésios 4:32)
Jesus respondeu:
“Eu digo a você: Não até sete, mas até setenta vezes sete.” (Mateus 18:22)
Os vícios, como a bebida, podem obscurecer a visão mais clara. Mas a Palavra de Deus, essa, é uma luz constante, imutável. Reconheço meus erros, minha parcela de culpa nessa história. Não busco justificativas, apenas a verdade. A jornada de autoconhecimento me levou a perceber que ambos fomos levados por caminhos tortuosos, e que a culpa não se concentra em um único ponto, mas sim em um labirinto de escolhas e consequências.
Num dia de discussão acalorada, eu resolvi sair, ela lançou um ultimato: 'Se você sair, eu vou embora e nunca mais volto'. Apaixonado como era pela bebida, não levei suas palavras a sério. Subestimei o seu amor e a profundidade de seus sentimentos. Mas ela foi. E a dor da ausência foi um golpe tão forte quanto a realidade da minha dependência.
Enquanto os problemas em casa se acumularam, uma tragédia familiar, quem sabe em outra oportunidade possa contar, foi o golpe final. Sem Deus, a bebida se tornou meu único refúgio. Era um ciclo vicioso: quanto mais sofria, mais bebia; quanto mais bebia, mais sofria. Percebi, com amargura, que sem Deus, o homem está condenado à destruição.
Ao voltar para casa a maçaneta girou, mas a porta se manteve implacável. A porta estava trancada. O coração, antes já gelado, agora se partiu em mil pedaços. Gritei seu nome, mas o eco da minha voz se perdeu no vazio do ambiente. A cada tentativa frustrada de contato, a certeza de sua partida se solidificou. Em desespero, arrombei a porta e me deparei com um cenário de abandono. Caí no chão frio da sala, entregue a uma dor lancinante. A noite inteira chorei, implorando por um milagre. Minha mãe, com a voz embargada ao telefone, tentou me confortar, mas a esperança era tênue. Exausto, adormeci ao amanhecer, carregando o peso da solidão.
A luz do sol, que invadia o local, ironicamente iluminou a imensidão da minha solidão. A campainha tocou, anunciando o inevitável. Ao ver o pai e o irmão dela, com quem sempre tive uma relação próxima, carregando suas coisas, após se despedirem a ficha finalmente caiu. Aqueles poucos minutos foram suficientes para desmoronar o meu mundo. Sozinho, na casa vazia, entreguei-me a uma dor profunda e desesperançosa.
A presença de minha mãe, que foi passar uns dias comigo, mais uma vez, embora reconfortante, não conseguia preencher o vazio que havia em meu interior. A angústia e a desesperança me levaram a um ponto de não retorno. A bebida, antes um escape momentâneo, tornou-se novamente uma prisão. A ideia da morte, antes distante, passou a ser vista mais uma vez como uma solução para todos os meus problemas. A depressão mais uma vez me consumia, e eu me sentia completamente perdido.
A chegada de meu pai foi um alívio inesperado. Ao ver o meu estado, ele compreendeu a magnitude do meu sofrimento. O convite para morar com ele, em um novo lugar, era um refúgio daquela realidade opressiva. Aquele lar, antes repleto de sonhos e alegrias, havia se transformado em um monstro que me devorava por dentro. A ideia de deixar para trás tantas lembranças dolorosas era libertadora.
Capítulo 35: A Caverna
Acaverna era a forma carinhosa que eu e meu pai, quando bebíamos, chamávamos a casa dele. Aquele convite, aparentemente inofensivo, desencadeou uma série de acontecimentos que mudariam minha vida para sempre. As más companhias e o fácil acesso às drogas me levaram a um novo fundo do poço. A cocaína, um fantasma do passado, retornou com força, ceifando meus sonhos e esperanças. Mas foi nesse momento de escuridão que decidi que precisava mudar. Aquele bairro, com suas lembranças dolorosas, seria apenas um capítulo fechado em minha história.
A indiferença tomou conta de mim. Os perigos que antes me assustavam, agora pareciam irrelevantes. Era como se eu estivesse jogando uma roleta russa com a minha própria vida, sem me importar com o resultado. A esperança havia se desvanecido, e a cada dia que passava, eu me afundava mais em um poço de desespero.
Em meio àquela realidade, fiz amizades perigosas, incompatíveis com a minha profissão. A ironia era cruel: enquanto deveria proteger a sociedade, eu me envolvia com pessoas que a sociedade abominava. A vida havia se transformado em uma perigosa aposta, e eu jogava todas as minhas fichas, consciente das consequências.
Aquele ambiente me arrastou para um mundo de escuridão, onde as más escolhas se tornaram rotina. A cada dia, eu me afastava mais de mim mesmo e de tudo que um dia valorizei. A vida havia se tornado uma espiral descendente, e eu me entregava a ela de corpo e alma, sem esperança de um futuro diferente.
A culpa me consumia por dentro. Como policial, deveria ser um exemplo, mas eu me tornei meio que parte do problema. As amizades que cultivei eram um fardo que carregava nas costas. A cada passo que dava naquela direção, mais fundo eu caía. A roleta russa estava carregada e eu apertava o gatilho a cada decisão imprudente.
Sob o efeito de álcool e talvez de cocaína, não me recordo, com uma arma caseira calibre 12 nas mãos, dei um tiro para o alto, em um ato impulsivo e imprudente. Minutos depois, duas viaturas cercaram-me. Encapuzados, os policiais me abordaram com agressividade, mesmo após eu me identificar. A adrenalina pulsava em minhas veias enquanto eles me revistaram, a cada toque sentindo a iminência do perigo. Nesse momento eu já havia guardado a arma e eles aparentemente queriam me prejudicar.
A rejeição dos colegas me atingiu como uma facada nas costas. Aqueles que um dia compartilharam comigo os perigos da profissão, agora me olhavam com desprezo. A solidão se instalou em meu coração, e a sensação de traição era insuportável. A abordagem policial foi a cereja do bolo. Encapuzados, como se eu fosse um criminoso qualquer, eles me revistaram de forma brutal, enquanto meu ex-companheiro de pelotão assistia a tudo com um sorriso cruel. A única nota de humanidade naquele momento foi a policial feminina, que me olhou com pena, como se estivesse diante de um naufrágio.
A espiral descendente me levava cada vez mais fundo. As escolhas erradas haviam me transformado em um pária, rejeitado até mesmo por aqueles que um dia me consideraram um amigo. A abordagem policial foi apenas mais um capítulo nessa história de autodestruição. A arma sendo disparada para cima, um símbolo da minha própria ruína, serviu apenas para confirmar o que todos já sabiam: eu havia perdido o controle.
A busca por perigos e a vontade de autodestruição me tornaram vulnerável. Indiferente a tudo, eu me entregava a qualquer proposta, bastava uma bebida para que eu me jogasse de cabeça em qualquer aventura. As más companhias, percebendo minha fragilidade, se aproveitaram da situação, manipulando-me para satisfazer seus próprios desejos.
Capítulo 36: Os Novilhos
Um convite inesperado surgiu do nada: uma cerveja grátis. A gentileza, no entanto, logo se revelou uma armadilha. A cada rodada, um novo pedido surgia, cada vez mais ousado. Desta vez, a missão era clara: pegar três novilhos em outro bairro. O mais estranho? Para tal feito, me entregaram um Fiat Uno antigo 4 portas, com os bancos traseiros removidos, como se estivessem preparando o palco com a certeza que eu aceitaria o convite.
Achei estranho na hora, mas eu pouco me importava e não estava nem aí para nada, pelo contrário, estava em rota de destruição. Só consegui comportar dois mais novos, que vieram apeados e deitados atrás. Até hoje me pergunto como coube porque eram grandes. Depois, retornei para pegar o maior e mais arisco, que no caminho de volta se soltou e deu um coice. Acredito eu que foi coice, pois estava nas minhas costas e o banco me protegeu sei que foi uma pancada forte, porque o banco foi para frente quando dei uma acelerada e cheguei quase a bater no carro da frente, que pasmem, era uma viatura. Eu, naquela fase, ria como se fosse engraçado. No resto do caminho, esse garrote veio fungando e me atrapalhando a dirigir. A minha sorte foi que ele não se soltou totalmente, ainda ficou um pouco preso, por isso consegui chegar.
Capítulo 37: Um Problema
Lembro-me de outra figura que se cruzou com a minha naquela época sombria: Esse cidadão. Um cara peculiar, sempre à margem. A gente se conectava de um jeito estranho, afinal, dois perdidos se encontrando na noite para curtição. Vi ele, um tempo atrás na TV, algemado, e por um instante, o tempo parou. Aquele cara que um dia dividiu comigo os piores momentos, agora era apenas mais um rosto na televisão, um prisioneiro da própria vida. A ironia da situação me causava um arrepio, mas ao mesmo tempo, sentia uma estranha paz. Deus, de fato, é fiel. E me livrou daquela fase.
Aquele sujeito era como um imã para o perigo. Descobri que um amigo dele havia se envolvido em uma história macabra com ele. Uma noite, esse amigo nunca mais voltou para casa. Encontrado sem vida, com marcas de violência pelo corpo. Ele, por sua vez, sobreviveu, mas carregava as cicatrizes daquela noite. Até hoje, a verdade sobre aquela noite permanece envolta em mistério.
Naquela época, éramos inseparáveis. A bebida era nossa companheira constante, e eu, em minha indiferença, me tornava um alvo fácil para suas aventuras. Uma noite, em meio a uma garoa fina, estávamos em sua moto quando o inesperado aconteceu. Uma “chuva de balas” nos surpreendeu, e senti um impacto forte em minha perna e naquele momento percebi que fui alvejado com um tiro. A amizade que um dia nos uniu foi selada por aquele momento de terror.
A perna, instantaneamente, ficou dormente, como se tivesse sido desligada de uma tomada. Enquanto corríamos de moto desesperadamente em direção às nossas casas, sentia a vida escorrendo por mim. Chegando em casa, insisti em não ir ao hospital. A embriaguez me cegava, e a dor, embora quase insuportável, era apenas mais um incômodo da vida. Pedi a um colega que examinasse a ferida. Ao confirmar que o projétil havia atravessado a perna, soltei um suspiro de alívio, porque se não tivesse atravessado eu não iria do mesmo jeito. Um curativo improvisado e um pano apertado foram suficientes para mim. A cocaína, então, se tornou minha anestesia, me permitindo ignorar a dor lancinante. Coloquei um plástico naquele colchão, manchado de sangue, que testemunhou uma noite de loucura e autodestruição.
Aquele momento, em que as balas rasgaram o ar e atravessaram minha perna, me fez questionar tudo. Por que eu? Por que não ele? Talvez fosse um castigo por minhas escolhas, por ter me envolvido com pessoas tão tóxicas. A sensação de que eu havia atraído aquela desgraça me consumia por dentro. Só as misericórdias de Deus me seguravam naqueles dias.
Aquele bairro era um barril de pólvora. Eu sabia que estava me metendo em águas profundas, mas a adrenalina me cegava. Aquele lugar me ensinou uma lição dolorosa sobre as consequências das minhas escolhas. Alguns policiais tombaram ali.
Aquele lugar era um abismo que engolia vidas. Vimos amigos se perderem em um turbilhão de drogas e violência. Um deles, apaixonado por uma mulher mais velha, encontrou a morte em um ato desesperado. Outro, que me traiu, roubando meu dinheiro, acabou se viciando em crack e encontrando um fim trágico em um quartinho abandonado, roído por ratos. A ironia da vida é cruel: sonhos desfeitos, amizades traídas e uma morte solitária.
Devido à vida que eu estava levando ali, meu pai conversou comigo e pediu para eu ir embora disse que ele também iria embora e alugaria a casa dele para outra pessoa. Então fui embora e aluguei uma casa para mim. Foi aí que as coisas começaram a melhorar. O afastamento daquelas amizades me fizeram bem, embora eu ainda frequentasse aquele lugar de vez em quando.
Nessa época, comecei a frequentar casas de shows, prostíbulos e desenvolvi um vício mais moderado em cocaína. Minha vida tomou um rumo completamente diferente.
Saindo de um prostíbulo, por pura coincidência, me deparei com um show gratuito de um cantor famoso. Para minha surpresa, fui abordado por uma ex-namorada de um amigo, que me puxou pelo braço.
A Pior Noite
A bebida me soltou e me joguei na dança, mesmo não sabendo muito bem os passos. Ela, por sua vez, insistiu em dizer que estava solteira. Aquela noite, entre a euforia da música e a desinibição do álcool, a tentação era grande demais.
Apesar de nunca ter sentido nada por ela, fiquei surpreso ao ouvir sua confissão. Ela admitiu que sempre teve interesse em mim, mesmo enquanto namorava meu amigo, e que esperava eu dar o primeiro passo. Naquela noite, entre a bebida e a revelação eu acabei indo para a casa dela, uma decisão que marcaria negativamente minha vida para sempre.
O que deveria ser uma aventura de uma noite se transformou em um capítulo inesperado da minha vida de três meses. A solidão e a depressão me cegaram, e acabei me envolvendo com alguém por quem não sentia nada. Mas naquele momento, a companhia dela era um refúgio. Após esses três meses na casa dela, a realidade me atingiu e precisei fazer uma escolha difícil: seguir em frente ou me afogar naquela relação. Então fui embora, voltei pra casa que havia alugado.
A solidão era uma sombra que me perseguia, e a cada gole de bebida, ela se intensificava. Nessas horas, ela estava lá, como um anjo da guarda. Aos poucos, ela se tornou parte do meu círculo social, conquistando a amizade dos meus amigos. Seus cuidados eram exagerados, quase sufocantes, mas eu me agarrava como um náufrago a um pedaço de madeira. A gratidão me cegava, e eu me vi envolvido em um relacionamento que não me fazia bem, apenas me mantinha boiando.
Capítulo 38: A Gravidez
Omundo desabou sobre mim quando ela me contou sobre a gravidez. A notícia me pegou de surpresa, e a realidade da paternidade me aterrorizou. Eu não estava preparado para esse tipo de responsabilidade. Lembrei-me, então, de uma conversa dela com uma conhecida, que mencionava uma técnica para aumentar as chances de engravidar, que era estender as pernas para o alto, após se deitar com alguém. A imagem dela, deitada com as pernas um pouco para cima, invadiu meus pensamentos, pois era exatamente isso que ela fazia após deitarmos juntos, se é que me entende. Aquele gesto, antes banal, agora carregava um peso imenso.
A culpa me corroeu por dentro. Ao lembrar daquela conversa sobre como aumentar as chances de engravidar, senti um peso enorme nos ombros. Eu havia sido negligente, e agora estava colhendo os frutos da minha irresponsabilidade. A ideia de ser pai me apavorava, e a imagem dela, deitada com as pernas para cima, se tornou uma lembrança dolorosa.
Ela me contou a novidade com uma risada que me gelou por dentro. No início, achei que estava exagerando, mas logo percebi que a alegria dela era irônica. Em poucos dias, ela se transformou completamente. A mulher atenciosa e carinhosa deu lugar a uma pessoa arrogante e agressiva. As discussões se tornaram frequentes, e ela não se intimidava em me humilhar, chegando a me chamar de idiota. Cansado de tanto sofrimento, decidi que precisava ir embora.
Nesse meio tempo, meu pai, achando que já estava mais seguro de mim, voltou para antiga casa dele naquele bairro perigoso. A vida nos pregou uma peça: ele perdeu o emprego. Sem alternativa, aproveitei essa virada na relação com a tal grávida e voltei para casa de meu pai para ajudá-lo financeiramente. A volta para aquele lugar, que um dia julgamos inseguro, agora era o único porto seguro que tínhamos.
Foi aí que mais uma vez voltei quase a vida de antes só que com moderação. Então um dia eu descobri algo, e tenho certeza de tudo que me aconteceu se não fosse a proteção de Deus eu nem estaria aqui, porque satanás não pode tocar em um ungido de Deus sem a permissão DELE.
A proteção divina não é um escudo físico, mas sim uma garantia de que Deus está conosco e que, mesmo em meio às provações, seu propósito será cumprido.
Capítulo 39: O Plano
Um novo rosto surgiu em minha vida, um tipo peculiar que me conquistou com sua simpatia. Compartilhamos momentos e risadas, enquanto ele se tornava uma presença constante em minha casa. Confiava nele, apesar de ser parente de um criminoso conhecido que nitidamente não gostava de mim, afinal, quem poderia imaginar que a pessoa que eu acolhia com um sorriso e um copo de bebida seria capaz de... Mas a vida, como um jogo de xadrez, reserva sempre novas peças. Durante um encontro casual na casa de um amigo comum, deparei-me com uma revelação que me deixou perplexo. Alguém que eu conheci lá mesmo me cumprimentou como se fôssemos velhos amigos, e durante nossa conversa, uma verdade chocante começou a se revelar.
A conversa tomou um rumo inesperado quando ele revelou o plano. Uma sensação de pavor me congelou. Aquela pessoa que eu considerava um mais novo amigo, que dividia meu teto e minha confiança, estava envolvido em uma trama para me fazer mal. A ironia era cruel: enquanto eu o acolhia em minha casa, ele arquitetava minha queda. Era como se o diabo estivesse disfarçado de anjo, sorrindo para minha cara enquanto planejava minha ruína.
A pior parte foi a reação do meu 'amigo' vizinho do meu pai o qual eu também tinha uma certa intimidade. Ele, que estava presente, conhecia o plano e não apenas se omitiu, como pediu para o outro se calar. Aquele pedido, pronunciado com tanta naturalidade, me fez sentir sozinho e traído. Aquele momento foi a confirmação de que eu não passava de um peão em um jogo sujo, e que todos ao meu redor sabiam das intenções do meu algoz.
Retornei para casa, carregando comigo uma carga de angústia e incerteza. Tentei seguir em frente, fingindo que nada havia acontecido, que não sabia de plano nenhum contra mim. As substâncias entorpecentes, antes minhas aliadas, era o que eu achava, agora se tornaram minhas inimigas, nublando meus pensamentos. Mas o destino, em sua justiça divina, reservava-me uma surpresa que mudaria tudo. O inesperado aconteceu.
Estava em casa quando me chegou a notícia de que haviam acabado de matar o cara que estava planejando o mal contra mim. Na hora, fiquei perplexo com a morte dele e tive pena dos familiares, mas anos depois, Deus falou comigo que ele morreu porque ia tentar contra a minha vida. E o mais impressionante é que Deus me lembrou que esse não foi o primeiro, era o segundo. E então lembrei de uma situação do qual um cidadão, que fingia gostar de mim, me ameaçou, pelas costas, por eu ter prendido o cara que trocou tiros comigo na madrugada e as armas foram apreendidas. Ambos foram mortos pelos próprios amigos em discussões semelhantes, em tempos diferentes, eu notei que eles fingiram ser meus amigos e admiradores e planejaram minha morte, mas eles morreram através dos próprios amigos deles. Deus, maravilhoso e tremendo, estou arrepiado neste momento. Oh, glória! Deus protege e faz o que é preciso pelos Seus. Mesmo que você não saiba, alguém já pode ter morrido por pensar ou tentar algo contra você. Pode parecer chocante para alguns e até para mim. Mas Deus mata assim como dá a vida!
Reconheço que não sou digno de tamanha bondade, mas agradeço imensamente a Deus por Sua infinita misericórdia. Embora haja aqueles que se desviam do caminho da luz, a proteção divina se manifesta de maneiras misteriosas. Sou grato por ter sentido essa proteção em minha vida e por ter sido preservado de maiores males. Agradeço a Deus por Seu amor incondicional e por Seus planos perfeitos para cada um de nós.
Capítulo 40: A 2° Gravidez
Aminha relação com aquela mulher se tornou um vai e vem constante, como gato e rato. Ela engravidou novamente. Apesar do absurdo da situação, eu ainda me mantinha indiferente.
Foi durante dois anos de idas e vindas instáveis que ela, infelizmente, engravidou novamente. Essa é a diferença de idade entre meus filhos, então a segunda gravidez foi o estopim para que eu tomasse uma decisão definitiva e pusesse um fim nessa relação decadente.
Com o nascimento do segundo filho, achei que tinha amadurecido e desejei uma vida mais tranquila. Afastei-me das aventuras perigosas do passado, e buscava estabilidade. No entanto, a busca por essa nova vida me levou por caminhos incertos outra vez. Do nada peguei um empréstimo para comprar um carro e viver intensamente, acreditando que o dinheiro me traria felicidade. Mas a realidade me mostrou que a verdadeira felicidade está em outras coisas.
Foi nessa época que tive uma revelação profunda. Se Deus me permitiu passar por aquela situação, com um carro e dinheiro sobrando, até que ele acabasse, foi para me mostrar que a felicidade não se encontra nos bens materiais. A experiência me ensinou que o verdadeiro valor está em outras coisas.
A 'riqueza momentânea' não preencheu o vazio que eu sentia. Por mais que tentasse comprar a companhia dos outros, não conseguia nem os de falsidade. Por mais que eu convidasse amigos para sair, sempre havia uma desculpa: trabalho, família... A ironia é que, com todo o dinheiro que possuía naquele momento, me senti mais sozinho do que nunca. A solidão se intensificou, mesmo tendo um carro e dinheiro no banco.
Por várias vezes, andava de madrugada bebendo e vagando pelas ruas da cidade, sem rumo e infeliz. Foi quando a mãe dos meus filhos me convidou para criarmos nossos filhos juntos. Apesar de tudo o que ela fez comigo e de não gostar dela, resolvi abrir mão de tudo e tentar viver por aqueles filhos.
Capítulo 41: A Prisão
As promessas que fiz a mim mesmo pareciam ecoar nas ruas do meu antigo bairro. Jurei que nunca mais voltaria, que não me envolveria com aquela mulher de novo. Mas eu idiota como ela mesmo disse caí de volta aos braços daquela mulher, e ao lugar onde tantas memórias se cruzavam. A vergonha me consumia. A figura problemática dela, contraposta às outras mulheres que já tive envolvimento, era um fardo pesado demais. Quebrar a promessa, admitir a fraqueza... era humilhante. Mas os filhos, a vida que construímos... me fizeram repensar tudo. A morte, antes uma ideia tentadora, agora parecia um covarde escape. Aquele homem que eu era, com seus orgulhos e arrependimentos, estava morrendo, dando lugar a outro, mais forte, mais humano.
Entreguei a casa alugada e fui morar com ela. Mas há certas pessoas que não valorizam a vida em família e ela era uma delas . Ela nunca teve sucesso em nenhum relacionamento e, comigo, não seria diferente. Aconteceu tudo da pior forma possível. durante essa primeira semana saímos juntos, ela, eu e as crianças, indo de carro a restaurantes, igrejas, etc. No entanto, não conseguimos passar um dia sequer em paz. E foi num dia que acabou meu dinheiro e estava com vontade de beber, que ela pegou do próprio dinheiro e comprou um litro de vodka para mim.
Segundo ela e meu irmão, eu era mais divertido quando bebia. Ela preferia me ver embriagado, eufórico. E assim foi. Bebi a vodka até me sentir eufórico, e por algum motivo, ela sentiu ciúmes. Não me lembro exatamente o motivo. Ela, irritada, reagiu da mesma forma que sempre fazia: atirando objetos em minha direção. Já havia sido assim em outras discussões, e desta vez não foi diferente. Entretanto, anestesiado pelo álcool, não me importei com suas ações.
A minha rizada só fez com que ela ficasse ainda mais furiosa. A raiva a consumia a ponto de babar e espumar. Foi nesse momento que a faca que usava para cortar a fruta se tornou uma arma. Ela avançou em minha direção, arranhando não muito forte meu braço. Percebendo a gravidade da situação, empurrei-a com força. Desequilibrada, ela caiu para trás, batendo em alguns móveis e se machucando levemente. Nada grave, no entanto.
Ela saiu furiosa e, logo em seguida, uma viatura policial chegou. Os vizinhos haviam se queixado do barulho e dos gritos. Um dos policiais me aconselhou a ir embora, mas, bêbado e convencido de que eu seria a vítima, ignorei o aviso. Enganei-me. A Lei Maria da Penha, dizem, proteger as mulheres e os homens, mas na prática, vi com meus próprios olhos que não é bem assim. Fui preso imediatamente, sem que me ouvissem. Deveria ter seguido o conselho do policial e ido embora.
Pedi para eles aguardarem enquanto eu tomava banho e trocava de roupa. Fomos, eu, ela e meu tio, amigavelmente dentro da viatura. Eu imaginava que ela seria punida por ter iniciado tudo e que meu tio me apoiaria. Mas, ao chegarmos na delegacia, a situação tomou um rumo inesperado…
Que azar o meu! O delegado que nos atendeu era conhecido daquela mulher problemática. A mãe dela trabalhava na casa dele como empregada doméstica. Ao ver ela na delegacia, o delegado se surpreendeu e perguntou o que ela fazia ali. Foi incrível a transformação: ela, que estava normal até então, repentinamente ficou torta e começou a mancar, como se tivesse sofrido algum ferimento grave. Hoje, aquela cena me causa uma mistura de raiva e graça, mas na época, me senti indignado.
Lembro-me bem que me algemaram na hora e me bateram enquanto estava algemado. Os militares que me levaram eram covardes e não reagiram quando me agrediram. Pareciam amedrontados e inexperientes. É inacreditável que algumas pessoas estejam no serviço militar, mas não tenham a autoridade necessária para lidar com situações como essa. Logo no início, levei um soco no estômago do delegado amigo dela, que me deixou sem ar e me fez cair no chão. Ao tentar me levantar, ainda algemado, levei outro soco, dessa vez de um agente de polícia civil.
Foi no segundo soco que caí novamente no chão, tentando recuperar o fôlego. Ao olhar para cima, vi que havia caído próximo à porta da sala do escrivão, onde meu tio e ela estavam. Consegui ouvir parte da conversa deles e vi meu tio me olhando com uma expressão que parecia indicar aprovação pelo que estava acontecendo. Aquele olhar, junto com as acusações que ele fez contra mim, antes de fecharem rapidamente a porta, me persegue até hoje. Apesar de ter perdoado ele, meu parente, não consigo esquecer aquela cena.
Depois daquele episódio, senti uma revolta enorme pela encenação dela e pela traição do meu tio, que eu pensava que viria me ajudar. Afinal, tanto ele quanto sua esposa me disseram que não queriam se envolver, que era apenas uma briga de casal. Não consigo entender por que ele me acusou tão veementemente na delegacia. Já esperava alguma traição da parte dela, mas nunca desconfiei da falsidade do meu tio. Foi como levar o terceiro soco no estômago.
Indignado por estar completamente sozinho, me levantei. O delegado, aproveitando a situação, proferiu algumas ameaças veladas, insinuando que me faria algo quando eu saísse da prisão. Foi nesse momento que perdi a cabeça e, em um ato de desespero, afirmei: 'Tudo bem, eu espero por você, porque eu também sou policial'. A expressão do delegado mudou drasticamente. Ele se voltou para o agente ao seu lado e perguntou se eu era militar. Confirmado isso, mudou completamente de tom, deixou o local e mandou chamar meu superior.
Quando meu superior chegou, minha reputação já estava manchada. Ele nem sequer quis saber se eu apanhei se eu tava certo ou errado, nem me ouviu e me conduziu diretamente para o presídio militar. A falta de cuidado foi evidente: fui levado a um médico que me examinou superficialmente, ignorando os arranhões de faca no meu braço e me liberando como se nada tivesse acontecido. Ao chegar no presídio, a humilhação continuou. Fui obrigado a ficar pelado diante dos guardas, em plena área externa, sem a privacidade de uma cela. Um dos guardas perguntou se deveriam me colocar na cela 12, e o outro meio hesitante concordou. Intrigado com a hesitação em relação à cela 12, descobri mais tarde que um sargento havia sido preso ali por violência doméstica da qual ele também afirmava ser inocente e se não me engano era um golpe da esposa, não me recordo bem da história dele sei que havia se suicidado recentemente naquela cela. Ao entrar na cela, encontrei luvas cirúrgicas na cama, indicando que havia tido alguma ocorrência médica no local, mas nem desconfiava disso.
Sob o efeito do álcool, deitei na cama da cela, encolhido em posição fetal, suando frio nas costas úmidas. À medida que o efeito da bebida diminuía, a realidade me atingia com força. A indignação e o desespero tomavam conta de mim, especialmente quando pensava no meu tio. Ele não saía da minha cabeça. Num primeiro momento, a vingança era tudo que eu conseguia pensar: queria me vingar de todos que me prejudicaram.
Meu pensamento inicial era cumprir a cadeia, sair e me vingar de todos. Teria tempo suficiente para pensar em uma estratégia. Mas, cada vez que lembrava do ocorrido, ficava desesperado com a minha própria ingenuidade.
Logo após, o diabo veio até mim e disse: "Mas não era isso que você queria?" Perguntei, surpreso: "Como assim?" O diabo respondeu: "Você não queria morrer?" Em seguida, ele sugeriu: "Pegue seu casaco, que é forte o suficiente para aguentar seu peso, e se enforque ali naquela abertura."
Fica aqui uma reflexão: quando a viatura veio me buscar, um deles me orientou que pegasse meu carro e fosse embora. No entanto, achando que estava mais certo do que ela, decidi acompanhá-los, pois era eu quem a denunciaria. Antes de partir, fui tomar um banho e vesti um casaco forte, sem saber que o diabo já havia tramado minha morte por suicídio por enforcamento - no mesmo local e cela onde o sargento, antes de mim, havia encontrado o mesmo destino e com seu próprio casaco também.
O incrível é que só soube da morte deste coitado um mês após entrar no presídio. Por isso, não subestimem o diabo, ele é muito astuto e já havia planejado tudo bem antes de eu beber ou até mesmo antes de decidir morar com aquela mulher problemática.
1 Pedro 5:8. O versículo diz:
"Estejam alertas e vigiem. O Diabo, o inimigo de vocês, anda ao redor como leão, rugindo e procurando a quem possa devorar."
O diabo é um adversário astuto que se adapta às diferentes épocas e culturas, utilizando as fraquezas e as tentações mais adequadas para cada indivíduo. Suas tentações nem sempre são óbvias. Muitas vezes, ele age de forma sutil, plantando dúvidas e incertezas na mente das pessoas.
A luta espiritual é real e exige de nós vigilância constante. Ao orarmos e vigiarmos, podemos resistir às tentações do diabo e viver uma vida plena em Cristo.
Minha mente era dominada por obscuras fantasias de vingança, alimentadas pelas palavras do meu inimigo, o diabo. Eu resolvi tirar minha vida como ele havia sugerido, pois mudei o desejo, para morrer e acabar logo com todo sofrimento, ao invés de sofrer mais, esperado para a vingança. Naquele momento era só esperar ficar mais tarde para acabar o movimento nos corredores. A ira crescia dentro de mim como um incêndio, e eu me sentia à beira de um abismo.
Capítulo 42: O Testamento
Foi então que o sargento responsável pela guarda apareceu, carregando a leveza da compaixão em seus olhos. Ao ver a marmita jogada no chão, onde eu a havia deixado por impulso, ele me olhou com uma expressão que me tocou profundamente. Parecia um homem de fé, e suas palavras, embora simples, ecoaram em meu coração, oferecendo um raio de esperança em meio àquela escuridão.
Outro detento, que também trabalhava na mesma companhia que eu, me reconheceu ao me ver chegando. Ele me deixou à vontade na cela e depois veio conversar comigo, dizendo que se lembrava de mim. Eu o reconheci vagamente. Ele me ofereceu um Novo Testamento, que aceitei por educação. Depois de nos despedirmos, voltei para a cama e me encolhi em posição fetal, esperando que o tempo passasse rápido para que eu pudesse colocar meu plano em ação.
O presídio militar é bem diferente dos outros. Advogados e até pessoas importantes do estado pedem para irem pra lá por causa do relativo conforto comparado ao presídio comum, já que não existem celas especiais nos presídios comuns, pelo menos não que eu saiba ou que naquele momento eu soubesse. Mas não se engane, mesmo assim é um inferno. Ninguém merece passar por aquilo. No entanto, apesar dessas condições, menos pior que o presídio comum, a prisão continua sendo um lugar de sofrimento, e eu não desejo essa experiência a ninguém.
Deus é milimetricamente perfeito, quando o diabo pensou que havia ganhado, algo aconteceu. Por mais que o mal tente prevalecer, o plano divino sempre se sobrepõe. Deus, em sua perfeição, controla todos os eventos, mesmo aqueles que parecem ser vitórias para o mal.
Lembrei de José que também foi julgado injustamente, ele, porém, muito mais justo que eu. Eu não me sentia digno, mas descobri que a graça é para todos tanto pra José do Egito quanto pra mim. Ninguém merece a graça, mas Deus deu a todos, basta querer.
O diabo pensou que obteve uma vitória, mas mesmo se ele soubesse que ia perder, ele faz questão de nos maltratar pra nos ver sofrer e Deus permite tal coisa pra gente tomar vergonha e aprender. A perfeição divina garante que qualquer ganho aparente do mal seja, na verdade, parte de um plano maior, que pode resultar em um bem maior.
Ao me deitar na cama, encolhido, esperando o que viria, uma ideia me ocorreu: por que não testar a existência de Deus de novo? Pensei em não morrer naquela noite como uma espécie de prova. Isso eu atribuo a atitude humana do sargento que fazia parte da guarda do presídio, com sua gentileza, e do presente do meu colega, o Novo Testamento, me fizeram repensar tudo. Assim meio que do nada em um momento queria me matar e de repente essa ideia forte mudou meu rumo. A crença em Deus havia se apagado em mim, mas uma raiz espiritual, silenciosa e persistente, ainda me conectava a algo maior. Mesmo sem crer, uma centelha de fé ainda ardia em mim.
A simples condição de estar segurando aquela pequena Bíblia me energizou. Eu, que havia esquecido de Deus e havia perdido a fé, senti um renovado interesse. Decidi fazer uma prova: não me mataria antes de ler toda aquela Bíblia e ver se Deus iria me livrar daquela situação de forma milagrosa. Me animei um pouco e, no dia seguinte, comecei a ler aos poucos, tentando sobreviver e esperando por uma visita de alguém.
Mas ninguém veio me visitar e eu só tinha aquela vaga esperança em Deus. Na verdade, eu queria provar que era uma perda de tempo para, então, me matar ou me vingar dos meus inimigos que me puseram ali; a essa altura, já os considerava meus inimigos. Aos poucos, fui me acostumando com a solidão. Os primeiros dias são quase insuportáveis, mas com o tempo, vamos nos adaptando. Eu me agarrei à esperança de que Deus existisse e fizesse um milagre, ou então, eu mesmo armaria uma cilada maldosa para mim ou para quem me botou lá naquela situação.
O diabo deve ter tido um infarto naquela noite. A certeza da morte se evaporou, substituída por uma confusão de sentimentos. Enquanto parentes se revelavam inimigos, estranhos me estenderam a mão, plantando em meu coração uma semente de dúvida sobre meus planos. A vida, de repente, parecia muito mais complexa do que eu imaginava.
Ao saber que poderia fazer uma ligação, pedi para discarem para o número da minha mãe, o único que eu lembrava de cabeça. Falando com ela, creio que já no terceiro dia, pedi para meu pai pegar meu carro, se ocupar do meu caso e ir me visitar. Quando ele apareceu no final de semana, disse que resolveria tudo para mim e que não me preocupasse. Naquele momento, ele foi um anjo na minha vida. Outro grande engano.
Passaram-se uma semana, e já estava fechando a segunda. Ninguém veio me visitar e nada de soltura. Meus novos colegas da prisão disseram que, como réu primário, eu deveria ter sido liberado já no primeiro dia útil, através da audiência de custódia. No entanto, nem sequer fui levado à audiência e nenhum advogado apareceu para falar comigo, como meu pai havia prometido.
No desespero, um colega de lá disse que, se eu desse meu carro, o advogado dele me tiraria de lá no outro dia, pois meu caso não era complicado. Fiquei ansioso e implorei para que ligassem para meu pai, para informá-lo sobre a situação.
Ele, sabendo que eu queria dar o carro em troca da liberdade, considerou ruim e disse que, se eu desse o carro, não faria mais nada. Retiraria o advogado que já havia contratado e me deixaria sozinho. Se não desse certo, ele me abandonaria.
Diante disso, resolvi aceitar e confiar. Sempre achei que a soltura seria no outro dia, mas nada. Toda vez que ele vinha me visitar, dizia que o caso era complicado e o advogado lutava para me tirar. Ele sempre me enrolava. Uma coisa que poderia ter saído em dois dias, no máximo, se tivesse alguém de verdade por mim, demorou três longos meses.
O segredo foi esquecer o mundo lá fora e viver apenas aquele momento. Era uma questão mental. Nesse período, me tornei mais espiritual, acompanhando os cultos toda quarta-feira à tarde. Alguns bons cristãos vinham para saciar nossas almas. Foi ali que entendi a importância de evangelizar no presídio.
Quando via aqueles irmãos, era como ter um pedaço do mundo lá fora. Na sala dos cultos, podia ver árvores e um trecho da rua. Em todos os cultos, sonhava em estar lá fora. Ah, como a liberdade é algo banal para quem não está preso! Enquanto muitos sonham em apenas andar na rua e sentir a liberdade, é indescritível.
A experiência na prisão me mostrou a importância da fé e da espiritualidade, especialmente para aqueles que estão privados de liberdade. Os cultos eram um momento de renovação e esperança. Ao ver a transformação que a palavra de Deus causava nos meus companheiros de prisão, compreendi a importância de levar a mensagem de Cristo para dentro dos presídios. A cada culto, sonhava em compartilhar essa experiência com aqueles que ainda não haviam encontrado conforto e esperança.
A prisão, embora dolorosa, foi um divisor de águas em minha vida. Foi ali, em meio à solidão e ao arrependimento, que me reconectei profundamente com Deus. A fé que antes era tênue, floresceu e se tornou a minha maior força. Reconheço que foi o amor divino que me conduziu por esse caminho tortuoso, afastando-me de uma situação que certamente me levaria à perdição. A experiência foi difícil, mas necessária para minha transformação espiritual.
A prisão, apesar de tudo, reservou-me momentos de crescimento e aprendizado. Conheci um homem, meu xará, que me serviu de inspiração. Com cinco anos de reclusão, ele mantinha a mente sã e o espírito forte. Sua resiliência e determinação em buscar conhecimento, mesmo diante das adversidades, me impressionaram profundamente. Ele me mostrou que é possível transformar a adversidade em oportunidade e que a força de vontade pode superar qualquer obstáculo.
Capítulo 43: O Peru
Aquele Natal, dentro da prisão, foi um dos mais especiais da minha vida. Foi lá que comi peru pela primeira vez, graças ao meu colega abençoado que me deu a Bíblia. Graças à generosidade daquele colega de presídio, pude experimentar a alegria de uma ceia natalina, algo que parecia tão distante. A companhia dele, a troca de ideias e a prática de atividades como a academia interna e o xadrez transformaram aquele ambiente adverso em um espaço de esperança e fraternidade. Agradeço a Deus por ter colocado essa pessoa em meu caminho, que me ajudou a manter a sanidade mental e a me fortalecer fisicamente.
Sou eternamente grato a Deus por ter colocado em meu caminho um amigo tão especial. Através dele, encontrei não apenas um companheiro, mas também um irmão. A leitura, os estudos e as conversas que tivemos transformaram profundamente minha perspectiva de vida. A experiência na prisão, que inicialmente me causou tanto sofrimento, tornou-se uma oportunidade de crescimento espiritual e pessoal. A cada dia, compreendo mais o propósito divino por trás de tudo que vivi.
Certo dia, fui chamado para a sala de visitas. Era o advogado tão esperado, após quase três meses. Ele veio informar o dia da audiência e explicar como prosseguir. Mal podia acreditar. A ansiedade voltou e os poucos dias restantes pareciam intermináveis.
No dia da audiência, meu irmão de presídio, meu anjo da guarda, emprestou-me uma camisa para ir mais decente. Ao chegar, encontrei meu pai, o advogado, um primo e aquela mulher que tanto me prejudicou, mas acabou sem querer me ajudando a reencontrar Deus.
Ela não quis me prejudicar mais do que já havia feito. Ao sair da sala de audiência, agora livre, ela me olhou, me encarou e sorriu, como se achasse que eu havia superado tudo o que ocorreu.
Foi naquele dia um dos mais felizes. O juiz, compreensivo e educado, me concedeu o alvará de soltura. Ele remarcou a audiência para uma decisão final, na qual só estiveram presentes meu tio e eu. Ela não compareceu.
Segundo meu tio, ele salvou minha situação ao explicar ao juiz que foi apenas uma briga conjugal. No entanto, na delegacia, ele havia feito declarações diferentes, agravando minha situação. Mesmo assim, sou grato por ele não ter piorado minha situação novamente.
Até hoje, tenho restrições contra ela de distância e redes sociais desde a primeira audiência. Acredite e dou graças a Deus por isso. Hoje no momento que escrevo estes relatos, não suporto mais pessoas tóxicas.
Assim que recuperei meu celular e minhas redes sociais, a primeira coisa que vi foi uma mensagem dela para mim. Bloqueei-a imediatamente e pedi à minha mãe que a advertisse: se ela tentasse entrar em contato comigo novamente, informaria ao juiz.
Ela ficou furiosa e me odeia até hoje por não querer mais nada com aquele problema ambulante, ela vive tentando colocar os meus filhos contra mim, mas essa é outra história. Vou voltar à ordem atual dos fatos.
Ao voltar do fórum e chegar ao presídio, senti um misto de emoções: alegria por mim, mas tristeza pelos que ficaram, como meu companheiro que me apoiou naquele inferno. Agora, a luta era contra alguns funcionários da administração do presídio que faziam pouco caso da gente. Às vezes dava pra ver e perceber o nojo que uma policial feminina , que tirava guarda, sentia por mim, acredito que por ser mulher e eu ser acusado injustamente de agressão ela com certeza, não acreditava em minha inocência.
Quando meu alvará de soltura foi liberado, tive que lutar muito na manhã seguinte. Os funcionários estavam ocupados com um evento militar e não se preocupavam em acelerar meu processo de soltura. Minha ansiedade era tanta que implorei aos guardas para chamarem a pessoa responsável. A pessoa apareceu ao meio-dia, irritada por ter que ir até lá, dizendo que poderia ter vindo no dia seguinte. Para eles, um dia não faz diferença, mas para prender são rápidos; para soltar, são negligentes. Um minuto fora da prisão para quem está preso faz muita diferença.
Capítulo 44: A Liberdade
Meu pai me aguardava na frente do presídio com meu carro. Até então, eu havia sido convencido pelo meu colega,que me deu a Bíblia no primeiro dia, de que meu pai pagaria o advogado do próprio bolso e prepararia uma surpresa para mim: devolvendo meu primeiro carro. Afinal, o primeiro carro é inesquecível. No entanto, conhecendo meu pai, eu tinha dúvidas. Lembrei-me do dia em que minha irmã e eu tentamos comprar o terreno ao lado da casa de minha mãe, que eram do meu pai, para construir nossas residências, ele se recusou a vender porque o pagamento seria parcelado. Na ocasião, disse que havia se esforçado na vida para conquistar suas posses e esperava que nós fizéssemos o mesmo, sem a ajuda dele.
Resolvi confiar no meu amigo. Afinal, quem seria tão baixo a ponto de tirar proveito de uma situação dessas? Estava pagando as parcelas do carro, mesmo tendo sido preso logo no primeiro mês de uso e acredito que nem fechou os 30 dias certinho que havia comprado ele. Era injusto pensar que ele me enganaria, mas uma pequena voz dentro de mim insistia em me lembrar daquela vez em que tentamos comprar o terreno dele. Será que a história se repetiria? Voltemos ao mais importante: Minha liberdade.
Quem nunca sonhou com uma casa própria, um carro reluzente ou uma vida transformada por uma sorte inesperada? Esses desejos habitam o coração de milhões, sonhos tão antigos quanto a humanidade. Expectativa, ansiedade e esperança se entrelaçam, criando uma complexa teia de emoções. E quando o sonho se torna realidade, a sensação é única: uma mistura de euforia e incredulidade, como se a vida nos presenteasse com um milagre. Essa sensação é semelhante à liberdade encontrada após uma prisão, onde a alegria de ser livre supera tudo.
Ainda não sabia para onde iríamos. Meu pai disse que tinha uma surpresa e um lugar especial para mim. Pegamos um rumo inesperado e, finalmente, ele revelou que eu passaria algum tempo na chácara do meu primo, o mesmo que esteve comigo na audiência do dia anterior.
Ao chegar lá, fiquei isolado. Meu pai disse que ali eu me afastaria das amizades, da mãe dos meus filhos e da bebida. Em outros tempos, acharia solitário e não gostaria, mas acabava de sair da prisão e, para mim, era um oásis: muita natureza e até uma piscina, embora o lugar fosse muito remoto. Não importava; eu estava grato e feliz. E não bebia.
Capítulo 45: O Carro
Oprimeiro mês foi bom, mas uma dúvida me consumia: por que meu pai não tocava no assunto do carro? Com vergonha e receio de ele achar ruim, perguntei quanto custou o advogado. Ele respondeu que foi o preço que eu havia mencionado. Eu, no entanto, não lembrava disso e perguntei: 'Qual preço?' Ele respondeu me dizendo que foi o valor do carro.
Fiquei ainda mais confuso e a revelação veio em seguida: ele disse que tinha ganhado, em um jogo de apostas, a quantia equivalente ao valor do meu carro. Achei uma coincidência impressionante. Entendi melhor porque, naquela semana, meu primo - da mesma idade de meu pai e grande amigo dele - repetia, no dia anterior, que meu pai havia ganhado em um jogo, ou seja, ele preparava meu coração. Devia ter dito ao meu pai que eu andava intrigado porque ele tava com meu carro e não me falava nada.
Isso me atingiu em cheio. Naquele tempo, após quase um mês no sítio sem beber, lendo a Bíblia e me esforçando para manter a sobriedade, a decepção me levou à ir cidade no dia seguinte para beber. Inventei uma desculpa para que ninguém desconfiasse do meu estado emocional.
A partir daí, passei a frequentar a cidade com regularidade e voltava à chácara, às vezes até bêbado. Chegando a completar três meses, eu e meu primo discutimos e eu fui embora.
A situação era a seguinte: meu pai e meu primo, apesar de idosos eram namoradores, gostavam de flertar com mulheres jovens. Certa vez, o filho de meu primo, meu primo de segundo grau, que morava na casa do caseiro e o ajudava na chácara, trouxe sua cunhada, que tinha um filho. Ela era jovem, havia brigado com o marido e separado.
Eu não sabia que meu primo tinha interesse nela. Ela me disse que nunca teve nem teria nada com ele. Nós nos conhecemos e gostamos um do outro. Num dia em que meu primo varria as folhas das árvores na chácara, eu estava dentro da casa. Ao sair, vi a garota sozinha na piscina e decidi me aproximar. Foi quando entrei na piscina e, a partir daí, ficamos namorados.
Meu primo, vendo tudo, ficou furioso e arrumou um pretexto para brigar comigo. Mandou-me sentar e começou a me repreender, reclamando até porque eu não o ajudei a varrer as folhas. Foi aí que eu me levantei e disse que ele não era meu pai e não aceitaria tal provocação. Liguei para meu pai e pedi que viesse me pegar.
Sabíamos que o verdadeiro motivo daquela discussão era meu namoro com aquela garota. Ele negou, mas todos perceberam que foi isso. Havia, contudo, um detalhe: meu primo mantinha um relacionamento com uma jovem, mesmo sendo bem mais velho, que morava em uma chácara próxima, e mesmo assim queria essa outra que gostou de mim. O pai da garota que meu primo namorava não sabia do envolvimento dos dois e frequentemente ia lá, conversar com meu primo sem suspeitar do ocorrido. Ele pensava que meu primo era apenas um amigo.
Quando o pai dela chegava bêbado, ela ligava para meu primo porque o pai adormecia e ficava totalmente apagado até o dia seguinte. Meu primo voltava antes que o pai dela acordasse. Em resumo, meu primo, com cinquenta ou sessenta anos, mantinha um relacionamento com uma garota bem mais nova que ele, mas sei que era por falta de opção. A coitada sofria nas mãos do pai, seja pela violência ou pela falta de comida, pois o pai não trabalhava frequentemente e bebia muito. Quem ajudava era meu primo, fazendo compras para ela e seus irmãos pequenos. A mãe havia abandonado todos devido ao vício do pai em álcool.
Anos depois, eu quebrei o gelo da briga e fui visitá-lo. Ao chegar, vi meu primo com uma criança recém-nascida no colo. Descobri que ela pediu para casar com ele, pois estava grávida. Ela se mudou para a chácara com ele, mas não muito tempo depois, fugiu com uma pessoa da idade dela, deixando a criança com meu primo, um idoso sem jeito para cuidar daquela criança e com um pé na cova, digo isto porque ele já tava idoso para cuidar da criança. Que realidade cruel!
Às vezes, pensamos que estamos mal, mas há pessoas em situações piores neste mundo. Devemos ser gratos a Deus por tudo. Falo isso em relação a garota que naquela época só tinha esse jovem senhor em quem se apegar e na primeira oportunidade, fugiu com outro.
A Volta Pra Cidade
Quando enfim saímos, o sol estava no alto, marcando depois de meio dia. Ironia do destino, a mesma hora em que, há três meses, eu cruzava os portões da prisão rumo à liberdade. A sensação era de déjà-vu, mas com um gosto amargo na boca.
Durante o caminho, meu pai seguia pensativo, com os olhos perdidos no horizonte. Tentei quebrar o silêncio, mas as palavras pareciam presas na garganta. Confessei que não me importava para onde íamos, que eu daria um jeito. Mas ele, com aquele jeito autoritário de sempre, logo cortou meu discurso: "Já sei onde você vai ficar. Um lugar barato e pequeno, perfeito para uma pessoa solteira.
Apenas concordei, com um receio no estômago. Mais uma vez, minhas decisões estavam sendo tomadas por outros. Pensei na época: Será que não voltarei a ter a chance de escolher meu próprio caminho? O receio me consumia por dentro, mas a exaustão era maior. Apenas assenti, sem forças para discutir.
Chegando ao local, tive uma surpresa desagradável. Estávamos na casa da mulher que traiu minha mãe com meu pai, no mesmo bairro onde cresci. Ela costumava chamar minha mãe de “barata tonta” e os comentários chegaram até o nosso conhecimento, ela me desafiou certa vez em que briguei com meu pai por tal motivo. Quando brigamos por causa dela eu fui em defesa da honra de minha mãe e da minha noiva na época, que ela ofendeu bastante, eu apontei uma arma para ele o culpado por todo ocorrido, mas depois nos reconciliamos e bem sei que devemos respeitar nossos pais.
Aquela experiência foi um duro golpe, mas aprendi uma lição valiosa sobre o respeito e o amor familiar. Graças a Deus, consegui me perdoar e ser perdoado.
Quase não acreditei. Fiquei sem graça, mas ela, que havia se mudado de bairro e melhorado de vida, agora morava em uma casa ao lado da casinha do irmão dela, que deixou a casa desocupada para ir trabalhar em São Paulo. Ela me tratou bem, como se nada tivesse acontecido. Eu retribuí o bom tratamento.
Logo acertamos o aluguel e todos os detalhes relacionados à casa. Ela mencionou que havia um colchão dentro e eu aceitei a doação. Tinha apenas aquele colchão e uma geladeira que ela me emprestou e imediatamente comprei um fogão de segunda mão. Era o suficiente para recomeçar a vida mais uma vez. Estava cansado de tantos novos começos.
Aquele lugar carrega consigo a carga emocional de uma época marcante da minha vida, repleta de altos e baixos. Naquele lugar também, vivenciei momentos de profunda conexão espiritual, que me aproximaram ainda mais de Deus, mas…
Voltei a ser um grande alcoólatra ali e, mais uma vez, amava a bebida. Era como se fosse meu destino. Eu recebia dinheiro, gastava o mínimo possível com a feira para sobrar para a bebida. Foi lá que tive revelações incríveis sobre meu pai, encontrei fragmentos da verdade sobre ele que tanto buscava.
Eu convivia com a ex-amante de meu pai, e até a chamava de minha madrasta, e desenvolvemos uma certa intimidade. Bebíamos juntos frequentemente. Quando não tinha dinheiro, ela me convidava para sua casa. Na época, eu achava legal. Mas um dia, embriagada e chateada (acredito que pela falta da pensão que meu pai devia ao filho que tiveram e pelo descumprimento de suas promessas), ela me revelou um segredo. Acabou me dizendo que eles tinham um acordo, mas ele não cumpriu. Foi assim que descobri toda a trama.
Deus é justo e a verdade sempre prevalecerá.
Mesmo quando me afastei momentaneamente, afogado na bebida novamente, recebi a verdade para não morrer com dúvidas. Imagine quem serve a Deus e requer resposta de algo. Às vezes quem serve a Deus é apenas poupado de certas verdades, evitando sofrimentos desnecessários, mas ao contrário Ele, O Nosso Senhor revela o oculto.
Mas veja o que está na Bíblia:
"Na verdade, não serão confundidos os que esperam em Ti; confundidos serão os que transgridem sem causa.” (Salmos 25:3)
Ela me confidenciou que foi ela quem contratou o advogado, pois o conhecia. Ele cobrava preços baixos para ela. No meu caso, cobraram na época mil e quinhentos reais, parcelados em três vezes de R$500. Foi por isso que passei três meses preso. Isso explica tudo, pois ele só me tiraria depois da última parcela.
Ela acrescentou que meu pai disse que eu não precisava saber disso e que eu precisava daquele tempo lá para 'esfriar a cabeça'. Ele afirmou que esse período seria bom para me acalmar.
O interessante é perceber como as pessoas são más, independentemente de ter me feito bem ou não. Lembro-me bem de um dia em que estava na casa de minha mãe quando recebi uma ligação. Nessa ligação se identificaram como policiais rodoviários federais e perguntaram se eu era policial. Ao confirmar, disseram que meu pai estava bêbado e havia batido em um cavalo com uma criança em cima que atravessava a rodovia. A viatura passava pelo local no momento da leve colisão.
Eles o pararam, aplicaram o bafômetro e, por consideração, ao saber que eu era filho dele, me ligaram. Fui até lá.
Chegando lá, os policiais foram muito gentis e disseram que, se meu pai tivesse informado sobre mim a tempo, eles teriam esperado e não aplicado o bafômetro, já que o cavalo não sofreu danos e a criança e o cavalo seguiram em frente sem parar. Eles consideraram que a culpa foi da criança, mas, como meu pai estava embriagado, eles o pararam.
Sei que muitos podem criticar a atitude dos policiais por amenizar a situação, mas existe um corporativismo implícito entre pessoas de todas as faixas sociais e profissionais. Não sejamos hipócritas ao ponto de negarmos isso. Isso ocorre desde um caixa de banco que paga um boleto do vizinho sem que ninguém saiba até um policial que ameniza a situação do pai de um colega.
A verdade é que muitos que criticam ficam felizes quando um policial diz 'dessa vez vai passar', mas se forem pegos novamente, vão ficar.
Fui rapidamente e eles permitiram que eu estivesse na direção do veículo envolvido no acidente, então eu e meu pai seguimos em frente à delegacia. Deixei-o na delegacia e corri para arrumar o dinheiro da fiança. Isso levou duas horas ao todo. Ele nem foi algemado. Logo depois, eu o deixava em casa. Tratei ele exatamente dessa forma.
Registro novamente: Outra vez ele perdeu o controle em uma curva e atropelou uma mulher. Foi parado com uísque no carro, totalmente embriagado. Meu cunhado, também militar, foi quem o resgatou.
“Pimenta nos olhos dos outros é refresco” para quem não tem empatia pelo próximo, amor pelo ser humano, tem gente que ainda rir das misérias dos outros.
Na cabeça do meu pai ele não poderia ser preso e logo ligou pra gente, em uma ocasião eu, na outra meu cunhado, e não poderia sequer ser algemado, já no meu caso ele não se importou, pelo contrário, me quis preso e maquinou para que eu ficasse lá. Enquanto eu fui diligente em soltar ele, no meu caso foi o oposto.
Voltando a trama do meu carro…
O carro, segundo o acordo, era para ele vender e eu acredito que 40% do valor seria para ela, minha madrasta. Eu comprei meu carro diretamente de meu pai, que trabalhava com carros usados. E meu pai me vendeu por 25% acima do preço de mercado. Além de cobrar sua comissão, ele ainda acrescentou um sobrepreço significativo, pois eu não entendia nem me preocupava em saber. Acreditei que ele não faria isso, apesar de tudo, mas ele sem coração fez.
Tempos depois, descobri que um tio meu também foi lesado por meu pai, além de um primo. Imagino quantas pessoas não têm queixas contra ele. Se ele fez isso com familiares, deve ter feito pior com estranhos?
O resultado foi que meu pai pagou três parcelas de R$500 com meu próprio salário, que ele estava recebendo, enquanto eu estava preso. Ele poderia ter pago as três parcelas de uma vez com meu salário, mas nem isso fez, preferiu me deixar preso. Tudo isso foi permitido por Deus, então entendo.
Após isso, ela não recebeu a sua parte no pagamento e ficou chateada. Além disso, o filho que ele teve com ela, meu irmão, gosto muito dele, não recebia pensão regularmente. Nesse momento de bebedeira, ela me revelou a verdade, criando em mim um rancor forte do meu pai, até mesmo porque ele era bem pior do que eu pensava. Mas, quando entendi que tudo foi permitido por Deus, acalmei meu coração e o perdoei. Afinal, tudo já havia passado e não havia mais jeito.
Para resumir, meu parceiro de presídio que tentou me animar em relação a meu pai, só conhecia a figura do pai presente e dedicado, graças ao apoio que sempre recebeu do pai dele, mesmo depois que os seus pais se separaram. Ele não tinha ideia de como era ter um pai ausente e irresponsável, como eu e muitos outros por aí. Mas temos de seguir em frente, né verdade?
Não demorou muito para que meu namoro com a garota da piscina chegasse ao fim após descobrir que ela era namoradeira e não se contentava com apenas um namorado. Desisti e, embora não tenha me tornado mais exigente, passei a ser mais cauteloso. Depois de tudo o que passei com as pessoas próximas, comecei a questionar a confiança nas pessoas, mas ainda acreditava que poderia ser feliz e ter uma família – era meu sonho. Queria apenas alguém para chamar de minha, ao contrário de muitos amigos meus, eu me contentava com uma pessoa só. No entanto, quando mais quis isso, nunca encontrei. Hoje entendo que ainda estava em processo de aprendizado, construindo meu 'eu interior'. Deus não permitiu que eu encontrasse o que buscava tão rapidamente, precisava ser moldado.
Sempre me perguntei por que aqueles que sinceramente desejam um relacionamento autêntico parecem encontrar dificuldades em encontrar alguém que corresponda a esses sentimentos, notadamente na atualidade. Mesmo assim, eu nutria a esperança de que, um dia, cruzaria caminhos com alguém que compartilhasse dessa mesma busca.
Certa vez, quando estava a caminho de uma audiência na viatura, um sargento me disse algo que nunca esqueci: “Você só encontra pessoas problemáticas porque frequenta ambientes inadequados. Se você for a bares ou a lugares de má reputação, encontrará mulheres que refletem esse ambiente. Mas se você frequentar a igreja, encontrará mulheres com qualidades diferentes.” Lembrei-me da minha primeira esposa, que me abandonou. Ela fez coisas que me magoaram profundamente, mas sempre o fez de maneira discreta, sem chamar atenção, diferente das outras com quem me envolvi posteriormente, as popularmente chamadas barraqueiras.
Cheguei à conclusão de que o caráter não tem classe social. O caráter é a verdadeira base de uma pessoa. Mesmo alguém pobre e sem instrução pode ser educado, amável e simpático, como o contrário também é verdade.. O caráter vem da educação relacionado a criação. Percebi que o que devemos buscar é justamente o caráter.
Ultimamente, notei uma tendência: homens buscando beleza em suas parceiras e mulheres valorizando a segurança financeira em seus companheiros. Contudo, refletindo sobre minha jornada pessoal, percebi que o caráter é o verdadeiro valor a ser considerado em um relacionamento. Para os homens, encontrar alguém com caráter é essencial; se a beleza for adicionada, melhor ainda. Para as mulheres, uma combinação de caráter e estabilidade financeira não apresenta problemas; pelo contrário, é ideal. No entanto, se a expectativa por essa combinação perfeita não for viável ou se nossa paciência for limitada, focar no caráter como qualidade principal é a aposta mais segura para alcançar uma felicidade duradoura nos relacionamentos amorosos.
Durante uma de minhas escalas de serviço, tivemos a oportunidade de dar carona a uma policial feminina até sua casa. Essa gentileza não fazia parte de nossas atribuições, mas acontecia, desde que essa carona se enquadrasse em nossa área de patrulhamento e que, em caso de ocorrência, ela pudesse escolher entre nos acompanhar, pois era policial mesmo de folga ou saltar onde estivéssemos no momento. Naquele dia, felizmente, não houve ocorrência. Era a primeira vez que nos víamos, ela era próxima do comandante de nossa guarnição.
Percebi que ela falava de forma muito semelhante à dos homens, meio masculinizada, talvez devido à convivência constante com colegas militares ou para impressionar. Mas o que realmente me surpreendeu foi quando compartilhou sua experiência vivendo com um policial civil. Ele assumia todas as responsabilidades financeiras domésticas, enquanto ela não contribuía financeiramente em nada. Seu dinheiro era para seu exclusivo prazer, e ele arcava com todas as despesas. E, de forma irônica, comentou: 'Só tem mulher quem pode!' Fiquei pensando como alguém pode aceitar tal arranjo apenas pela atração física, sem enxergar a manipulação. Isso claramente revela uma questão de caráter, pois era nítido, através da conversa que ela só usava ele.
Conheci outro caso que equilibra os gêneros. Trabalhei com um oficial muito legal e engraçado, mas de mau caráter. Todos gostavam dele, inclusive eu. Todos queriam trabalhar ao lado dele. No entanto, a verdade é que ele era um grande manipulador. Tinha três famílias simultâneas, em cidades diferentes, com filhos. Acredito que a mais nova relação já tinha cinco anos e contava com uma mulher jovem, evangélica e com um filho pequeno. Ainda cheguei a ver a primeira e a última família, mas não tive oportunidade de conhecer família do meio.
Para evitar passar por situações semelhantes, é crucial evitar pessoas de mau caráter. Assim, evita-se o sofrimento e a sensação de azar no amor.
Um forte indicador de caráter são pais que estabelecem limites e valores. Embora não seja uma regra absoluta, é mais provável encontrar indivíduos com princípios sólidos e respeito ao Divino em famílias estruturadas. Esse critério não é infalível, mas oferece uma base sólida para avaliação.
A formação do caráter é um processo único para cada indivíduo. Embora a educação familiar desempenhe um papel importante, outros fatores como a genética, as experiências de vida e as escolhas pessoais também influenciam a personalidade e os valores de uma pessoa. É importante reconhecer que existem pessoas com bom caráter em todas as origens e que nem sempre a educação rígida é a única forma de cultivar valores positivos.
Na dúvida? A sabedoria popular resume bem: 'Melhor só, que mal acompanhado', evitando assim incontáveis desilusões e sofrimentos.
Em um momento de introspecção, entendi que o que mais me ambicionava era justamente o que me faltava: uma relação amorosa sólida e fiel. Depois de fechar o capítulo do meu passado, sonhava em encontrar uma parceira leal, compartilhar momentos com amigos genuínos e vencer o hábito de beber. Curiosamente, eram esses mesmos pontos os maiores obstáculos em minha caminhada pessoal.
Minhas experiências me mostraram que a busca incessante por prazer e reconhecimento nos outros pode levar à frustração e à solidão. Valorizei demais as relações humanas, esquecendo-me de cultivar minha espiritualidade. A bebida se tornou um vício que obscureceu minha visão. Através dessas dificuldades, aprendi a importância de encontrar um equilíbrio entre o mundo material e o espiritual.
Mas a ironia do destino, quanto mais implorava a Deus que me livrasse das más companhias e da bebida, mais me afundava nessas mesmas tentações. Era como se as forças do universo conspirassem contra mim. Por que, ao buscar a luz, me via cada vez mais envolto em sombras?
Eu buscava na terra a solução para meus problemas e carências, o que me retardou na felicidade e libertação. Permaneci em um ciclo vicioso, repetindo padrões até aprender. A vida me ensinou que, sem aprendizado, repetimos erros, sofrendo até entender. Esse loop se repete quantas vezes forem necessárias até que se alcance a compreensão e se avance para um novo patamar.
Agora entendo perfeitamente que a chave para o sucesso reside na perseverança inabalável. Lutar até o último suspiro garante que não se perderá a oportunidade de triunfar. Somente aqueles que se rendem estão condenados à derrota.
Muitas verdades são óbvias, mas só o Espírito Santo pode nos abrir os olhos e a mente para compreendê-las.
O Espírito Santo é um presente divino que nos capacita a enxergar além das aparências e a viver uma vida mais plena e significativa. Ao nos conectarmos com Ele através da oração, do estudo das escrituras e da abertura de nossos corações, podemos experimentar uma transformação profunda em nossas vidas.
Relembrando minha época como vizinho da minha madrasta, vivenciei intensos altos e baixos. Conectei-me profundamente com Deus, visitando várias igrejas e buscando-o no meio do mês, que era o período da escassez financeira. Lutava contra o vício em bebidas alcoólicas, mas raramente conseguia resistir ao receber meu salário. Meu maior período de resistência foram três meses. Nessa jornada, frequentei diversas igrejas, chegando a me batizar em uma delas, nesse período. No entanto, ao receber meu salário, perdia o controle e bebia em público mas com vergonha dos irmãos da igreja. Sentia uma profunda solidão em casa, acompanhado apenas pelo rádio no celular, por isso quando estava com dinheiro saía.
Não era promiscuidade religiosa que me impulsionava a explorar diversas igrejas. Na verdade, era o peso da vergonha que sentia ao encontrar membros da congregação na rua, especialmente após um episódio de bebedeira. Para aliviar essa dor, buscava refúgio na bebida novamente, tentando anestesiar a consciência e esquecer preocupações e humilhações. Contudo, quando os recursos financeiros se esgotavam, a vergonha, responsabilidades e até a fome retornavam com força redobrada, perpetuando um ciclo vicioso.
Por isso, não voltava mais para a igreja, mesmo que não tivesse visto ninguém da congregação na rua. O diabo insistia em minha mente, plantando a ideia de que alguém poderia ter me visto bebendo e eu não havia percebido. E mesmo que não tivesse levantado a mão para me reconciliar, quando apenas visitava eu pensava que só me entregaria completamente quando tivesse absoluta certeza de que não beberia mais. Mas mesmo eu não me comprometendo eu me sentia da mesma forma. Afinal, eu ia a todos os cultos com fome da Palavra de Deus e, às vezes, até me convidavam para reuniões mais íntimas. Sempre acreditava que seria capaz de resistir ao vício a cada vez, mas quando bebia, tudo desmoronava. Chorei muito por não conseguir me controlar, especialmente depois de gastar todo o meu dinheiro. Voltava para Deus arrependido, mas o mais importante é que nunca desisti de tentar. Dessa insistência, nunca me arrependerei. No entanto, me arrependo de não ter me fixado em uma igreja e de não ter voltado, mesmo com vergonha e sem dinheiro. O inimigo colocou vergonha e muitas ideias ruins em minha cabeça. Precisamos aprender a silenciar a voz de satanás, começando por não dar crédito às suas mentiras. Devemos ler a Bíblia constantemente, orar muito, mesmo nos sentindo indignos, pois me envergonhava de Deus, sabendo que com dinheiro eu buscaria o vício e só o procurava quando estava sem nada.
Nossa bênção é a amorosa aceitação divina, que não julga nossos vícios. Deus entende nossas lutas e nos permite perseverar, quebrando ciclos de erro. Em contraste, Satanás utiliza artimanhas para nos distanciar da igreja, da comunhão e da fé restauradora.
Outra coisa muito importante é encontrar uma igreja acolhedora, um lugar onde não se sinta pressionado ou julgado. É fundamental que a pessoa se sinta à vontade para admitir que está lutando contra um vício, e que o líder espiritual seja compreensivo e paciente, sem cobranças excessivas. Infelizmente, encontrar uma igreja assim pode ser difícil. Muitas vezes, o diabo sussurra em nossos ouvidos, plantando a ideia de que as pessoas estão falando mal de nós. E, infelizmente, às vezes isso pode ser verdade, mas em outras ocasiões, são apenas mais uma das suas mentiras. O importante é mantermos nossos olhos fixos em Deus e não nos deixarmos abalar pelas opiniões alheias, seja qual for a nossa situação: fortes ou fracos, vencedores ou pecadores, eles continuarão falando.
Uma das coisas que mais me assustava era o medo de escandalizar os outros. Tive que aprender a não me preocupar tanto com isso. Deus conhece nossas lutas e sabe que não é fácil vencer vícios. É claro que não podemos viver uma vida dupla, indo à igreja e depois para os bares. Quem age assim, buscando o perdão antes mesmo de pecar, não demonstra um arrependimento sincero. Por outro lado, quem peca sem intenção e se arrepende de coração, sim, recebe o perdão de Deus, mesmo que seja todos os dias. Deus entende que a luta contra o vício é difícil e que, por vezes, falhamos. O importante é não desistir NUNCA, pois um dia encontraremos a força necessária para vencer. Não podemos parar de tentar, mesmo que pareça impossível. É preciso persistir até o fim, custe o que custar.
Certa vez, em um grupo evangélico do WhatsApp, uma mulher compartilhou sua luta contra o alcoolismo. Ela estava desanimada por ter recaído pela quinta vez e acreditava que não conseguiria superar esse vício. Identifiquei-me muito com o que ela estava passando, pois já havia passado por situações semelhantes. Entrei em contato com ela em particular e contei um pouco da minha história. Perguntei quantas vezes ela achava que eu havia tentado parar de beber e me afastar das más companhias. Ela respondeu que achava que eu havia tentado cerca de quinze vezes. Então, pedi para ela aumentar o número de vezes que eu havia tentado parar de beber. Ela chutou de novo vinte e cinco. Respondi que já havia perdido as contas, mas que certamente eram mais de duzentas vezes. Apesar de todas as minhas falhas, eu nunca desisti. O inimigo até me levou à depressão e tentou me fazer desistir, mas eu resisti. Compartilhei essa experiência com ela e a encorajei a continuar lutando, independentemente do número de vezes que caísse. Desejo do fundo do meu coração que ela tenha conseguido superar esse desafio. Tenho certeza de que minhas palavras a fortaleceram e deram a esperança de que um dia ela também conseguiria vencer essa batalha. Afinal, Deus está conosco em todas as etapas dessa jornada, e Ele nos ajuda a alcançar a vitória final.
"Estou convicto de que o mesmo Deus que começou essa boa obra em vocês continuará a desenvolvê-la até o dia em que Cristo Jesus voltar." (Filipenses 1:6)
Paulo, o apóstolo, expressa uma profunda convicção sobre a obra transformadora que Deus inicia nos corações dos crentes. Essa "boa obra" se refere ao processo de santificação, onde o Espírito Santo molda o caráter do cristão para se parecer mais com Cristo.
A parte mais encorajadora do versículo é a promessa de que Deus levará essa obra até a sua conclusão. Não importa quantas vezes falhamos ou nos sintamos fracos, Deus está comprometido em nos aperfeiçoar. A palavra "desenvolver" sugere um processo contínuo de crescimento e maturidade espiritual.
"Até o dia em que Cristo Jesus voltar" nos lembra que nossa jornada de santificação culmina no retorno de Cristo. É nesse momento que veremos a obra de Deus em nós completamente realizada.
Não desista, mesmo quando as coisas ficarem difíceis. Lembre-se de que Deus está contigo em cada passo do caminho, e o mais importante é que Ele não estará te julgando, mas te ajudando, se você se sentir julgado, não é Deus, é satanás.
O versículo de Mateus 24:13 é um dos mais conhecidos e importantes do Novo Testamento, especialmente quando falamos sobre a vida cristã e a salvação. A frase "Mas aquele que perseverar até o fim, esse será salvo" nos convida a uma reflexão profunda sobre o significado da fé e o caminho para a vida eterna.
A salvação não é um evento único, mas um processo contínuo. É como uma corrida de longa distância, onde a linha de chegada é a eternidade. Perseverar significa enfrentar e superar os obstáculos que surgem ao longo do caminho. Isso inclui tentações, perseguições, dúvidas e momentos de fraqueza.
É permanecer firme em sua crença em Jesus Cristo, mesmo diante das adversidades. É confiar em Deus, mesmo quando as circunstâncias parecem desfavoráveis, nas recaídas e tudo mais.
Perseverar até o fim não é apenas uma escolha, mas uma necessidade para aqueles que desejam alcançar a vida eterna. É um caminho desafiador, mas também extremamente recompensador. Ao confiar em Deus e buscar Sua força, podemos vencer qualquer obstáculo e alcançar a vitória final.
A frase "morra tentando ou consiga" é um slogan motivacional que incentiva a persistência e a determinação na busca por um objetivo. Ela sugere que desistir não é uma opção e que o esforço contínuo, mesmo diante de dificuldades, é fundamental para alcançar o sucesso.
Capítulo 46: A Irmandade
Agora me lembrei de uma vez que, no desespero para parar de beber, fui em uma reunião dos Alcoólicos Anônimos. Ao me apresentar, falei um pouco da minha vida, onde a bebida me destruiu e até mencionei a tentativa de suicídio. O líder do grupo chorou com a história e me recomendou fortemente que me fixasse no grupo, inclusive foi ele um dos que falaram que merecia escrever um livro. Infelizmente, não permaneci como deveria no AA naquele momento.
Nesta reunião, havia um casal de idosos que foi dar testemunho. Eles contavam que bebiam, brigavam, quebravam tudo dentro de casa e não compravam coisas novas porque preferiam beber. Era uma miséria! Rimos bastante quando a senhora falou que o senhor, marido dela só tinha três cuecas rasgadas e folgadas e não tinham dinheiro nem para comprar cuecas novas, lembrei de mim que preferia beber acima de tudo.
Outro detalhe marcante foi a escolha do meu padrinho no AA. Eu tive de escolher uma pessoa para me acompanhar de perto e aconselhar-me. Escolhi um homem mais velho que em seu testemunho falou que se ofereceu para doar sangue por dinheiro para beber. Ele era bastante idoso. Simpatizei com ele e o escolhi como padrinho, mesmo ficando um pouco intrigado com a doação de sangue, já que não pode haver álcool no sangue e ele era alcoólatra. Não tive tempo suficiente para perguntar a ele como conseguia fazer isso, mas na época dele, os critérios para doação de sangue deviam ter sido menos rigorosos.
Capítulo 47: As Baratas
EEu contei essas situações para mostrar que existem muitas pessoas que preferem passar por dificuldades por causa de um vício. Por exemplo, certa vez, me empolguei quando recebi dinheiro e bebi a semana toda, deixando de lado o dinheiro da feira mensal que eu costumava fazer. Normalmente, eu seguia o exemplo da minha mãe: assim que recebia, fazia a feira, pagava o aluguel e as contas. O que sobrasse, aí sim, eu bebia. Mas naquele mês, amaldiçoado e abençoado ao mesmo tempo, saí para fazer as compras e, antes de chegar ao mercado, parei em um lugar para beber. Isso me fez beber todos os dias daquela semana. Quando o dinheiro acabou, eu achava que ainda tinha guardado o dinheiro da feira na conta. No dia em que fui sacar, a conta estava zerada e eu não me lembrava de ter gastado tudo. Fiquei confuso, sem saber se tinha sido eu mesmo ou outra pessoa. O importante é que eu estava sem dinheiro, sem bebida e quase sem comida. E o pior é que no mês anterior, eu não tinha feito compras porque tinha o suficiente para me virar até o mês seguinte, se eu racionasse aquela feira, e foi o que fiz para beber mais, ou seja era necessário fazer aquelas compras justamente nesse mês que gastei tudo.
Tinha pouquíssimas coisas e, até hoje, penso nessa situação inacreditável: eu, que recebia até melhor que todos da família, vivia mais miseravelmente que muitos desempregados. Passei a comer apenas duas vezes ao dia e em pequenas quantidades, só para conseguir chegar até o mês seguinte. Aquele mês foi o que mais busquei ao Senhor. Por incrível que pareça, não entrei em pânico nem contei para ninguém, por vergonha e por ser exclusivamente culpa minha. Não contei para minha mãe nem para minha irmã, até mesmo porque elas ganhavam menos que eu e com certeza me daria uma bronca. Eu assumi meu erro.
Quando chegou a última refeição do mês, ainda faltavam cinco dias, mesmo com todo o racionamento que fiz. Lembro-me da última refeição: de manhã, um restinho de cuscuz molhado com um caldo de feijão ralo, quase transparente, era muito ralo porque eu completava sempre com água e esquentava o mesmo caldo todo dia, só adicionando água e nada mais. À tarde, seria um restinho de arroz com um pouco de caldo de miojo, também ralo, de tanto que eu havia colocado água para render. Agradecia do fundo do coração por aquela comida e, antes de comer, orar e agradecer, vi uma barata caminhando no quarto ao lado. Depois, vi outra. Eram duas! O inacreditável aconteceu: fiquei com água na boca e me deu vontade de comer aquelas baratas. Imaginei-as torradas no óleo, bem sequinhas e crocantes. Lembrei de uma reportagem que vi na televisão sobre o Oriente, onde as pessoas vendiam escorpiões e outros insetos, como gafanhotos, sequinhos em espetinhos. Naquele momento, na minha cabeça, as baratas pareciam suculentas. Quase me levantei para tentar pegá-las e experimentar. Mas depois, quando resolvi tentar fui atrás e elas já tinham desaparecido.
Que situação! Achei que o diabo estava me humilhando, e com certeza estava. Levantei um clamor e pedi um milagre. Declarei que não iria pedir comida a ninguém, pois não suportaria críticas nem zombaria. Como servo de Deus, não faria um jejum forçado de cinco dias, pois o jejum verdadeiro é espontâneo, motivado pelo amor a Deus. Pedi uma providência divina, mas, por mais que orasse, minha mente insistia em pensar em um jejum forçado de cinco dias, só com água, seria o que ia acontecer.
Pela tarde, pouco antes da segunda e última refeição, meu celular simples, analógico, que eu usava para ouvir rádios locais e que era meu companheiro além de Deus, tocou. Era minha irmã, perguntando se eu estava em casa. Disse que sim e abri a porta. Ela e meu cunhado estavam lá, com o porta-malas do carro aberto e cheio de compras. Pediram minha ajuda, e eu prontamente ajudei. Dentro de casa, ela me disse para não ter vergonha e contou que meu cunhado pensava que eu tinha dado dinheiro a ela e pedido para ela fazer algumas compras para mim no mercado que ela costumava frequentar, pois era mais barato. Você deve imaginar a emoção que senti. Agora, com os olhos cheios de lágrimas, relembro tudo isso e dou glórias a Deus.
Ela simplesmente deixou muitas bolsas e foi embora, sem dizer mais nada. Ela não sabia de nada! Assim que fechei a porta, caí de joelhos, glorificando e chorando. Assim como estou agora, só que muito mais intensamente naquele momento. As compras foram tantas que duraram dois meses e tinham muitas coisas de ótima qualidade, coisas que eu nem costumava comprar. Nossa! Que experiência! Deus não me deixou nem comer as baratas, nem passar pela última refeição, e nunca mais faltou comida na minha mesa.
Não pedi nada, nem contei o que estava acontecendo. Era só eu, Deus e aquelas baratas que escaparam por pouco. Muito tempo depois, meses depois, contei à minha irmã o que havia acontecido naquele dia. Confessei que aquilo havia sido uma providência divina. Minha irmã nunca mais tocou no assunto, como se Deus a tivesse orientado a agir assim. E eu respeitei o silêncio dela.
Capítulo 48: O Risco
Após cerca de dois anos vivendo neste local, ao lado de minha 'madrasta', conheci uma mulher. Em meio a uma bebedeira, nos beijamos. É importante ressaltar que, nesse período da minha vida, eu estava em uma montanha-russa emocional, oscilando entre momentos de sobriedade e excessos com bebida.
Essa mulher era vizinha de outra rua, um pouco acima do peso e mãe de quatro filhos, sendo que as duas mais novas ainda moravam com ela. Era bastante conhecida na região. Após uma semana de nos conhecermos, ela foi até minha casa para bebermos juntos. Em seguida, ela me convidou para passar a noite em sua casa e, no dia seguinte, sugeriu que eu me mudasse para lá. Ela pretendia se mudar para outro lugar, outro bairro na semana seguinte.
Inicialmente, recusei o convite, mas acabei cedendo devido à insistência dela, aliada ao consumo de álcool e ao tratamento atencioso que recebi. Você já deve ter percebido que era só me dar bebida e me tratar bem que me dominava naquela época por completo. Bêbado, consenti em mudar para a casa dela no dia seguinte. Ela e seus filhos se encarregaram de pegar minhas poucas coisas e devolvê-las à irmã do antigo proprietário, a minha madrasta. A rapidez com que tudo aconteceu foi surpreendente e só foi possível graças ao efeito do álcool. Se estivesse sóbrio, com certeza teria tomado uma decisão diferente, considerando as experiências anteriores.
No dia seguinte, acordei com ressaca, arrependido da decisão tomada. Era tarde demais: a geladeira foi devolvida, já que foi emprestada por minha madrasta e o fogão já havia sido doado. Não havia mais volta. Como se as circunstâncias não fossem suficientemente adversas, a lembrança daquela noite me atormentava. Ao perceber meu estado, a mulher com quem me relacionava perguntou se eu estava triste.
Envergonhado, neguei, mas a verdade é que me sentia arrependido. Para me animar, ela me ofereceu bebida alcoólica e, momentaneamente, a estratégia funcionou. Em seguida, nos mudamos para um bairro periférico, marcado pela pobreza e pela violência. Ironicamente, era o mesmo bairro onde havíamos salvado uma família durante uma invasão que mencionei anteriormente. Novamente, encontrava-me em um ambiente que não condizia com minhas expectativas.
A maior parte do tempo, entreguei-me ao vício do álcool e da cocaína, o que era aceito e, por vezes, compartilhado por ela. Isolei-me em casa, enquanto ela passava a maior parte do tempo na residência da irmã. A solidão que sentia era ainda maior do que quando vivia sozinho, pois o novo ambiente era estranho, perigoso e distante de tudo o que eu conhecia. O diabo, em sua astúcia, conseguiu me afastar da igreja e da leitura da Bíblia. Com ela ali, minha vida se resumia ao vício, e tudo parou.
Fiquei muito triste, sem perspectiva de vida. Já que havia aceitado o compromisso, decidi ficar. É interessante notar que, quando me comprometia, levava a sério, mesmo que isso me prejudicasse. Só não me comprometia com Deus. Tinha receio de voltar atrás por medo de descumprir uma promessa que fiz ao aceitar morar com ela, e mesmo correndo risco de perder a salvação mais uma vez, por causa de um ser humano que nem gostava nem conhecia, pois só nos conhecíamos há três semanas.
Nossa convivência começou com uma simples tarefa doméstica. A descarga do banheiro estava com defeito e, apesar da insistência dela em chamar o corretor, resolvi consertá-la. Ao demonstrar minha habilidade, esperava alguma apreciação, mas ela pareceu indiferente. Quando o corretor chegou e viu o problema já resolvido, ela, sem hesitar, atribuiu o mérito a ele. A intimidade que a ligava ao corretor sempre me incomodou, mas foi essa atitude que me abriu os olhos para sua verdadeira personalidade. Comecei a perceber que havia me precipitado ao me mudar para aquela casa, sem conhecê-la de fato. O diabo, em sua astúcia, me havia preparado uma armadilha. Ele já havia me afastado da igreja e, agora, me humilhava por meio daquela mulher. Com o passar dos dias, ela se sentiu à vontade para me menosprezar, demonstrando superioridade e desinteresse. A vida que antes tinha um propósito, de voltar pra Jesus, agora se resumia a uma rotina vazia e sem esperança. Ela, por sua vez, mantinha uma vida social ativa, visitando a irmã e comprando bebida tipo cerveja para si, enquanto para mim ela me humilhava comprando vinho barato, eu tinha de me contentar com o que sobrava.
Certo dia, em um lago próximo, eu resolvi entrar na água, bebendo aquele vinho barato na beirada e, às vezes, nadando uma pequena distância, pois não me garantia nadar e me cansava logo. Mas, naquele mesmo dia, o pânico quase me consumiu. Resolvi testar uma distância maior, a bebida me deu confiança e me fez ver as coisas de maneira diferente, achando que conseguiria. Quase me afoguei sem ninguém para me salvar. Usei toda a força vital que tinha para chegar à margem e, graças a Deus, exausto e quase desistindo, consegui tocar com a ponta do dedo no solo da margem, por um triz, pois não aguentava mais de exaustão.
Nunca senti meu coração tão acelerado quanto naquele dia. Depois de sair da água e cair exausto na beirada, a luta agora era para não ter um infarto, pois meu coração estava tão acelerado que eu estava ficando sem ar pelo esforço feito para me salvar nadando.
Bem imagino o excesso de confiança de quem bebe e vai nadar e a aflição de quem se afoga: é horrível.
Capítulo 49: O Lixo
Após essa salvação, houve outra situação em que me lembro bem sobre não temer a Deus. Ela era acumuladora, o que é horrível – cheio de entulho em casa sem necessidade, e muitos objetos que nem serviam para nada. Mas a sorte é que, naquela casa nova, havia um quarto reservado apenas para isso. E foi lá que encontrei várias Bíblias usadas e velhas, algumas rasgadas e três boas, quase novas – tinha muitas, mesmo. Eu sempre reclamava da quantidade de coisa inútil e, no dia em que o diabo fez eu cismar em jogar fora as Bíblias, ele tentou me colocar contra elas e desrespeitá-las, e, infelizmente, foi o que fiz.
Lamentando a quantidade excessiva de objetos inúteis em casa, eram vasilhas e coisas do tipo que normalmente se põe no lixo entre outras coisas, concentrei minha irritação nas Bíblias. Hoje, reconheço que meu foco nas Escrituras Sagrada foi desproporcional e instigado pelo nosso inimigo, o diabo. Aquela mulher alertou-me sobre o pecado que seria queimar aquelas bíblias, e quase sofri as consequências de minha atitude. Recordo-me de um antigo colega de trabalho, um sargento, que expressava um profundo desprezo pelas Bíblias, comparando-as a papel higiênico. Na época, fiquei chocado com tamanha blasfêmia e temia que uma punição divina caísse sobre ele. No entanto, ele parecia viver uma vida normal, o que me levava a questionar a existência de uma justiça divina imediata. Hoje, compreendo a complexidade dessas questões e reconheço a gravidade de minhas próprias ações.
Mas lembro-me de que ele vivia em um estado constante de insatisfação. Era uma pessoa revoltada, infeliz e com sérias dificuldades financeiras. Para complementar sua renda, precisava realizar trabalhos manuais, como soldar portões, mas mesmo assim não conseguia alcançar uma vida digna.
Naquela época, eu não via isso como desrespeito ou pecado e achei que deveria queimar as Bíblias com defeito só deixando as três novas enquanto ela estava na casa da irmã. O resultado foi uma opressão maligna que quase me consumiu. Aquele lugar, antes triste, passou a ser sombrio para mim. Eu ali já não tinha mais armas e, num lugar perigoso, ficava com medo, achando que a qualquer hora iriam descobrir minha identidade e me matar. Aqueles dias foram horríveis. Pedi perdão e prometi nunca mais fazer aquilo, mas não me sentia perdoado.
Capítulo 50: O Louva-a-Deus
Foi quando, numa tarde, sozinho, mais uma vez sentado numa cadeira de balanço no meio do quintal, tomando vinho barato, falei com Deus. Às vezes, tudo que Deus quer é ouvir uma reclamação, um pedido ou um agradecimento sincero, sem maldizer-lhe, sabendo que Ele é justo e poderoso para reverter tudo.
Falei:
"Deus, será esse meu fim? Num lugar estranho, com
uma desconhecida, um dia destes estava na sua casa, hoje estou
isolado, arriscado a morrer aqui. Era isso que o
Senhor tinha para mim? Aquelas tentativas foram em
vão de te servir?"
Foi basicamente isso que falei, além de outras coisas do tipo. E de repente, apareceu um louva-deus no muro. Não sei explicar, mas ele parecia estar com raiva de mim, bebendo. Fui pegá-lo e ele deixou. Não sei explicar a maneira, mas ele agia muito estranhamente e eu sabia que ele estava me dizendo algo.
Ao pegá-lo, ele estava manso. E assim que ele pousou, achei que era Deus respondendo a mim. Até hoje, acho isso.
Amo a natureza. Assim que pousou, meio de costa, de lado, ele virou a cabeça e ficou olhando para mim, que não estava na linha de visão direta dele. Isso aconteceu logo após o desabafo com Deus.
Peguei-o amavelmente, mas ele começou a se mostrar com raiva, como se me atacasse. Após a ignorância dele, passei a pensar que era coisa do diabo. Ele estava muito bravo comigo e Deus era amor, pensava eu. Peguei-o e joguei-o forte para fora do muro. Ele voou para longe, passou alguns minutos e voltou para o mesmo lugar, mas desta vez agitado e bravo, como se brigasse comigo. Isso passou um bom tempo e ele foi embora depois de ter me "xingado" bastante.
Na hora, fiquei pensativo sobre o comportamento anormal e pensava se era Deus ou o diabo se comunicando comigo. Com certeza tem alguém mais cético que vai dizer que eu tava bebendo e pensei coisas ou simplesmente que não foi nada e eu que forcei a barra.
A voz de Deus é sutil e muita vez deixamos de ouvir pela incredulidade e hoje tenho certeza que foi Deus falando comigo, pedi a meu Senhor Yahweh pra nunca mais deixar de ouvir sua voz e penso que foi uma pena estar bebendo naquele dia pra não prestar mais atenção naquele louva-a-deus e interpretar o que o Senhor queria comigo, mas de qualquer forma acredito, que foi uma reclamação de “tanta bola fora” que eu tava dando. Agradeço a Deus pelas suas misericórdias que são a causa de não sermos consumidos, principalmente eu, que fui o maior vacilão da história. O personagem principal dessa história, pode até parecer mas não sou eu, é o Senhor com sua misericórdia, que nunca desiste de nós quando fazemos tantas coisas ruins repetidas vezes.
Eu quero deixar bem claro que não importa o quanto você tenha errado ou quanto, ainda, por enquanto, vai continuar errando, o mesmo Deus que me perdoou tantas vezes vai te perdoar também. Ele é o mesmo que perdoou Pedro ao negá-lo, Davi ao adulterar e matar o marido inocente de Bate-seba e a mim que pequei bem mais do que está escrito neste livro.
Lembrando do meu pecado e desprezo contra a palavra de Deus, precisei lembrar que a Bíblia, é mais do que um livro é a palavra do Deus vivo; é uma fonte de conforto, esperança e guia para milhões de pessoas ao redor do mundo. Sua mensagem transcende culturas e gerações, oferecendo ensinamentos sobre amor, perdão e propósito de vida.
Em épocas de intensa perseguição religiosa, como a Inquisição, muitos cristãos arriscaram suas vidas para copiar, esconder ou simplesmente possuir uma Bíblia. A posse da Palavra de Deus era vista como um tesouro e uma fonte de força em meio à adversidade.
Em regiões remotas, onde o acesso à Bíblia era limitado, pessoas percorriam longas distâncias, enfrentando dificuldades e perigos, para obter uma cópia. A esperança de encontrar a Palavra de Deus era um motor que impulsionava essas jornadas.
Tradutores como William Tyndale e reformadores como Martinho Lutero arriscaram suas vidas para tornar a Bíblia acessível às pessoas em suas próprias línguas. Seus esforços revolucionaram a história da Igreja e da sociedade.
Em muitos países, cristãos ainda sofrem perseguição e são impedidos de praticar sua fé livremente. A posse de uma Bíblia pode ser motivo de prisão ou até mesmo de morte.
Ao pensarmos naqueles que sonharam e até mesmo morreram por uma Bíblia, somos convidados a refletir sobre o valor que atribuímos à nossa fé. A Bíblia não é apenas um livro, mas um tesouro que nos conecta com Deus e com nossos semelhantes. Ao valorizar a Palavra de Deus, honramos aqueles que nos precederam e contribuímos para a construção de um mundo mais justo e solidário. Portanto, não despreze uma Bíblia, por mais velha que esteja. Você não vai querer sofrer as consequências disso. Além disso, muitos no mundo anseiam por uma única página que seja e não podem tê-la — muitos até dariam a vida por ela, como tantos já fizeram e fazem em lugares que desconhecemos por completo.
Capítulo 51: A Fuga
"Ai de mim, se não fosse a misericórdia do Senhor meu Deus".
Naquela mesma semana, tivemos uma briga em que ela e a irmã estavam contra mim. Um parente dela foi chamar os marginais da área, aos quais a família dela conhecia, para me fazer mal. O diabo estava furioso. Eu, por instinto, bêbado e só com a roupa do corpo, peguei uma faca para me proteger.
Sem rumo, num bairro estranho, como sabia mais ou menos as vielas dali, já sendo tarde da noite, sai por ruas alternativas, os malandros não sabiam que já trabalhei ali e consegui chegar até uma rota de saída. Enquanto dois me procuravam de moto, quando estava perto de sair, ouvi barulho de moto ao longe e corri para um terreno cheio de espinhos, ao qual eles não imaginariam que entraria, especialmente descalço e com roupas finas.
Estava tão perto da saída, e o diabo encaminhou aqueles bandidos para lá.
Vi quando eles passaram devagarzinho à minha procura, enquanto eu estava quieto, agachado dentro do terreno. Lá tinha muitas ruas de barro e muitos matos. Passei de meia hora a quarenta minutos agachado, depois deitado de bruços, aguardando até que tudo se acalmasse. Foi quando resolvi sair.
Corri para a rodovia e entrei em um posto de gasolina 24h próximo. Pensei que eles poderiam voltar em busca de mim naquele posto, mas Deus foi me dando sabedoria rapidamente para sobreviver. Ainda não era meu momento de morrer.
Fui até o frentista e disse: "Não se preocupe, não vou te assaltar. Chame a polícia, por favor." Eu estava com a faca na mão, então queria evitar mal-entendidos, mas também queria chamar a atenção do frentista para a urgência do pedido, pois ele vendo eu com a faca faria o chamado com maior brevidade e funcionou.
Sentei lá por 5 a 10 minutos e logo uma viatura encostou. Eles me renderam. Eu, ainda bêbado, disse que era policial e peguei minha carteira, que foi a única coisa que peguei na correria. Mesmo com a carteira e a faca na mão, o policial me revistou. Até riu quando eu disse: "Você quer é me tocar, então toca, caramba!" Abri braços e pernas, e ele não conteve o sorriso.
Após isso, pela misericórdia de Deus, não me levaram para a delegacia para resolver o lance da faca no posto, que soou como tentativa de assalto. Apesar de me explicar assim que cheguei, graças a Deus, me compreenderam que só queria ajuda. Como estava bêbado, decidiram me levar para a casa de minha mãe, em vez de ir atrás dos bandidos.
Agora, estava mais pobre, tinha menos do que antes: apenas uma roupa no corpo e não tinha mais nem sandálias. Mas, graças a Deus, ainda tinha os documentos.
Passei uns dias com minha mãe até receber dinheiro e voltei para a casa alugada da minha madrasta para recomeçar com menos do que quando saíra. Mas, para a minha sorte, lá já tinha uma geladeira que me emprestaram novamente. Acabei comprando-a parceladamente depois, e comprei um fogão de duas bocas além de um botijão.
Voltei para o mesmo lugar, mas com uma nova realidade. A vergonha por tudo o que havia acontecido me acompanhava, e eu me sentia ainda mais humilhado.
Capítulo 52: A Falsidade
Para não perder a inspiração e a sequência dos fatos e fazer sentido geral, acabei não contando sobre uma pessoa que conheci em meio a tudo isso. Na verdade, já o conhecia em grande parte desses acontecimentos, mas agora vou atualizar, pois essa pessoa teve papéis desagradáveis e importantes na minha vida.
Quando ainda morava com meu pai, conheci um cidadão que descobriu que eu bebia muito e pagava para que os outros também bebessem, sem fazer questão de nada. Era uma vida desregrada e sem preocupações.
Se não fosse pela intervenção de Deus, teria me arrependido de conhecê-lo, mas ironicamente, ele se tornou uma peça-chave para minha redenção com Deus.
Ele já havia sido crente, mas se desviou e agora estava bem longe de Deus. Na última vez que o vi, ele nem queria saber de Deus.
Apesar disso, acabamos nos tornando grandes amigos, e eu me entreguei a ele como um bom amigo. Ele frequentava minha casa com frequência, pois tinha um carro velho, mas não tinha dinheiro. Eu, por outro lado, não era rico, mas tinha um certo conforto financeiro.
Então, criamos uma parceria, bebíamos muito, usávamos drogas e íamos para prostíbulos, tudo pago por mim, incluindo gasolina e muitas vezes, peças do carro dele.
Ele é um exemplo de pessoa traiçoeira e tóxica que não posso deixar de relatar aqui, para que o leitor possa evitar esse tipo de gente.
Após retornar para a casa de minha madrasta, que aluguei novamente dela, ele me convenceu a ir morar do lado dele. Nesse tempo, já tínhamos muita intimidade. Ele até me pediu para batizar o filho dele, com uma ressalva reveladora: “O senhor sabe que padrinho é como um segundo pai, né?”
Na verdade, ele estava me prevenindo que eu deveria cuidar e dar presentes ao filho dele, pois era do feitio dele se aproveitar das pessoas.
Acredito que aquele jovem teve uma infância marcada por problemas e dificuldades, o que o levou a se tornar uma pessoa invejosa e sem caráter. No entanto, isso não justifica suas traições e mau caráter.
Infelizmente, fui enganado pela sua fachada de amizade e nos tornamos vizinhos. Passamos muitos momentos juntos, até que eu descobri que, ao invés de admiração, ele sentia inveja de mim. Ele desejava meu mal, falando e rindo de maneira pejorativa pelas minhas costas. Demorei anos até descobrir isso.
Saindo com ele, percebi que ele tinha um comportamento manipulador e traiçoeiro. Quando estávamos em algum lugar e uma garota gostava de mim, ele me incentivava a falar com ela, mas sorrateiramente falava mal de mim para ela. E, muitas vezes, conseguiu sair com a mesma garota.
Além disso, ele era mulherengo, apesar de ser casado. Eu muitas vezes levei a culpa por seus erros quando a mulher dele descobria seus podres. Ele dizia que era eu o responsável e, por algum motivo, eu havia pedido o celular dele emprestado para me contatar com mulheres. Eu concordava, safando ele dessas e de muitas outras situações.
Ele me manipulava e me usava como um álibi para seus erros extraconjugais.
Por esses motivos a mulher dele não gostava de mim, então não batizei o filho deles, mas nós sempre estávamos juntos e eu o considerava como um amigo verdadeiro, até que comecei a descobrir suas verdadeiras intenções.
Certa vez, um vagabundo conhecido dele invadiu o próprio apartamento dele, em um bairro não muito seguro, e ainda acabou machucando a mulher dele com um empurrão e o pior é que ela estava grávida do menino que ele queria que eu batizasse. Eu acabei defendendo eles, dando uns socos no tal vagabundo para protegê-los.
Minha amizade era sincera, até que descobri as coisas que ele dizia e fazia pelas minhas costas.
Eu vivi essa experiência dolorosa e traumática com esse amigo que se revelou ser traidor e abusivo. Ele era invejoso, e fazia de tudo para sabotar minhas chances com mulheres que se interessavam por mim.
Sempre que eu tinha uma oportunidade, ele interferia, espalhando mentiras e calúnias sobre mim. Se não conseguia ter sucesso com elas, ele tentava destruir minha imagem e reputação.
Além disso, ele explorou minha vulnerabilidade, sabendo que eu estava passando por um momento difícil com depressão e tentativa de suicídio. Ele usou isso contra mim, chamando-me de louco e denegrindo minha imagem pelas costas.
Essa experiência me deixou com feridas profundas, afetando minha autoestima e confiança. No entanto, eu aprendi lições valiosas sobre como reconhecer sinais de manipulação e abuso.
Hoje, eu busco compartilhar minha história para ajudar outros que possam estar passando por situações semelhantes. É importante lembrar que não estamos sozinhos e que há ajuda disponível, a maior ajuda vem do céu.
Quando ele estava com dinheiro, me esquecia e sumia, não atendendo minhas ligações. No entanto, quando estava sem dinheiro, ele sempre me ligava e eu o recebia de braços abertos. Eu pensei que teria muito o que falar sobre ele, mas não, porque já o perdoei. Sei que ele precisa das misericórdias de Jesus e voltar para os braços de Deus.
Vou resumir os principais acontecimentos e maldades que ele cometeu contra mim, já que esta é uma história real e só compartilho o que Deus me permite recordar.
Outro dia, pouco tempo depois de sair da chácara por ter brigado com meu primo, liguei para ele e perguntei onde ele estava. Me desloquei para lá para beber. Ele era do tipo que, além de eu pagar para ele, chamava outras pessoas que eu nem conhecia para eu pagar a conta. Eu, por vergonha e por considerá-lo como amigo, e também achando que ele não tinha condições, deixava pra lá.
Naquele dia, paguei para algumas pessoas além dele e ficamos de tarde até a noite. Foi quando meu dinheiro acabou e só me restou cinquenta reais na época. Perguntei quem poderia contribuir para continuarmos bebendo, mas todos se recusaram e acabei indo embora, pois ninguém tinha dinheiro para beber.
No outro dia, o mesmo colega que me apresentou a ele, no passado, me disse que tinha algo importante para me dizer, pois achou injusto. Ele revelou que meu suposto amigo já estava bebendo com os outros caras antes de eu chegar. E quando eu liguei, ele disse que estava chegando um "besta" para pagar a bebida para eles lá, se referindo a mim.
Quando cheguei, me senti amado, pois todos vieram falar comigo. Eu era carente e precisava de amizade, mas não encontrei nenhuma sincera. Talvez porque eu tenha dado mais valor ao humano do que a Deus.
Segundo o colega, depois que eu saí, eles fizeram uma algazarra comigo e riram muito, além de dizerem que deixaram o "besta" (eu) ir embora sem dinheiro. E quando eu saí, voltaram a beber como estavam antes de eu chegar lá.
Fiquei perplexo com essa revelação e isso resumiu a história. Além disso, descobri que ele tinha um comportamento inaceitável, dando em cima da mulher de todos, inclusive das mulheres dos amigos dele, com quem eu também passei a andar. Ele era um manipulador e aproveitador, que usava as pessoas para seus próprios interesses.
Ele não demonstrava nenhum interesse em Deus, mas seus amigos, que se diziam religiosos, levavam uma vida completamente diferente. Enquanto professavam fé durante os cultos, nos bastidores se entregavam às drogas, ao álcool e à prostituição. Foi uma experiência chocante para mim, que nunca tinha me deparado com tal hipocrisia. Infelizmente, a convivência com essas pessoas me levou a normalizar comportamentos que antes me causavam repulsa. Essa é a prova de que as más companhias podem nos corromper.
"As más conversações corrompem os bons costumes". (1 Coríntios 15:33)
Este versículo popular encapsula uma profunda verdade sobre a influência social e o poder das palavras. Ele sugere que as interações que temos, especialmente as conversas, podem ter um impacto significativo em nosso comportamento e valores.
As palavras têm o poder de moldar nossos pensamentos, sentimentos e ações. Conversas negativas, cheias de críticas, fofocas ou linguagem imprópria podem contaminar nossa mente e nos levar a agir de forma inadequada.
O ambiente em que vivemos, incluindo as pessoas com quem convivemos, exerce uma forte influência sobre nós. Ao nos aproximarmos de pessoas que cultivam conversas positivas e construtivas, somos mais propensos a desenvolver bons hábitos e valores.
O versículo nos lembra que temos o poder de escolher as pessoas com quem nos relacionamos e os tipos de conversas que participamos. Ao escolhermos com sabedoria, podemos proteger nossos valores e nos tornar pessoas melhores.
1 Coríntios 15:33 é um alerta para a importância de cuidarmos da qualidade das nossas interações. Ao escolhermos nossas palavras e as pessoas com quem convivemos, podemos construir um mundo mais positivo e harmonioso.
Desde que comecei a frequentar esse grupo, percebi que todos tinham o hábito de usar nomes falsos quando estavam na rua, para esconder seus relacionamentos extraconjugais das esposas. Se alguma mulher os abordasse com o nome falso na presença de suas esposas, eles negavam veementemente, alegando engano, ou se recebessem mensagens delas no celular diziam que foi equívoco.
Além disso, eles tinham perfis ocultos nas redes sociais para camuflar ainda mais suas traições. Essa era a realidade até o tempo em que me afastei deles, não sei se arrependeram-se dos seus pecados.
Eles criaram uma teia de mentiras e enganos para manter suas infidelidades escondidas.
Retornando ao suposto amigo, além de ter pago a cerveja e sido alvo de risadas, houve outro incidente. Eu havia comprado um celular novo e o deixei no porta-luvas do carro dele. Quando fui buscar, o celular havia sumido. Ele me acusou de estar bêbado e até me ajudou a vasculhar o carro, fazendo com que eu aceitasse que havia perdido o aparelho.
No entanto, mais tarde, alguém me contou que ele havia furtado o celular e que eu não merecia isso, considerando que éramos amigos e eu não era uma pessoa ruim, segundo ele.
Fiquei chocado e magoado com a traição e hipocrisia dele, mas resolvi acreditar que ele precisava muito e teve vergonha de assumir o erro.
Permitir que situações assim se repitam cria um padrão de comportamento, no qual a outra pessoa, ao perceber que suas ações não geram consequências, tende a repeti-las. Isso mina o respeito mútuo na relação, pois a pessoa que é constantemente desrespeitada passa a ser vista como alguém que tolera qualquer tipo de tratamento.
Não sei por que eu sempre o perdoava após tantas coisas feitas contra mim. Até que chegou um momento em que o aceitei assim mesmo porque era o jeito dele. Essa amizade tóxica era quase impossível para mim me livrar.
Toda vez que estava triste e não achava ninguém para beber, ele estava disponível. O diabo sempre me ajudava a me reunir com ele, que me fazia ficar mal e para baixo depois que passava a bebedeira.
É importante prestar atenção: às pessoas que mais te elogiam, especialmente na bebida, podem ser falsas e ter inveja de você. Eu via ele, as vezes, me imitando, seja comprando roupas, carteiras e até tentando fazer o cabelo igual, eu pensava que era admiração, até descobrir que era inveja.
Existe uma passagem que diz:
"O homem que lisonjeia a seu próximo arma-lhe uma rede aos passos." (Provérbios 29:5)
Aqui, a lisonja é descrita como uma ferramenta utilizada por pessoas com intenções não genuínas. É o ato de elogiar excessivamente, muitas vezes de forma falsa, com o objetivo de obter algum benefício ou manipular o outro.
A imagem da rede nos remete a uma armadilha, algo que é preparado para capturar e aprisionar. A lisonja, nesse contexto, é comparada a uma rede que é tecida cuidadosamente para prender a pessoa que a recebe.
Quando alguém nos elogia excessivamente e de forma aparentemente gratuita, devemos ter cautela. Por trás daqueles elogios, pode haver a intenção de nos manipular, nos levar a tomar decisões impulsivas ou até mesmo nos prejudicar. A lisonja pode ser uma forma de controle social, uma maneira de ganhar a confiança de alguém para, posteriormente, tirar proveito da situação.
A falta de Deus em minha vida me deixou vulnerável a influências negativas. Eu me sentia perdido e sozinho, e as amizades tóxicas pareciam ser a única opção. Acreditava que não merecia nada melhor e me contentava com as migalhas de atenção que recebia. A cada dia, me afundava mais em um poço de autodepreciação.
Foi quando pedi ajuda a Deus que tudo mudou. Vi uma pregação de um pastor que disse para identificar os pontos de queda, os pontos fracos, e orar especificamente contra eles. Fiz isso e identifiquei três coisas que, em diferentes épocas, me levaram à queda: Bebida, Mulher e Amizades.
Percebi que esses três pontos fracos sempre me derrubavam, não necessariamente nessa ordem, mas sempre estavam presentes. Orei e repreendi esses pontos fracos, pedindo força e proteção.
Embora não tenha visto resultados imediatos, continuei orando e buscando a ajuda de Deus.
Continuei com essa amizade ruim e, quando comprei meu primeiro carro, aquele que meu pai tomou posse, ele não ficou contente e se afastou de mim, demonstrando tristeza evidente na minha frente, enquanto outros me parabenizaram.
Quando um suposto amigo não vibra junto com você, é hora de suspeitar.
Anos depois, quando comprei meu segundo carro, aconteceu a mesma
coisa. Desta vez, perguntei se ele não estava feliz por mim. Ele
respondeu, em tom de brincadeira, mas com uma fisionomia que revelava
sinceridade:
"Claro que não, agora você não vai mais colocar gasolina no meu
carro nem consertar quando quebrar."
Antes mesmo de comprar esse segundo carro, eu conheci uma pessoa que mudaria minha vida. Estamos chegando à reta final dos meus relatos sobre essa jornada desafiadora, onde eu aprendi lições valiosas sobre a importância de colocar Deus acima de tudo.
Capítulo 53: Outra Mulher
Uma nova reviravolta na minha história!
Tinha uma colega em comum onde a gente se reunia para beber. Ela tinha algumas casas de aluguel e lembro-me daquela tarde. Eu estava na casa da colega, bebendo e curtindo a companhia dos amigos, quando chegou uma nova inquilina. Eu, sendo o gentleman que era, ofereci minha ajuda para carregar as malas e mobílias.
Enquanto os outros continuavam bebendo, eu me dediquei a ajudá-la. Ela era desconfiada, simpática e agradecida. Eu senti uma conexão imediata.
Dias depois, minha colega me ligou e disse que a nova inquilina queria me conhecer melhor. Eu fiquei animado, pensando: "Quem sabe? Talvez seja a chance de encontrar alguém especial."
Marcamos para beber no dia da folga dela. Eu estava nervoso, mas ansioso para conhecê-la melhor. Ao chegar ao encontro, pensei que ela estivesse nervosa também e eu deveria ler os sinais, logo eu tão vivido, ao me aproximar vi que ela bebia vodka com outros inquilinos e parecia bem à vontade. Conversamos por horas. Eu me senti conectado, como se tivesse encontrado alguém legal.
Foi a noite que mudou tudo. Eu sabia que estava pronto para deixar o passado para trás e construir algo novo, algo verdadeiro. Então minha colega disse que eu dormiria ali na casa dela e ela aceitou.
Iniciou-se uma nova jornada, cheia de esperança e promessas. No entanto, logo descobri que havia fatos que não havia notado antes. Curioso, perguntei à colega sobre a história dela. E foi então que ela me revelou sintomas ruins, sinais que eu, cego por querer a felicidade, não havia visto.
A colega pensava que eu só queria uma aventura, mas eu queria mais. Queria uma conexão verdadeira, um amor que durasse.
Essa nova mulher que mal conhecia, havia se separado do marido após descobrir uma traição e enfrentar anos de abuso. Ele era usuário de drogas, trabalhava ocasionalmente e invadia a casa que ela construiu com seu próprio suor. A violência física e emocional era constante. Quero deixar claro que esses relatos era segundo ela mesma, e eu na época acreditava.
Mas o que a impedia de denunciar era o medo de afastar os filhos, que ela tinha com ele, que eram quatro.
A coragem dela em sair dessa relação tóxica naquele momento para mim era admirável. Ela precisou encontrar forças para começar de novo, proteger seus filhos e reconstruir sua vida.
Mas após separar-se do marido, ela começou a namorar um vizinho, o que é considerado estranho e um mau sintoma.
Além disso, ela fugiu da própria casa construída e do terreno comprado com seu próprio dinheiro, sem ajuda dele.
Esses sinais deveriam ter me alertado:
A rapidez em substituir o relacionamento anterior por outro;
A escolha de um vizinho, alguém próximo e conveniente;
A falta de autonomia financeira e emocional.
Mas eu, com minha carência emocional ainda alta, não atentei para esses detalhes importantes. Estava cego pelo desejo de amor e conexão.
Agora, eu vejo que esses sinais indicavam nela, como uma possível dificuldade em lidar com o vazio emocional, uma tendência a buscar conforto em relacionamentos rápidos e falta de caráter.
Eu precisava questionar:
Será que ela está pronta para um relacionamento saudável?
Posso ajudá-la a superar essas questões emocionais?
Estou preparado para enfrentar os desafios que vêm pela frente?
A reflexão é necessária para entender melhor a situação e tomar decisões conscientes.
Mas eu não fiz tais reflexões e após dormir lá na primeira noite, passei uma semana dormindo lá e, em seguida, convidei ela para morar comigo, vizinho ao tal amigo. Eu achava que ele respeitaria ela, especialmente porque ele me disse que ela era feia. Então, fiquei tranquilo. No entanto, meu pai sempre dizia para não arrumar mulher com filhos dos outros, mas eu não via problemas nisso, mas depende muito da situação, da pessoa e do caráter.
No entanto, o resultado foi que os dois filhos mais velhos, por não aceitarem totalmente outra pessoa com a mãe, passaram a me odiar. Eles consequentemente levavam notícias ruins a meu respeito para a avó (minha sogra na época), que também passou a me odiar.
Outro sintoma preocupante foi perceber que ela bebia vodka pura e preferia isso à cerveja. Esse hábito revelava um padrão de consumo excessivo e perigoso. Além dos problemas já identificados.
Já na primeira ou segunda semana de conhecê-la fomos morar juntos, pois apesar de tudo que me aconteceu e todo receio que agora havia em mim eu só queria ser feliz.
Após alguns dias morando juntos, os colegas do meu suposto "amigo", e que eu havia conhecido recentemente (os colegas dele), começaram a ir à minha casa com ele e com frequência. Eu nunca fiz cara feia, mas ele insistia em comentar quando ela aparecia: 'Olha a mulher dele, é essa! toda vez que ela aparecia ele dizia a mesma coisa'. Os amigos dele começaram a ir até sozinhos à minha casa, tarde da noite, aparentemente bêbados. Achei estranha essa frequência e um dia, um deles, em minha casa novamente bebendo comigo, começou a encará-la de forma insistente, desrespeitando minha presença. Ela, por sua vez, sempre aparecia no nosso campo de visão como se gostasse da forma que ele a encarava. Ainda assim, não acreditava que ela estivesse fazendo algo de errado, apenas achava que ele é que era safado. Comecei a evitar receber essas pessoas em casa e aconselho a todos a terem cuidado ao permitir que amigos frequentem seus lares com tanta frequência. Eu, particularmente, não quero mais essa situação, apenas encontros ocasionais.
Um dia, eu estava cuidando das crianças dela e ela chegaria em casa por volta das 19h30. No entanto, quando chegou meia-noite, ela ainda não havia chegado e eu fiquei revoltado. Acreditei, no entanto, quando ela me disse que havia saído do trabalho e ido a algum lugar com a patroa para se divertir, o que me pareceu estranho, já que ela sempre dizia que a patroa já havia sido pobre, mas depois que ela ficou rica, começou a tratar os outros como inferiores, e só aturava ela porque ela cuidava da casa e do filho dela por um salário muito baixo.
A cada dia que passava, o comportamento dela se tornava cada vez mais estranho. Seus horários eram completamente imprevisíveis, e comecei a questionar se ela realmente trabalhava. Inicialmente, fui enganado por sua falsa humildade e aparência de religiosidade. Ela afirmava ser crente, pois teve uma época que ela começou a frenquentar a igreja e eu até ia com ela às vezes à igreja, mas suas ações eram contrárias às suas palavras, como beber de vez em quando com raiva. Parecia usar a religião como um disfarce para seus atos, especialmente quando estava irritada.
Durante o relacionamento, estabeleci um vínculo afetivo profundo com os filhos dela, os que não me odiavam ainda, demonstrando um cuidado e atenção que, em muitos momentos, superava os cuidados dispensados aos meus próprios filhos. Contudo, após cinco anos, tornou-se evidente a incompatibilidade entre seus valores e suas ações. A utilização da fé como justificativa para comportamentos incoerentes tornou-se uma constante, impedindo a construção de uma relação baseada na confiança e na reciprocidade.
Ela me abandonou várias vezes e voltou. Um homem me alertou sobre o comportamento dela, inclusive meu suposto "amigo" disse que aquela mulher não era adequada para mim, pois eu me apegava muito fácil e ela fazia coisas erradas quando estava irritada. No entanto, não acreditei no que ouvi e pensei que havia julgado errado. Perguntei novamente, mas ele mudou de assunto.
Em um determinado momento, durante a conversa casual no bar, o homem me contou um caso sobre uma mulher. Ele relatou que ela tinha um padrão de comportamento bastante peculiar: separava-se do parceiro para ter um caso extraconjugal e depois voltava para ele como se nada tivesse acontecido. A frieza com que ele descreveu a situação me deixou intrigado. Naquele momento, compreendi que estava sendo avisado para ficar atento, mas sua aparente humildade e capacidade de fingir lealdade me faziam acreditar piamente nela.
Ela era extremamente ciumenta, e dizem que quando alguém é acometido por ciúmes excessivos, é frequentemente porque sente culpa por sua própria infidelidade e teme ser traído. No entanto, ela valorizava e dava atenção a qualquer um, menos a mim, principalmente após nós termos passado um bom tempo juntos.
Foi então que aconteceu algo que me fez perder mais a confiança nela. Um dia eu havia visto no celular dessa suposta companheira minha, uma localização compartilhada com o tal amigo. Mostrei à mulher do próprio amigo, e no mesmo dia, ela (a mulher dele) foi embora para a casa dos pais. Eu no final acebei acreditando, de novo, na versão de que era tudo coisa da minha cabeça.
No entanto, a mulher dele também perdoou voltou para ele, e logo depois, vi a mulher declarando juras de amor por ele nas redes sociais. Percebi que ele era capaz de enganar qualquer um, inclusive eu. A confiança no relacionamento foi irremediavelmente abalada após a descoberta dessa situação comprometedora, evidenciada por uma localização no celular dela.
Com o tempo, as coisas voltaram ao normal, mas a confiança havia sido quebrada. Eu me tornei ciumento e não conseguia me separar dela, enquanto ela, por outro lado, separava-se de mim frequentemente, indo embora por alguns dias ou até meses e depois voltava e eu acabava aceitando, só consigo ver como era estúpido agora depois que me libertei de tudo, dou graças ao meu bom Deus. Acredito que nos separamos e voltamos mais de vinte vezes.
Já estava cansado da amizade tóxica com ele e da relação suspeita com ela. Durante uma das muitas reconciliações, ela quis voltar para mim e passou alguns dias em minha casa, no entanto, eu estava relutante em reatar a relação.
É triste perceber que muitas pessoas usam a religião como fachada, enquanto praticam atos obscuros nos bastidores. Eu fui vítima dessa hipocrisia. Enquanto a sociedade a considerava uma santa, eu sofria em silêncio e encontrava refúgio no álcool, como sempre, infelizmente.
O incrível é que eu não conseguia me livrar da amizade tóxica dele e não sabia dizer não à ela, apesar de todos os problemas.
Capítulo 54: A 2° Prisão
Até que um dia, ela, aquela “muié”, apareceu em minha casa para dormir comigo. Eu aceitei e bebemos vodka juntos. Ela então surtou, brigou, quebrou a garrafa e tentou cortar os pulsos.
Isso aconteceu porque ela viu as cicatrizes nos meus pulsos e relembrou que eu já havia tentado me matar devido à dor que ela me causava. Naquele dia, ela quis fazer o mesmo.
Nos momentos de embriaguez e desespero, eu me levava a cortar os pulsos, abalado pelos erros dela. Mas ela sempre se explicava e eu, ingenuamente, acreditava. Esse ciclo de dor se repetia. Hoje, ainda carrego as cicatrizes, mas como marcas do livramento de Deus. Elas são lembranças de um passado doloroso e sem direção, antes de encontrar o caminho de Cristo.
Ela testemunhava esses momentos de cortes em tentativa de suicídio, observando-me séria. Ela via-me sangrar e enfraquecer, com aparente indiferença nos olhos.
Uma coisa interessante é que, em todas as vezes que me cortava sob o efeito de álcool ou cocaína, eu tentava cortar fundo, pois as substâncias ingeridas me deixavam menos sensível à dor. Sangrava muito, mas, de repente, o sangramento parava.
Agora sei que o Senhor fechou a ferida, pois não era minha hora de partir, podem até em desdém ou incredulidade dizer que por um motivo ou outro o sangue coagulava logo, mas pela minha experiência de vida sempre dou o crédito a Deus que é o dono da vida e sei que foi Ele em sua misericórdia que me protegia o tempo todo.
Naquele dia, ela estava com uma garrafa de vodka quebrada, cortando o pulso. Eu a vi em silêncio em outro cômodo, fui verificar e ela estava se cortando, então tirei dela escondi os cacos de vidro. Ela saía da casa, voltava, até que fechei o portão e tranquei. O muro era alto, mas ela pulou.
Ela queria se matar perto de mim. Depois, disse que queria ir embora, mas eu suspeitei que faria algo errado e não a deixei. Então, guardei a bolsa dela e disse que a devolveria no dia seguinte.
Ao amanhecer, ela saiu por volta das 7h. Eu pensei que tudo estava tranquilo, mas, de repente, ela voltou com a polícia. Acredite, fui preso novamente!
INACREDITÁVEL!
Não é inacreditável, pois tive motivos suficientes para evitar aquela mulher tóxica, usada pelo diabo, mas fui preso de novo e ela sabia que eu já havia sido acusado injustamente e se fosse preso mais uma vez as coisas iam ser bem piores, mas ela nem se importou. O pior foi quando ela disse aos policiais que além de bêbado tava drogado e mostrou as embalagens das drogas. Eles inventaram acusações, dizendo que eu os ameacei, e ela concordou.
Na viatura, percebi que ela estava possuída pelo demônio, querendo meu fim. Ela também ainda estava bêbada, mas os policiais não se importaram. Ao chegar na delegacia, fui tratado mal, e eles fingiram não saber que eu era policial, apesar de ser evidente.
Fiquei das 7h da manhã até a tardinha em uma área de transição da delegacia, entre a delegacia e as celas dos presos. O dia todo ouvi ameaças dos presos, chamando-me de agressor de mulher.
Capítulo 55: É O Fim
Descobri que ela atribuiu o machucado dela, causado ao pular o muro alto, a mim. No entanto, ela admitiu posteriormente que foram os policiais militares e a delegada que a induziram. Eu não a toquei para machucar, apenas para impedi-la de cortar o pulso, o que também foi atribuído a mim.
Aparentemente, o único que demonstrou compaixão naquele dia foi o escrivão. Ele lamentou o ocorrido e me informou sobre as acusações infundadas que inventaram contra mim. Os presos, por outro lado, queriam me agredir nas celas, ameaçando-me com violência, pois achavam que eu era um agressor de mulheres. Fiquei vulnerável e com medo.
Naquele momento, por volta das 14h ou 15h, não sei ao certo, pois apenas sabia pela posição do sol, eu estava pensativo e achando que ia morrer ao entrar na cela. Tinha direito ao presídio militar, mas não sabia por que não estava sendo levado lá.
Perguntei a um agente, que parecia mal-humorado, como se eu tivesse feito algo ruim com ele. Infelizmente, muitos policiais civis e militares são arrogantes. Um dia, aprendi da pior forma a humildade, eles também aprenderão.
O agente me informou de forma seca que achava que eu não iria para o presídio militar.
Fiquei inerte, pensei que seria meu fim. Em pensamento, falei baixinho
com Deus:
“Deus, será meu fim realmente? Não aproveitei as
oportunidades que me deste. Muitas pessoas morreram por muito menos.
Ao entrar naquela cela, morrerei, pois não deixarei ninguém me
agredir. Morrerei com honra. Se puder me perdoar, me perdoa. Sei que
a culpa é minha e sempre foi.”
O diabo quer que a gente ache que a graça não é pra nós, mas o Senhor quer que reconheçamos que não somos merecedores do perdão pelos nossos erros, mas mesmo assim Ele nos perdoa por mais graves que sejam. Você também pode ser. Há muitos outros relatos, mas o Senhor disse que o que escrevi neste livro é suficiente. Além disso, há coisas que esqueci ou não quis incluir, tanto por cansaço físico quanto emocional, pois relembrar tudo isso me afeta negativamente. Em contrapartida, dou glórias a Deus pelo perdão e por me permitir mudar.
A cada segundo que passava, a ansiedade crescia. Visualizava a luta, a violência, a morte. A ideia de não me entregar sem lutar me dava uma falsa sensação de controle. Mas em meio àquele ambiente hostil, três presos se aproximaram através da grade e, com uma gentileza inesperada, me ofereceram apoio e solidariedade. Aquele gesto de humanidade em um lugar tão adverso me tocou profundamente.
Na prisão, na igreja e no mundo, a maioria pode ser má, mas ainda há uma minoria com humanidade, com coração bom.
Digo igreja porque há muitos irmãos que não buscam Deus, são apenas religiosos e, muitas vezes, nem isso. Como um suposto pastor que conheci em um momento difícil.
Capítulo 56: A Moto
Eu estava na casa do meu pai, precisava entregar documentos à minha irmã em outro bairro não muito longe. No entanto, eu estava bêbado e havia feito uso de cocaína. Foi quando o inimigo trabalhou na minha mente, querendo ceifar minha vida, mais uma vez, porque ele nunca se cansa.
Pedi a moto emprestada ao colega que me apresentou ao tal amigo "fura-olho". Ele me disse: "Você está bêbado e a moto está sem freio traseiro, só tem freio dianteiro." Insisti e ele me emprestou.
Ao chegar no bairro, estava indo em alta velocidade, esquecendo-me do freio. De repente, um cara que conhecia de vista, um policial civil, atravessou a rua com sua moto novinha. Ele estava com cuidado, mas foi repentino.
Notou que a polícia civil de um jeito ou de outro se metia no meu caminho ou eu no dela? Claro que é brincadeira o que disse agora, mas era muita coincidência logo um policial na minha frente e com um cuidado na moto que parecia uma namorada sua. Eu me lembro desse policial específico por sua arrogância. Certa vez, ele apareceu em uma festa da igreja evangélica, sozinho na viatura. Era fácil reconhecê-lo pela careca e bigode característicos. Mas o que realmente me marcou foi quando ele pisou meu pé com o pneu da viatura, na frente da igreja. Aquela atitude descuidada me deixou uma impressão duradoura desse indivíduo.
Desviei o máximo possível, era na esquina de uma igreja e ele ia entrar nela. Desviei e bati no guidão dele, fazendo com que ele caísse. Eu estava desequilibrado, indo em direção à parede lateral da igreja, mas consegui desviar levemente e passei raspando.
Vou abrir um parêntese para relatar uma coincidência intrigante. Era o mesmo policial que, anos atrás, pisou meu pé na frente da Assembleia de Deus. Desta vez, ele estava em uma moto, em frente à Igreja Batista, e eu acabei derrubando-o quando ele ia entrar. Não entendo por que nossos caminhos se cruzaram novamente, a coincidência é inegável.
Havia uma placa de "quebra mola" e bati com tanta força que a placa e a haste grossa quebraram ao meio. Caí no chão e fiquei quieto por um minuto, atordoado. Quando me dei conta, ouvi uma mulher dizendo: "Chama o IML!" (Instituto Médico Legal) porque achava que eu havia morrido. A pancada foi forte.
Levantei o braço e disse: "Não, moça, estou vivo!" Alguém me ajudou a levantar e a moto também. Estava todo abalado e fui falar com o dono da outra moto, o policial, querendo resolver e pagar. No entanto, ele não se identificou.
O pastor, ou alguém vestido a caráter, que estava de terno e gravata e que deveria ser um intermediário da paz, se intrometeu e começou a criar problemas, querendo prejudicar-me. Eu disse a ele: "Meu irmão, você é pastor e deveria tentar ajudar, não prejudicar."
Ele insistiu em me prejudicar. Eu sentei, sentindo dor, pois parecia que meu braço estava quebrado. Algumas pessoas generosas, não crentes, me ajudaram e chamaram minha irmã, que veio com seu marido. Eles resolveram o problema com o outro homem, que meu cunhado confirmou ser policial, e aquele pastor intrometido que parecia puxar saco do seu inquilino religioso.
"Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus." (Mateus 5:9)
Este versículo, parte das bem-aventuranças de Jesus, nos convida a uma profunda reflexão sobre o significado da paz, da nossa relação com Deus e com o próximo.
Um pacificador é aquele que prontamente busca construir pontes, mediar conflitos e promover a compreensão mútua. Jesus é o Príncipe da Paz. Ao seguir Seus passos, buscamos refletir Seu caráter e Seus ensinamentos em nossas vidas, promovendo a paz onde quer que estejamos. Deus é o Deus de paz. Ao buscarmos a paz, estamos nos tornando mais semelhantes a Ele.
A paz começa dentro de nós. Ao cuidarmos de nossa saúde emocional e espiritual, estamos mais preparados para promover a paz ao nosso redor. Ao cultivar relacionamentos baseados no amor, no respeito e na empatia, estamos contribuindo para um mundo mais pacífico.
Após a chegada do meu cunhado, minha irmã me levou ao hospital, pois meu braço estava deformado em formato de S e tínhamos certeza de que estava quebrado. No entanto, o médico diagnosticou que era uma inflamação nervosa e não uma fratura, depois de vários dias de tratamento, o inchaço gradualmente diminuiu e meu braço voltou ao normal.
Voltando ao assunto da delegacia, no finalzinho da tarde, os mesmos policiais que me prenderam chegaram novamente para me conduzir de volta ao presídio militar. Fiquei aliviado por não ter morrido, mas a perspectiva de retornar àquele lugar era outra fonte de angústia.
Hoje, não tenho tempo para desejar mal a ninguém nem vingança. Estou ocupado sendo feliz. Sei que todos erramos e que a vida às vezes nos cobra por isso. Mas creio que, se buscarmos a Deus, Ele nos fortalece para superar tudo. Ele está sempre esperando por nós, mas a decisão de procurá-Lo é nossa.
Naquela situação, eu me sentia completamente sozinho. Muitos não acreditavam em mim, e mesmo minha família não ofereceu muito apoio. Minha mãe apareceu apenas uma ou duas vezes para trazer algo, mas minha irmã nunca veio visitar. Mesmo sabendo que eu estava certo, a situação parecia errada para todos. Reconheço que meu descrédito com eles é real, especialmente pela segunda vez que passei por isso pelo mesmo motivo, injustamente.
Só eu e algumas poucas pessoas que presenciaram os fatos sabem a verdade e viram a injustiça que enfrentei. Não culpo quem não acreditou em mim, pois reconheço que era difícil de acreditar. Nem mesmo eu estava aceitando que caíra novamente na mesma armadilha do diabo.
Mas o que me segurou sempre foi saber que Deus tinha um plano grandioso para mim. Por isso, a perseguição é grande, pois o diabo tenta tirar nossa credibilidade e deixar o mundo contra nós. No entanto, sabendo que temos Deus ao nosso lado, temos tudo que precisamos. Desta segunda vez, não me desesperei, pois reconheci que era perseguição do inimigo. Tudo estava se repetindo porque eu não estava ouvindo a voz de Deus.
Aprendi que, se não ouvirmos a voz de Deus, as coisas se repetem até que aprendamos a lição. Demorei muito a aprender, mas agora entendi. Não quero ser tolo novamente. Não deixarei que as coisas se repitam, saindo do ciclo negativo.
Hoje pela manhã, em meu devocional diário, li uma passagem que me fez lembrar de mim mesmo no passado:
"Como o cão torna ao seu vômito, assim o tolo repete a sua estultícia." (Provérbios 26:11)
Este versículo bíblico é uma metáfora poderosa que nos convida a refletir sobre a natureza humana e as escolhas que fazemos.
A imagem do cão retornando ao próprio vômito é repulsiva e evoca a ideia de algo sujo e degradante. Essa ação é instintiva e demonstra uma falta de discernimento e de nojo por algo que deveria ser evitado.
O "tolo" aqui não se refere à falta de inteligência, mas sim a alguém que age de forma insensata, irracional e contrária à sabedoria. Repetir a "estultícia" significa persistir em atitudes tolas, mesmo após as consequências negativas.
Em essência, o provérbio nos alerta sobre a tendência humana de repetir os mesmos erros. Assim como um cão retorna ao seu vômito, ignorando a sujeira e o mal-estar que isso causa, as pessoas podem insistir em comportamentos destrutivos, mesmo sabendo das consequências.
Cada dia do mês, leio um provérbio equivalente ao dia e assim começo meu devocional. Como hoje é dia 26, li o Provérbio 26. Pois quando era criança, alguém me ensinou essa prática, e agora lembro de outra passagem:
“Educa a criança no caminho em que deve andar; e até quando envelhecer não se desviará dele.” (provérbios 22:6)
A promessa é de que, se a criança for educada corretamente, ela tenderá a seguir este caminho ao longo de toda a vida, mesmo na velhice, assim como eu, que me ensinaram a ler um provérbio por dia e até hoje sigo essa prática.
E assim, vamos enraizando a palavra de Deus em nossos corações para ter algo a lembrar e responder quando nos acusarem ou nos perguntarem sobre Deus ou até dá conselhos.
Outra coisa que aprendi é que nós somos como um banco de dados: lemos com atenção e guardamos informações. Muitas vezes, não lembramos imediatamente, mas quando vivenciamos uma situação relacionada ao que já lemos ou estudamos, o Espírito Santo traz à memória.
Isso não serve apenas para a Bíblia, mas também para a vida em geral, incluindo estudos. Como eu passei em concursos, percebi que, mesmo quando não sabia a resposta, o Espírito Santo me trazia lembranças de algo que eu havia lido anteriormente. Mas para o Espírito Santo nos ajudar, precisamos estudar e nos esforçar. Vendo nosso esforço, Ele nos ajuda, até mesmo a "chutar" respostas certas.
Assim me lembro de outro versículo:
Provérbios 13:4, que diz:
"A alma do preguiçoso deseja, e coisa nenhuma alcança, mas a alma dos diligentes se farta”.
Isso é um lembrete poderoso de que o sucesso é fruto do trabalho duro e da perseverança. Ao cultivar a diligência em todas as áreas da vida, podemos alcançar nossos objetivos e viver uma vida mais plena e satisfatória.
Antes, eu era como o preguiçoso que espera milagres do céu, enquanto o diligente estuda e se esforça. Poderia citar muitos outros versículos, mas vamos voltar à minha história, que está se alongando.
Os primeiros dias são mais difíceis para se acostumar. Desta vez fiquei na cela na frente da cela doze, a mesma onde estive anteriormente. No entanto, era mais triste sem meu amigo lá, que tanto me ajudou. Mas desta vez, eu tinha mais força. O intrigante foi que um preso parecia ter raiva ou repulsa por mim, motivado pelo suposto crime pelo qual fui preso. No entanto, ao saber que o crime dele era da mesma categoria, apenas que o meu foi injusto, e ele havia espancado gravemente a mulher, percebi a ironia.
Mas como ninguém acreditava em mim, parecia não ter importância.
Não demorou muito tempo e viramos bons colegas. Lá, encontrei muitas pessoas boas, mas também havia gente perdida. Até reencontrei um sargento preso que ainda estava lá quando passei pela primeira vez. Ele me criticou duramente, dizendo que eu tinha saído crente, prometendo servir a Deus, mas voltei novamente e o que é pior, pelo mesmo motivo.
Ele disse que agora eu queria saber de Deus novamente, acusando-me de ser um safado, usando Deus e fingindo ser bom apenas para sair de novo.
Não me deixei abalar porque sei que é assim que o diabo tenta nos abalar e derrubar, como já havia acontecido antes. Mas, graças ao estudo da Bíblia, estava preparado para responder. Em outro tempo, eu concordaria e aceitaria a situação, desistindo de tudo. Mas, desta vez, respondi:
“Você está certo e errado. Certo quando disse que me aproximei de
Deus, me libertei da prisão e voltei. Errado quando
disse que me aproveitei de Deus, pois
Ele ajuda quem clama a Ele e pede
socorro. Eu pedi, e Ele me socorreu.
Caí na desgraça de novo e preciso Dele outra vez,
porque só precisa de médico quem está doente. E eu estava doente
espiritualmente falando.”
Ele se calou e logo após disse: “Tá certo”, parecendo não se importar com minhas falas. Nesse momento, eu senti que tinha mais autoridade em Deus do que antes, quando não lia a palavra.
Desta vez, precisei do amigo fura olho, que me ajudou porque pedi a um colega para receber meu dinheiro, mas esse colega recebeu e sumiu com meu cartão e senha. Quando um detento semiaberto tirou o extrato, após receber o cartão de volta, descobri que o tal colega havia zerado minha conta e até passado o cartão em uma churrascaria.
Naquele momento, a raiva me consumia e pensei em coisas terríveis. Mas, por sorte, o tal colega devolveu o cartão, mas gastou o dinheiro do advogado. Afinal, foi ele quem me indicou o profissional e me ajudou durante aquele período difícil. Esse deslize financeiro não ofusca todo o seu apoio.
Um dado interessante nesta segunda temporada de prisão foi que, após o colega sumir com meu cartão, pedi ao meu "amigo", conhecido como 'fura-olho', para o localizar e pegar o cartão. Até mesmo dos inimigos podemos precisar um dia, e também sou grato pelo apoio dele naquele momento.
Mas não parou por aí. No mesmo dia que ele me devolveu o cartão, ele foi embora e no mesmo momento, separados apenas por minutos, me chamaram de novo, dizendo que a mulher que me caluniou e dizia ser minha esposa havia deixado uma bolsa com cuecas para mim. Os guardas se referiram a ela como minha esposa, e eu fiquei grato pelos favores, mas com raiva por me humilharem até nisso. Ela disse posteriormente que foi coincidência, como sempre, e nem viu meu “amigo” naquele mesmo momento que chegaram juntos ao presídio. Muita cara de pau, mas eu precisava e portanto tive de me curvar, querendo ou não foi a única pessoa que veio na mente e se disponibilizou, mesmo junto com ela, que ironia, mas a culpa disto tudo foi minha.
Eu havia escrito uma carta na esperança de que ela aparecesse. Ela recebeu e o conteúdo era um desabafo por ela ter mentido e me enjaulado. Eu havia ajudado ela a não se matar, e foi assim que ela me retribuiu. Na mesma semana, minha mãe apareceu dizendo que ela estava internada pois tentou suicídio por remorsos do que fez comigo. Estava amarrada e sob vigilância, pois até no hospital tentou se matar novamente.
Desta vez, o diabo não conseguiu me derrubar como antes. Em vez disso, ele manipulou a mente dela, o diabo nunca quer sair de mãos vazias. Sua estratégia era cruel: se ela morresse, ele ganharia sua alma, e eu, sem ela para testemunhar, permaneceria preso, um prisioneiro sem esperança.
A família levou-a para o estado de origem dela, para ficar com a mãe. Eu estava preocupado dela desaparecer, sendo alertado disso pelo advogado, então o advogado perguntou se eu tinha o telefone dela. Dei a ele o contato de minha mãe, ele entrou em contato com minha mãe, que conseguiu entrar em contato com ela.
O advogado pediu uma declaração dos fatos que realmente aconteceram, e ela enviou via telefone. E 45 dias depois, graças ao meu bom Deus, eu fui libertado.
Se não buscasse a orientação de Deus, Ele não teria iluminado o advogado. O diabo poderia ter ceifado a vida dela, deixando-me arrasado. Mas o pior seria a vitória do mal: a morte dela e minha prisão por longos anos. Graças à busca por Deus, Ele impediu o plano do diabo. O que quero dizer é que, se eu aceitasse a crítica do sargento preso e aceitasse minha condição, não sairia de novo tão cedo. Ele, porém, continuou lá e nem me cumprimentou na saída. Mas acredito que, no mínimo, ele pensou sobre a força do meu Deus e que vale a pena pedir socorro a Ele.
Saí, mudei de endereço e tempos depois essa "abençoada" que me colocou de novo na prisão entrou em contato. Fiquei balançado, pois ela me prometeu muita coisa. Por ela fazer a declaração me inocentando, eu a perdoei. Ao voltar, ela se aproximou, pedindo perdão e chorou.
Sempre saía com ela e, certa vez, ela chorou, sendo grata, dizendo que eu fiz em pouco tempo por ela e os filhos o que ninguém fez em uma vida.
Em outra ocasião, ela fez as crianças pedirem para registrá-las e eu aceitei a ideia. Isso porque o pai não registrou uma, alegando que não era dele, e a outra porque estava drogado no momento do registro. Ela então registrou as crianças como mãe solteira e eu acabei não registrado graças a Deus.
Eu até cheguei a mencionar certa vez na cara dela sobre o pai dos seus filhos abusar dela a força e não pagar pensão alimentícia. No entanto, ela nunca o acusou ou ameaçou prendê-lo. Pelo contrário, eu fui quem fiz tudo por elas, apesar disso ainda fui preso e prejudicado.
Desta vez, mudamos de bairro e nos afastamos daquelas companhias. A ideia foi dela, mas a vida voltou a ser a mesma de antes, com menos intensidade. Ela passou a me humilhar novamente. Depois de tantas idas e vindas, ela arrumou outro emprego e voltou maravilhada com a patroa, falando muito bem e se achando amiga dela. Eu, porém, disse:
“Ela não é sua amiga. Não confunda as coisas. Ela só te trata bem porque precisa e não arrumava ninguém que trabalhasse tanto e ganhasse pouco.”
Ela não me ouviu e brigou, defendendo a patroa que acabara de conhecer. Não muito tempo depois, ela disse que sairia do emprego. Perguntei por quê, já que ela endeusava aquela mulher. Ela disse que foi humilhada e ficou muito triste. Ela era muito orgulhosa, talvez o maior defeito. Eu admirava sua disposição para trabalhar, talvez a única qualidade que eu via, infelizmente.
Ela disse que eu tinha razão sobre não misturar as coisas e só não saiu porque aconselhei a ficar. Disse a ela que todo trabalho tem dias ruins, que tirasse da cabeça que ela era sua amiga e fosse profissional, e não contasse nossa vida lá. Mas aconteceu justamente o oposto.
Certo dia, depois disso tudo, ela chegou provocando briga e cochichava muito com outras pessoas na sala, o que achei muito estranho.
Após cochicharem muito, senti algo de errado no ar. Não demorou muito, ela veio me tratando com arrogância e acabei perguntando o porquê daquilo. Ela começou a discussão, brigando, e não dormiu comigo dormiu na sala. Tinha algo já acertado em mente com a patroa.
Ela disse que foi convidada pela dona que ela trabalhava a ir morar nos Estados Unidos, já que o marido da patroa era de lá. Mas foi uma encenação. Na verdade, ela não teve coragem de me dizer que estava indo embora, já que me fez passar por tanta coisa, até brigar com minha família por ter voltado com ela novamente, e de repente me largar de novo. No outro dia, ela pegou suas coisas e sumiu. Depois, fiquei sabendo que não foi nada daquilo. A patroa deve ter aconselhado ela a me deixar, já que ela se queixava muito lá sobre nossa vida, ou simplesmente ela achou outro. A patroa poderia estar defendendo seus interesses para não perder uma ótima empregada que trabalhava muito e ganhava pouco.
O ótimo disso tudo foi que, pela primeira vez, não senti angústia nem solidão. Estava em paz. Foi um livramento total e definitivo. Já percebi Deus agindo na hora dos cochichos e me preparando que ela estava tramando algo.
Contei com ela para dividir as despesas, mas me enganei. Fiquei no vermelho e tive que me virar com o pouco que tinha, mas nada de passar fome ou coisa do tipo. E depois de ter quase passado fome, qualquer dificuldade parece pequena pra mim agora, mas o Senhor sempre me honrou e nunca deixou.
Nunca mais a vi. Ela, que tinha meu número, me ligou muito tempo depois para dizer que estava namorando e apenas para me avisar isso. Eu simplesmente disse: “Ok” disse pra ser feliz e me deixar em paz.
Capítulo 57: O Assalto
Do amigo “fura-olho” eu já tinha me afastado antes mesmo de me mudar com ela. Isso aconteceu depois de tantas outras coisas que ele aprontou, e até lembrei agora de um episódio que aconteceu quando ele reuniu a turma para pintar um apartamento dele, no mesmo local onde eu havia dado uns murros em um malandro que empurrou a mulher dele, grávida na época.
Ele não se arriscou a ir sozinho, com medo, e chamou a turma que ele andava, e que eu também passei a participar. Quando estávamos sentados após a pintura, bebendo próximo, todos com celular na mão, um cara se aproximou e ficou conversando conosco, como se conhecesse alguém. Ele até pegou uma cerveja ali e, de repente, puxou um revólver e anunciou o assalto. Ele estava com nossa cerveja na mão! Que cara de pau! Ele pegou uns cinco ou seis homens, fora eu, e todos se renderam e entregaram os celulares. Eu, porém, estava com meu celular velhinho, mas que me servia tanto. Eu sabia que, se entregasse, não teria outro por um bom tempo. Os outros, porém, tinham celulares bons e caros, e alguns nem tinham pago ainda.
Eu então me recusei a entregar meu celular. Já havia visto que o tambor do revólver não estava completo, mas tinha munição. Tudo aconteceu em fração de segundos. Eu botei o celular no banco ao lado e ele viu a submissão de todos e achou que eu também havia me rendido. Quando ele veio pegar meu celular, meio displicente e autoconfiante, consegui pegar no tambor e sabia que não giraria se ele tentasse deflagrar o tiro.
Começamos uma luta de puxa empurra, enquanto os outros olhavam. Eu gritei por ajuda e só um veio no impulso e deu um murro forte no rosto dele, que se desorientou e soltou-me e o revólver comigo. Com o impulso do puxão, cambaleei para trás e atirei nele, mas como estava desequilibrado, quase caindo, errei o alvo. Quando me recompus, ele veio para cima para tomar de volta e foi quando eu deflagrei o segundo, desta vez certeiro mas não fatal. Foi então que ele sentiu e desistiu de lutar e começou a pedir socorro, chamando a polícia. Ironia do destino: o bandido pedindo à polícia para protegê-lo!
Alguém ironicamente disse: Ele se ferrou, porque ele é policial! se referindo a mim. E ele começou a correr, pedindo ajuda.
Meu amigo “fura olho” entrou na frente para evitar que eu fosse atrás dele. Eu iria chamar apoio e não sabia ainda o que fazer, estava na adrenalina do momento. Ele me convenceu a entrar no carro e ir embora.
Após isso, me disseram que meu falso amigo tinha envolvimento com o roubo dos celulares. Não acredito que ele tenha tanta maldade, mas sei que ele não me deixou ir atrás do ladrão enquanto podia e me colocou dentro do carro, levando-me embora. Pouco tempo depois, o cara saiu do hospital e começaram a ameaçar o tal amigo, pedindo a arma de volta. Ele me implorou para que eu devolvesse, mas eu disse que ele mesmo havia salvo o bandido e agora queria minha ajuda. Mas agora ele queria ir atrás do bandido depois de tudo, na hora do assalto estávamos na legalidade ele não quis, agora eu não iria.
Ele disse que não tinha nada a ver, mas por que cobraram a arma pra ele? Também achei estranho. Por essas e outras, passei a andar menos ainda com ele.
Temos de entender uma coisa na mente do invejoso: ele não quer estudar, trabalhar ou se esforçar para ser igual ou até melhor que você. Ele quer ver seu fim. O problema não é o que você tem, é o que você é. Ele, meu amigo fura olho, comprava bermudas iguais, passou até a mudar o cabelo, para ficar parecido comigo. E eu achava, até esse momento, que ele me admirava. Mas ele só queria meu fim.
O problema na vida dele era porque eu existia, porque eu nasci. Eu não tenho raiva, pelo contrário, ainda tenho pena. E como nunca mais o vi, não sei o fim dele. A última cena desse nosso filme de terror juntos foi…
…A última vez que o aceitei na minha vida quando saímos juntos, eu, ele e outro da turma, o mesmo que me ajudou no assalto e deu o murro. Paguei a tarde toda para eles, bebida, comida e garotas de programa. No final do dia, eu, que usava a carteira no bolso lateral e raso da bermuda, deixei-a cair sem querer perto da marcha do carro. Ele estava ao lado e o outro, atrás.
Resolvi comprar cervejas para irmos bebendo e, quando procurei a carteira no bolso, ela havia caído. Procurei onde sempre caía e não achei. Pedi para ele me ajudar e ele disse para olhar no fundo do carro. Eu fui e, hoje, dou risada de mim mesmo. Chegando no fundo do lado de fora, pensei: Como essa carteira cairia na rua?
Quando voltei, a carteira estava em cima do banco do motorista , acredita que ele disse que estava ali o tempo todo. Fui olhar o dinheiro, mas havia algo que ele não sabia.
Eu tinha separado R$400 reais em notas de R$100 em uma aba, e havia mais notas de R$50 em outra aba da carteira. Mas ele não sabia disso. Se ele pegasse algumas de R$50, eu não saberia, mas o olho grande dele pegou as de R$100 e não as menores. E quando vi, não tinha nenhuma de R$100. Foi assim que o descobri. Além disso, o outro confirmou que ele realmente pegou, num momento de compaixão. Ele disse que o "abençoado" havia pegado o dinheiro e jogado a carteira ali e pediu para ele ficar calado, mas no outro dia o colega mudou a conversa para proteger o amigo, já que esse outro conhecia ele a mais tempo e resolveu se sujar com ele na mentira para protegê-lo.
Levei-o para casa dele e disse que estava cansado da amizade dele e que, como ladrão, no meu carro não entraria mais. Foi a última vez que o vi. Ele até se mudou depois que vendi o carro, comprei uma pistola e uma moto para me defender, desde que sofri ameaças do amigo dele que era vigilante e puxa saco da polícia, que por um momento foi meu colega também. Depois disso, nunca mais vi ninguém pois decidi mudar de vida.
Capítulo 58: A Droga
Fui vítima de uma emboscada armada por quem eu chamava de amigo, acredite mais um, meu problema era confiar demais nas pessoas, pois eu era carente de amizades sem Jesus. Em uma noite de excessos, fui dopado e manipulado por ele em conluio com um desafeto meu, que usou sua influência para forjar uma denúncia falsa contra mim. Minha arma foi levada e minha honra posta à prova em um momento de total vulnerabilidade. O choque foi descobrir que aquele a quem estendi a mão nos dias mais sombrios de sua vida foi o mesmo que me entregou aos lobos. A vontade de vingança foi avassaladora, mas o Espírito Santo silenciou o ódio e me deu um novo rumo. Tempos depois, o reencontrei; vi o arrependimento em seus olhos e ouvi sua confissão sobre a manipulação que sofreu. Escolhi perdoar para me libertar do peso, mas deixei claro que o perdão limpa o coração, mas não restaura o lugar de quem escolheu a traição.
Tomei a decisão de vender tudo e mudar de bairro, o que foi um marco em minha vida. Ao me distanciar de tudo que me lembrava do passado, abri espaço para novas experiências e conhecimentos. Comecei a frequentar outros meios e a me conectar com pessoas que compartilhavam dos meus valores. A cada dia, sentia-me mais forte e mais próximo de Deus. Essa jornada me ensinou a importância da fé, da amizade verdadeira e do perdão.
Acredito que todos nós, em algum momento da vida, nos deparamos com situações que nos fazem questionar nossa fé e nossa capacidade de amar. Mas é justamente nesses momentos que temos a oportunidade de crescer e nos transformar. A jornada que percorri foi dolorosa, mas também me proporcionou um crescimento pessoal imenso. Hoje, posso afirmar com convicção que o perdão é o primeiro passo para a felicidade.
Capítulo 59: A Transformação
Passei a dar mais valor a estar sozinho. Morar e sair sozinho não era mais uma dor, era um privilégio. De vez em quando, bebia nas recaídas, mas nada se comparava ao que vivi antes. Aos poucos, a solidão virou solitude e se tornou algo prazeroso, coisa que antes me aterrorizava. Passei a ser mais reservado e sou grato a Deus por todas as provações que enfrentei e venci, pois me permitiram encontrar a verdadeira amizade: a de Deus. No meu ponto de vista, a solitude é estar em amizade com Deus, pois nada mais faz falta.
Sempre sonhei com uma grande amizade, um grande amor, mas nunca imaginei encontrar algo tão grandioso e completo quanto o amor de Deus. Durante muito tempo, busquei a felicidade em outras coisas, mas nunca encontrei a paz que tanto almejava. Hoje, reconheço que Deus sempre esteve presente, me amando e cuidando de mim. Nunca me abandonou, me salvou e me guiou por caminhos que nunca imaginei percorrer. Sou eternamente grato por todas as experiências que vivi, pois me levaram a essa profunda conexão com o Divino. Aprender que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus foi a maior lição da minha vida.
"E sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito."(Romanos 8:28: Uma Promessa de Esperança)
Este versículo, extraído da carta de Paulo aos Romanos, é um dos mais conhecidos e reconfortantes da Bíblia. Ele nos oferece uma perspectiva única sobre as dificuldades e provações da vida, assegurando-nos que, mesmo nos momentos mais desafiadores, Deus está trabalhando em nosso favor.
Isso inclui tanto as alegrias quanto as tristezas, os sucessos quanto os fracassos, os momentos bons e os ruins. Tudo o que acontece em nossas vidas, por mais difícil que pareça, faz parte do plano de Deus para nós.
Deus transforma todas as circunstâncias, por mais adversas que sejam, em algo que contribui para o nosso crescimento espiritual e para a realização do Seu propósito em nossas vidas.
Essa promessa é válida para aqueles que têm um relacionamento genuíno com Deus e que O amam de todo o coração.
Cada um de nós foi criado com um propósito específico, e Deus está constantemente trabalhando para que esse propósito seja cumprido.
Eu sempre amei este versículo e sempre prestei atenção na parte que fala que tudo contribui para o nosso bem. Tentava ver o bem em tudo e dizia que Deus, de alguma forma, estava trabalhando. E estava mesmo! Mas tinha a minha parte também: eu só esperava por Deus. Muitos querem bençãos, mas não se sujeitam a Deus.
Quando percebi a parte que diz que Deus coopera para o bem daqueles que são chamados segundo o Seu propósito, lembrei de Jó, que sofreu e foi honrado, mas ele não tinha culpa e sempre serviu a Deus com honra. E eu, porém, nem sempre fui assim. Estava perdido, esperando apenas as bênçãos de Deus. Foi aí que percebi que eu não estava fazendo nada por Deus.
É verdade que muitos personagens bíblicos, como Jó, Abraão, José e tantos outros, passaram por grandes provações antes de verem a mão de Deus agir em suas vidas. Essas histórias nos ensinam que a fé não é apenas um sentimento, mas uma atitude que se manifesta em nossas ações.
É fundamental que correspondamos à graça divina com nossas ações. A Bíblia, em Tiago 2:17, afirma que a fé, se não for acompanhada por obras, está morta. Isso não significa que nossas boas ações nos garantem a salvação, mas que elas são um fruto natural da fé genuína.
Muitas vezes, Deus permite que passemos por dificuldades para moldar nosso caráter e nos aproximar Dele. O sofrimento pode ser uma oportunidade de crescimento espiritual.
A jornada cristã é um caminho de perseverança. É natural enfrentar desafios e obstáculos, mas a fé nos ajuda a continuar avançando, mesmo quando as coisas parecem difíceis. A salvação é um presente gratuito de Deus, obtido pela fé em Jesus Cristo. No entanto, a graça não anula a necessidade de nossas obras. A graça nos habilita a fazer boas obras, e as boas obras, por sua vez, glorificam a Deus. Em resumo, a bênção não é algo que simplesmente cai do céu. Ela é o resultado de uma relação ativa com Deus, marcada pela fé, pela obediência e pelo serviço. Ao buscarmos a Deus e vivermos de acordo com Sua vontade, estamos nos colocando em posição de receber as bênçãos que Ele tem preparadas para nós.
Sobre Os Erros
Ao aprender com os erros dos outros, evitamos passar pelas mesmas experiências negativas e economizamos tempo e energia. Ao observar as experiências alheias, podemos adquirir um conhecimento mais amplo e diversificado sobre o mundo, e podemos evitar sofrimentos e frustrações desnecessárias. Porém a experiência pessoal nos proporciona um aprendizado mais profundo e duradouro, mesmo aprendendo com os outros, é natural cometermos nossos próprios erros ao longo da vida. Reconhecer que outros podem ter experiências e conhecimentos valiosos é fundamental para o aprendizado.
"A experiência é a melhor professora." Esse provérbio enfatiza a importância de aprender com as próprias experiências, tanto as positivas quanto as negativas.
"É melhor prevenir do que remediar." Esse provérbio sugere que é mais sábio tomar precauções para evitar problemas do que tentar resolvê-los depois de ocorridos.
Em resumo, a ideia de aprender com os erros dos outros é uma estratégia inteligente para o desenvolvimento pessoal e profissional. No entanto, é importante complementar esse aprendizado com a reflexão sobre as próprias experiências e com a busca por novos conhecimentos. E se soubesse que passaria por tudo isso, com certeza teria evitado, mas também é bem verdade que aprendi profundamente, porém foi doloroso.
Capítulo 60: A Morte
No meu tempo de solidão, sem mais amizades, recebi a triste notícia do falecimento de meu pai. Ele era separado de minha mãe há muitos anos, mas o casamento não havia sido oficialmente dissolvido. Nesse período, ele se envolveu com uma mulher do bairro onde ele morava, naquele bairro que mencionei anteriormente. Essa mulher tinha fama de se envolver com homens e tirar tudo deles, viúva negra. Tentei alertá-lo sobre ela, contando que me disseram que ela havia enganado outro homem, tomando todos os seus bens e o expulsando de casa, colocando tudo em seu nome, e em um momento de desespero, o homem tirou a própria vida. Infelizmente, ele não acreditou em mim e continuou com ela. A mulher, por sua vez, seguiu em frente, buscando fazer dele sua nova vítima.
O feiticeiro, em um ato que se revelou fatal, pode ter caído em sua própria armadilha. Ele iniciou uma disputa familiar ao insistir em vender a casa, mesmo sendo casado. Minha mãe, embora fosse casada com ele, cedeu à pressão e assinou os documentos.
As últimas notícias que tivemos foram devastadoras. Descobrimos que ele havia vendido todas as suas propriedades, incluindo a casa, e se mudado para o interior com uma quantia considerável de dinheiro. Seus carros, que ele costumava revender, também desapareceram. Infelizmente, o pior ainda estava por vir: fomos informados de seu falecimento e, para piorar a situação, a mulher com quem ele se envolveu foi quem entrou em contato para devolver o corpo, deixando para nós a responsabilidade de organizar o enterro.
Indago se ele pagou na Terra pelos seus erros. Fui o único a lamentar sua partida, o único a derramar uma lágrima. Ver seu rosto, marcado pela dor, no velório me tocou profundamente. Passei dias refletindo sobre a vida e a morte, inspirado pelas palavras bíblicas que dizem ser mais proveitoso visitar um velório do que uma festa.
A solidão daquela despedida foi ainda mais evidente quando notei a ausência de todos os familiares no velório. No dia do enterro, apenas uma sobrinha compareceu. Inclusive, meu primo 'idoso' mencionado antes, seu antigo parceiro e todos os outros familiares dele, estavam em uma festa na chácara e alegaram que a data já havia sido marcada anteriormente. Essa indiferença me causou profunda tristeza.
Eclesiastes 7:2 diz: “Melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete; porque naquela se vê o fim de todos os homens; e os vivos o aplicam ao seu coração.”
À primeira vista, pode parecer estranho a Bíblia falar de preferir um velório a uma festa. Eu mesmo, inicialmente, não queria ir, mas um colega me incentivou a me despedir dele. No entanto, a mensagem por trás desse versículo é profunda e nos convida à reflexão sobre a vida e a morte. Ainda hoje, imagino onde ele está, quais foram seus arrependimentos etc.
Ao presenciar um velório, somos confrontados com a finitude da vida. É um lembrete de que todos nós, um dia, enfrentaremos a morte. A tristeza e a melancolia que acompanham o luto podem nos levar a uma reflexão mais profunda sobre a vida, nossos valores e nossas prioridades. Ao considerar a morte, somos incentivados a viver uma vida com propósito e significado, buscando deixar um legado positivo.
O versículo não incentiva a buscar a tristeza ou o sofrimento. A ideia é usar momentos de luto como oportunidades para crescimento espiritual e pessoal. A alegria é um dom de Deus e deve ser celebrada. No entanto, a Bíblia nos ensina a ter um equilíbrio entre a alegria e a tristeza, reconhecendo a complexidade da vida humana.
A passagem de Eclesiastes 7:2 nos convida a ter uma perspectiva mais ampla sobre a vida, reconhecendo a importância de equilibrar a alegria com a reflexão sobre a finitude da existência. Ao fazer isso, podemos viver uma vida mais plena e significativa.
Capítulo 61: Até que Enfim
Depois de inúmeras tentativas de encontrar a felicidade, compartilhadas neste livro, compreendi que o chamado de Deus não é para uma felicidade superficial, mas sim para uma alegria profunda e duradoura. Ele deseja o melhor para mim, mesmo quando não se alinha aos meus padrões ou expectativas. Sonhei com amizades sinceras, mas elas foram escassas. Agora, encontro felicidade em Deus e em alguns escassos colegas, que se revelam mais presentes e solidários do que muitos familiares. E, muitas vezes, é um estranho ou alguém inesperado que me oferece apoio. Desisti de buscar amigos íntimos que possam me decepcionar. Em vez disso, escolhi confiar integralmente em Deus. Foi assim que encontrei paz e supri a falta de amizades significativas em minha vida.
Por falta de amigos ou de uma esposa, a qual tanto sonhava, bebia para aliviar a solidão e a falta de afeto. No entanto, ao me aproximar mais de Deus e ter um círculo social, seja ele grande ou pequeno, percebi que esperar demais dos outros, como uma obrigação de fidelidade, só me trazia frustração e ciúmes. Entendi que ninguém é obrigado a ser meu amigo da mesma forma que eu era com os outros, e que essa expectativa vinha mais de mim.
A ideia de que uma mulher conquistada com dificuldade é mais valiosa é um mito que já ouvi muitas vezes. Minha mãe, por exemplo, acreditava nisso. Contudo, a vida me ensinou que a verdadeira preciosidade de uma mulher não está na dificuldade da conquista, mas em seus valores. Aquela que impõe obstáculos por puro egoísmo não é uma boa companheira. Já aquela que se guia pelos princípios divinos, como a pureza e o temor a Deus, demonstra uma sabedoria que vai além da beleza física. Afinal, o temor do Senhor é o princípio da sabedoria.
Eu precisava aprender a ser feliz sozinho com Deus, sem depender de amigos ou de uma parceira. Entendi que nossa felicidade verdadeira vem de dentro e de saber que Deus tem o melhor reservado para nós no momento certo. Demorei muito para reconhecer e entender isso. Quando finalmente entendi, não percebi imediatamente. Enquanto esperava ansiosamente, meu foco estava no que faltava. Mas quando mudei minha perspectiva, pensei: "Se vier, ótimo! Se não, Deus é suficiente", comecei a me acostumar com a ideia. Surpreendentemente, esqueci do que tanto desejava antigamente. Não que tenha deixado de desejar completamente, mas passou a ser menos importante. A paz e o contentamento que encontrei em Deus se tornaram mais valiosos do que qualquer outro desejo.
Foi durante esse período de intensa conexão com Deus que conheci uma pessoa excepcional, um presente divino. Nossa união, marcada pela fé e pelo serviço a Deus, se fortalece a cada dia. Ao conhecê-la aos trinta anos de idade dela, notei uma mulher íntegra, temente a Deus e com princípios sólidos. Sua pureza e integridade foram fundamentais para minha cura emocional e espiritual. Essa experiência me mostrou concretamente que Deus recompensa a fidelidade de seus servos, concedendo-lhes bênçãos inimagináveis, como uma esposa virtuosa, conforme descrito nas Escrituras. No entanto, por pouco não perdi essa bênção, pois as dúvidas e a influência negativa do mundo quase me levaram a adotar uma visão distorcida das relações, influenciada por ideologias como o movimento redpill, que havia conhecido pouco antes dela entrar na minha vida.
Originário do filme 'Matrix', o termo 'redpill' hoje é amplamente utilizado para descrever um movimento que busca 'desmascarar' o que considera como verdades ocultas ou manipulações sociais. Esse movimento, frequentemente associado a grupos de homens, apresenta uma visão crítica do feminismo e das relações de gênero, defendendo uma perspectiva mais tradicional e hierárquica.
O termo 'Redpill' pode ter significados variados, mas, no meu caso, representava a crença de que não existiam mulheres decentes para casar. Contudo, estudos demonstram que essas ideias podem ser prejudiciais tanto para homens quanto para mulheres. É essencial abordar essas questões com crítica e equilíbrio, reconhecendo os riscos e problemas associados ao movimento 'Redpill'.
Em meio a uma profunda conversa com Deus, durante a oração, Ele me guiou a dois versículos que se tornaram particularmente significativos para mim:
Provérbios 22:14: “A boca das mulheres estranhas é um poço profundo; aquele que o Senhor abomina cairá nele.”
Provérbios 18:22: “Quem encontra uma boa esposa encontra um bem e obtém o favor do Senhor.”
Acredito que esses versículos, em suas diversas traduções, expressam de forma profunda a experiência que vivi e a graça que recebi.
Após orar, Deus removeu do meu coração a ideia de ser “Red Pill” e servo Dele ao mesmo tempo. Isso porque a Bíblia ensina que Deus dá uma esposa verdadeira quando Ele quer, da mesma forma que Ele permite que alguém se perca senão buscar Sua orientação. Então, se eu não acreditava na Bíblia, especialmente no fundo do meu coração, onde duvidava da existência de uma mulher correta, estava implicitamente chamando Deus de mentiroso. Afinal, só Deus conhece o coração das pessoas e a Bíblia é a palavra Dele.
Foi então que decidi parar de seguir vários perfis “Red Pill”. Além disso, havia sido convidado para compartilhar minhas experiências amorosas frustradas em uma rede social, mas percebi que havia recebido um recado de Deus. Entendi que precisava expulsar aquela mentalidade do meu coração, deixando de confiar apenas em minhas próprias percepções sobre as mulheres e passando a confiar em Deus e Sua Palavra.
Tempos depois, não muito distante, conheci a esposa que Deus havia preparado para mim. Na realidade não consigo dizer com precisão se esperei por muito ou pouco tempo, pois estava imerso no descanso do Senhor, onde o tempo não era mais um problema para mim. Ela era uma mulher pura, uma joia rara, algo difícil de encontrar nos dias de hoje.
Durante minha jornada espiritual, ouvi histórias inspiradoras de pastores que superaram desafios. Um deles, que havia sido traído, escolheu perdoar. Na época, eu não conseguia entender como era possível. Minha própria experiência me deixou ferido e confuso. Sem Deus e sem autoestima, eu preferia ignorar a realidade e continuar sendo enganado. Agora, vejo que o perdão é um presente de Deus.
Outro pastor compartilhou sua experiência de pedir a Deus uma mulher com certas qualidades físicas específicas. Eu também caí nessa armadilha, passando muito tempo buscando uma mulher oriental, no estilo japonês, que eu admirava. Eu até especificava detalhes físicos, como olhos verdes, o que parecia impossível, considerando que eu estava do outro lado do mundo e sem recursos para viajar ao Japão. Aliás, nem sabia se existiam japonesas com olhos verdes! No entanto, o pastor que admiro conseguiu encontrar sua companheira e testemunhou que para Deus não tem nada de impossível. Basta ter fé e aguardar.
Demorei muito para entender que Deus trabalha de maneira única com cada pessoa. No meu caso, quando busquei a Deus, Ele me lembrou que todas as minhas escolhas anteriores haviam dado errado. Então, decidi esperar por Ele, entregando totalmente a escolha ao Senhor. E posso dizer que, desde então, confio plenamente na Sua soberania. Se você deseja seguir esse caminho, aviso logo: Deus tem um senso de humor incrível!
Se você tiver fé para escolher por si só e errar, como o pastor que perdoou a traição por amor, tudo bem. Ou se tiver fé e paciência para aguardar a mulher que atende aos seus padrões, saiba que: A fé move montanhas e Tudo coopera para o seu bem e para um propósito maior na sua vida, mas, aqui está o ponto crucial: Essa mulher perfeita aos seus olhos pode nem vir. Se você aceitar o que Deus tem para você sem questionar, eu, por minha experiência, digo que Deus pode quebrar todos os seus padrões. No entanto, com certeza, você nunca se arrependerá, pois foi Deus quem escolheu o que é melhor para você. Não foi o que você achava que era melhor para você.
Muitas pessoas buscam a felicidade através de padrões de beleza impostos pela sociedade. Eu já segui esse caminho, mas descobri que a verdadeira beleza vem de dentro. Ao me entregar a Deus, encontrei a felicidade, o amor e a aceitação que sempre procurei.
O que quero dizer é que Deus trabalha de um jeito todo especial com cada um de nós. Por isso, não adianta ficar preso em histórias de outras pessoas. O importante é entender que Deus muda tudo e todos do jeito que Ele acha melhor. Se você vai ser feliz perdoando, esperando ou deixando Deus no controle, isso depende de como você é próximo dEle. Essa amizade com Deus é que te mostra o caminho certo. Sem essa amizade, você fica perdido, igual uma folha no vento, sem saber pra onde ir. Mas com Deus, você encontra um propósito, um norte e paz no coração. Ser amigo de Deus é a chave para entender o que Ele quer pra você.
Capítulo 62: A Princesa
Aesposa que o Senhor me presenteou fugiu aos meus padrões desejados de antes, mas eu vi a luz do Senhor nela. Somos almas gêmeas, pensamos parecido em muitas coisas e temos uma conexão fora do comum. No entanto, tivemos problemas, pois eu já era uma pessoa ferida no passado. Achava que estava totalmente curado, mas estava sozinho. Com ela ao meu lado, por vezes, o diabo tentou me confundir, fazendo-me compará-la às outras. Ela me questionava: Você disse que estava totalmente curado. E eu acreditava que sim, enquanto estava sozinho. Mas com ela, percebi que ainda havia feridas ocultas. Mas então, lembrava: não fui eu quem a escolheu, foi Deus quem me deu.
Ela foi paciente, e sua paciência foi fundamental para que eu pudesse superar minhas feridas. Mesmo quando eu achava que já estava curado, Deus continuou a trabalhar em mim, terminando de curar minhas feridas de uma vez por todas. Hoje, somos uma só carne e confiamos plenamente um no outro. Evitamos fazer coisas que possam desagradar ao outro, sabendo que Deus selou nossa união e nos concedeu uma confiança inquebrantável.
Temos dias de estresse, como todos, mas com uma diferença: constantemente nos cortejamos, nos elogiamos e agradecemos publicamente e em nossa intimidade a Deus por nos ter apresentado um ao outro. Nossa relação é baseada no amor, respeito e gratidão. Sabemos que somos uma bênção para o outro e expressamos isso diariamente.
Ela me fez saborear tudo o que eu não tive em uma vida toda. É uma mulher virtuosa, descrita na Bíblia, e nossa relação é indescritível. Quando duas almas autorizadas por Deus se encontram e se amam, é uma experiência única. Infelizmente, nossa felicidade despertou inveja em pessoas que não aguentavam nossa alegria. Elas fingiam ser amigas, mas desejavam nosso mal. Mas não nos importamos. Hoje, somos apenas nós três: ela, eu e Jesus. Isso é suficiente para nossas vidas. Nos afastamos de quem nos fazia mal e tivemos que quebrar amizades falsas. Foi uma escolha corajosa, mas necessária. Nossa prioridade é Deus, depois um ao outro, e em seguida, nossa família. Nós escolhemos ser uma família de dois, com Jesus no centro. O resto vem em segundo plano.
Essa foi a fórmula para nossa comunhão com Deus e felicidade juntos. Ao longo desta união, percebemos que conversar um com o outro e com Deus é mais do que suficiente para termos uma vida saudável. Descobrimos que amigos, muitas vezes, não guardam segredos ou sentem inveja, ou vice-versa. Mas isso não nos importa. Sou grato a Deus por ter me feito encontrar o verdadeiro amor, mesmo sem merecer. Ele é fiel e misericordioso.
Uma curiosidade: quando eu era amargurado e infeliz, odiava ouvir casais chamando um ao outro de “amor". Coisas como “Amor, vem cá" me pareciam babaquice. Chegava até a ter raiva e sair de perto. Mas hoje, ironicamente, minha esposa e eu nos chamamos de “amor" um ao outro. E não sinto nenhuma raiva nem vergonha disso.
Espero que essas experiências possam te animar, orientar ou ajudar de alguma forma. Quem sabe, algum dia, eu escreva o próximo livro com histórias omitidas neste relato, acrescentando novos capítulos e contando a segunda parte da minha vida. E quem sabe, talvez eu possa compartilhar mais histórias vividas daqui em diante para inspirar outros. Sei que nada é impossível para Deus. E quero deixar essa frase, que antes parecia ridícula para mim: TE AMO, MÔ!
Faço minhas as palavras deste homem de Deus:
Quero terminar este livro dizendo que o Senhor tem uma compaixão infinita, uma paciência ilimitada e um perdão inacreditável. Seu amor não registra erros; você também não deve registrar, nem os seus, nem os dos outros que lhe fizeram mal. Tudo contribuiu para o seu bem, que anda segundo o propósito de Deus. Mesmo que não entenda hoje, até aquela pessoa que o feriu cooperou para o seu bem. Deus quer livrá-lo da carência por aceitação e aplausos. Deus deseja que você perceba que não é necessário fazer nada para ser aceito por Ele. Saia desse jugo do ativismo e da aparência. Deus não se impressiona com o seu desempenho perfeito; máscaras o fazem perder o brilho da glória de Deus. Jogue-as fora. As pessoas podem julgá-lo por uma atitude, uma palavra, um olhar, um toque ou um momento, mas o Deus que nós servimos não o julga. Mesmo conhecendo-o profundamente, Ele não aponta defeitos.
Removendo as Raízes da Carência - Luiz Hermínio
Capítulo 63: A Carta
Carta escrita de próprio punho e de todo o coração.
"LEMBRE-SE:
NÃO DESISTA DE VOCÊ MESMO! DEUS JÁ PAGOU POR VOCÊ!
NÃO DEIXE O DIABO LHE ENGANAR DIZENDO QUE VOCÊ NÃO MERECE, NÃO
CONSEGUE OU NÃO TEM JEITO!
EU SÓ CONSEGUI PORQUE NÃO DESISTI DE MIM MESMO, E É
ESSA NOSSA PARTE, NÃO DESISTIR DE NÓS MESMOS.
SE EU CONSEGUI VOCÊ CONSEGUE! EU NUNCA VI TANTA
VERDADE QUANDO JESUS DISSE QUE VENCEU O MUNDO E QUE EU CONSEGUIRIA
TAMBÉM.
O SEGREDO TÁ AÍ: NÃO DESISTIR DE VOCÊ!
ATÉ A ETERNIDADE, TE VEJO LÁ!”
(Transcrição da carta na foto acima)
Fim.
Agradecimentos,
Quero expressar minha profunda gratidão a todos aqueles que, de
alguma forma, influenciaram minha jornada e contribuíram para a
criação deste livro. Agradeço aos parentes, amigos, colegas e até
mesmo desconhecidos que cruzaram meu caminho, direta ou
indiretamente.
Também não posso esquecer meus inimigos, conhecidos e desconhecidos,
que desempenharam um papel significativo nesta obra. Sem eles, não
teria experimentado muitas das lições aprendidas e não teria
material para compartilhar.
E, por fim, minha mais profunda gratidão vai para minha esposa, que
foi minha maior incentivadora, revisora, conselheira e presente
precioso de Deus. Ela foi a força motriz por trás desta obra.
Gostou da leitura ou quer falar sobre a obra? Não prometo resposta, mas lerei assim que possível.
discipulosdecristo@proton.me